Modo Noturno:

Crítica: Educação Americana – Fraude e Privilégio

Operation Varsity Blues: The College Admissions Scandal, EUA, 2021


A brutalidade e a ousadia dos piratas da vida real são mostradas sem rodeios nessa série documental

★★★☆☆


O documentário jornalístico Educação Americana: Fraude e Privilégio é mais um acerto da Netflix e mais um interessante estudo sobre a natureza da corrupção. Dessa vez, as encenações são diretamente baseadas nas escutas realizadas pelo FBI como parte da Operação Varsity Blues, que investigou as cinquenta pessoas envolvidas no escândalo da propina paga por milionários e estrelas de TV para colocar filhos em faculdades de elite nos EUA. Ainda que não seja muito envolvente ou empolgante, o resultado é fantasticamente interessante.

operation varsity blues 1No centro da trama está Rick Singer (Matthew Modine), consultor educacional que montou um esquema “infalível” para garantir vagas nas mais prestigiadas universidades americanas para os filhos dos ricos e poderosos. Seu estilo lembra o de outras figuras controversas e manipuladoras mostradas em documentários como O Falsificador Mórmon (crítica aqui) e Na Rota do Dinheiro Sujo. A impressão que fica é que em determinado ponto ele se esquece do quão ilegal é o seu modelo de negócio e passa a discutir as fraudes abertamente no telefone, para sorte do FBI.

Do outro lado estão pais que não medem esforços para garantir o melhor para seus filhos e estão dispostos a usar seu poder econômico para garantir o que os próprios adolescentes não conseguem. Os exames para admissão em universidades nos EUA são o SAT e o ACT, provas semelhantes ao ENEM que muitas universidades usam como parte dos critérios de aceitação. Teoricamente, os filhos dos ricos e famosos já possuem todas as vantagens possíveis: educação básica de qualidade, possibilidade de se dedicar inteiramente aos estudos, acesso a múltiplos recursos culturais e educacionais, etc. E, mesmo assim, seus pais resolveram trapacear.

Educação Americana também fala sobre a indústria formada ao redor desses testes. Vários outros consultores são entrevistados e falam sobre a realidade da situação: os privilegiados os contratam anos antes da realização das provas para ajudar a melhorar o desempenho dos adolescentes, cobrando de duzentos a mil e quinhentos dólares por hora de auxílio educacional. Ou seja, em condições normais, as provas já são injustas para os filhos da classe média e das classes mais baixas. A trapaça por meio da propina é uma injustiça a mais.

operation varsity blues 2A produção apresenta alguns aspectos em comum com o documentário O Dilema das Redes (crítica aqui) quando mostra que algumas dessas universidades são altamente concorridas simplesmente por causa de seu prestígio. A necessidade de projetar uma imagem de sucesso e exclusividade leva muitos pais e adolescentes a ficarem obcecados com as poucas universidade da Ivy League, como se as milhares de outras universidades americanas não oferecessem educação de qualidade. Para eles, entrar em uma universidade sem renome não corresponde à imagem de luxo e privilégio que pais e filhos querem transmitir tanto online quanto em círculos sociais convencionais.

Por fim, Educação Americana também mostra a engrenagem do esquema de corrupção montado por Singer, envolvendo diversos funcionários das instituições citadas. Nesse sentido, a produção lembra a história real contada em Má Educação (crítica aqui), que mostra como pequenos atos de corrupção se transformam em um mega-esquema que desvia milhões de dólares de uma escola de ensino médio nos EUA. Nos dois casos, funcionários do sistema educacional se viram no direito de se aproveitar de suas posições para “tirar uma grana por fora” e perdem o controle da situação. Depois de certo tempo, eles passam a acreditar que jamais serão pegos e deixam de ser cuidadosos.

Tudo isso faz com que Educação Americana: Fraude e Privilégio mereça ser visto não apenas por seu lado jornalístico, mas também por seu lado humano e social. Por um lado, os envolvidos pensam: se é assim que as coisas funcionam, não sou eu quem vai ficar de fora. Por outro, não há como existir um sistema verdadeiramente meritocrático de admissão diante das muitas diferenças sociais existentes tanto nos EUA quanto no resto do mundo.