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Crítica: Bliss – Em Busca da Felicidade

Bliss, EUA, 2021


Filme vai tão fundo na confusão e na ambiguidade que muito pouco pode ser aproveitado da história

★☆☆☆☆


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Há uma importante mensagem em Bliss: Em Busca da Felicidade sobre a importância de se encarar a realidade e não tentar escapar dela por meio de drogas ou outros subterfúgios. Porém, é uma mensagem envolta em uma trama que, além de não ser capaz de envolver o espectador emocionalmente, também não consegue guiá-lo pelas ideias que o filme tenta desenvolver. Os aspectos de fantasia e ficção científica são utilizados de uma forma tão confusa que deixa o espectador perdido sobre o que a narrativa está tentando dizer e onde ela quer chegar.

Em alguns momentos, o filme parece levantar questionamentos sobre as questões éticas de se criar verdadeiras inteligências artificiais. Em outros, há um comentário sobre o futuro da humanidade e quais seriam nossos desafios depois de se atingir uma utopia. Há também a questão dos vínculos emocionais criados em ambiente virtual. E há os momentos em que a ambiguidade toma conta e o que é ou não real parece não importar mais. A questão é que toda essa variação temática contribui muito pouco para as conclusões às quais se chega no final, deixando o espectador com a impressão de que ele ficou confuso por nada.

Um exemplo é o crime que o protagonista Greg (Owen Wilson) comete no início da trama, que serve para colocá-lo no caminho de Isabel (Salma Hayek) mas que se torna apenas mais uma fonte de confusão pelo restante do filme. Há vários outros aspectos que funcionam da mesma forma, servindo como algo momentaneamente intrigante ou interessante mas que não possui grandes consequências para a história em si. Outro exemplo disso são as participações do filósofo Slavoj Žižek e do divulgador científico Bill Nye, cujas colaborações acabam perdidas no oceano de ideias parcialmente desenvolvidas de Bliss.

O que o diretor Mike Cahill tenta fazer aqui já foi feito de forma muito mais envolvente em séries como Black Mirror e Legion (resenha aqui), ou mesmo na recente WandaVision. Mas a que mais se aproxima de Bliss talvez seja Undone (comentário aqui), série de animação que também abusa da ambiguidade para contar sua história sobre fantasia e saúde mental. A grande diferença é que nessa série, mesmo em momentos nos quais não é possível diferenciar a fantasia da realidade, o espectador tem uma forte envolvimento emocional com a protagonista e com sua situação.

Tanto Bliss quanto Undone são contados sob o ponto de vista de uma pessoa que está perdendo a conexão com a realidade, mas a série é muito melhor em manter a coesão narrativa e o interesse do espectador. Enquanto a ambiguidade em Bliss serve apenas como fonte de confusão, em Undone ela é parte da história e ajuda o espectador a entender o momento pelo qual a protagonista está passando.

Talvez exista um público alvo correto para Bliss: Em Busca da Felicidade, principalmente entre pessoas que já passaram por problemas de dependência química e perderam a noção da realidade. Mas para o público em geral, a experiência provida pelo filme pode ser bem frustrante e sem sentido. Apesar das ótimas atuações (especialmente por parte de Hayek), o roteiro falha em apresentar personagens e situações que formem uma grande ideia ou um grande arco dramático.

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