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Crítica: O Esquadrão Suicida

The Suicide Squad, EUA, 2021


Surpreendentemente, O Esquadrão Suicida é uma das melhores adaptações de quadrinhos já produzidas

★★★★☆


Se o diretor James Gunn tivesse feito de O Esquadrão Suicida apenas mais uma boa adaptação de quadrinhos, isso já estaria ótimo. Porém, Gunn leva a produção para os limites inexplorados do gênero e entrega um dos filmes mais intensos e divertidos dos últimos tempos. Não se trata apenas do ótimo humor negro ou das fantásticas cenas de ação, mas da combinação desses elementos com uma narrativa muito bem construída, tanto em termos de estrutura quanto no desenvolvimento dos personagens.

o esquadrão suicida 1Gunn aproveita a classificação para maiores de dezoito anos para mostrar o que realmente significaria ter um grupo de vilões sendo obrigado a trabalhar para o governo em missões clandestinas. A premissa do filme, que gira inteiramente em torno de uma única missão, é relativamente simples, mas mesmo assim o diretor consegue extrair o máximo de ação e humor ao longo do percurso. O pouco que se mostra sobre o recrutamento e o passado dos personagens é vital para a história, ao invés de causar a impressão de ser uma “burocracia” necessária.

O segredo aqui é justamente dar espaço para que os personagens se mostrem em seu pior ao mesmo tempo em que explica a origem de suas vilanias. O Esquadrão Suicida também é um filme sobre traumas e suas consequências, fundamentando as ações e os pontos de vista dos personagens nas experiências traumáticas que eles tiveram durante a infância ou no passado recente. E a trama faz isso de forma tão bem humorada quanto genuína, equilibrando o exagero da violência com a autêntica humanidade dos personagens. O aspecto mais convencional do filme é que os poucos sobreviventes que chegam até o final encontram alguma forma de redenção, apesar de não estarem em busca dela inicialmente.

Parte do sucesso aqui ocorre graças a um fantástico elenco que abraça a loucura e se entrega aos personagens. Enquanto Idris Elba, John Cena e Joel Kinnaman formam um mais que respeitável trio de ação, Margot Robbie mais uma vez brilha com sua Harley Quinn, especialmente durante a romântica e dolorosa aventura paralela que ela tem durante o filme. Já Daniela Melchior e David Dastmalchian dão shows à parte, sendo muito bem-sucedidos em dar profundidade a seus personagens. Até o Tubarão-Rei, que é feito em CGI e cujas poucas falas são interpretadas por Sylvester Stallone, está muito bem composto, sendo o “Hulk” da equipe.

o esquadrão suicida 2Como se tudo isso não bastasse, O Esquadrão Suicida também acerta ao “jogar” todos esses elementos fantásticos em um fictício país sul-americano que está passando por um conturbado momento político. A representação feita realmente se parece com um país latino americano, e não com um mero estereótipo. As ruas e alguns dos ambientes poderiam facilmente ser localizados em cidades como Caracas ou São Paulo, ou mesmo Havana ou Santiago. Para brasileiros, a sensação de familiaridade fica ainda mais forte quando a trilha sonora inclui músicas como Samba na Sola, Quem Tem Joga e Meu Tambor.

Infelizmente, a trama política também nos é bem familiar. O país fictício acabou de sofrer um golpe militar que removeu do poder uma dinastia de ditadores apoiada pelos EUA, levando o governo americano a enviar a equipe clandestina para destruir uma arma secreta. Apesar da América Latina ainda ser um foco de golpismo, essa trama específica lembra a história recente de países como Irã e Egito. No Irã, a revolução de 1979 tirou do poder um ditador apoiado pelos EUA e o substituiu com uma semi-democracia teocrática e anti-EUA. No Egito, a revolução de 2011 também tirou do poder um ditador apoiado pelos EUA, mas o substituiu por ditadura militar que tem uma relação instável com a potência ocidental (cautelosa durante o governo Obama e amigável durante o governo Trump).

Ao combinar humor negro, ação alucinante, personagens bem desenvolvidos, cinematografia esplendida e uma trama antiautoritária, O Esquadrão Suicida se mostra uma obra muito mais completa do que “concorrentes” como seu antecessor Esquadrão Suicida (2016) e Deadpool 2 (crítica aqui). Esse não apenas é um dos melhores filmes do DCEU (talvez, o melhor), mas também uma das melhores adaptações de quadrinhos já produzidas.

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