A Guerra dos Sexos e a Fórmula Mágica do Amor


Conforme o número de pessoas que permanecem solteiras segue crescendo no mundo e no Brasil, muita gente gostaria de aprender uma “fórmula mágica” (ou alguma espécie de algoritmo) para encontrar um parceiro ou para manter o equilíbrio em um relacionamento existente. Quando analisamos mais de perto, o “amor” parece ser apenas uma das muitas variáveis que fazem a diferença nesse sentido. Indo além, o sucesso de um relacionamento amoroso depende também da relação que as pessoas têm com si próprias, com seu passado e com o mundo ao redor.

Na tentativa de encontrar respostas simples e diretas, podemos recorrer a generalizações tão amplas quanto incorretas, como se pudéssemos explicar o comportamento de TODOS os homens ou de TODAS as mulheres com apenas algumas palavras ou afirmações categóricas. O pior é quando começamos a levar essas generalizações a sério demais e as utilizamos como base para tomar decisões que podem moldar os restos de nossas vidas.

Em estudos sobre a nossa busca pela felicidade, pesquisadores diferentes geralmente chegam a uma mesma conclusão: nós somos incrivelmente ruins em prever o que nos fará felizes. Enquanto focamos em conquistas grandiosas e dramáticas, a realidade é que podemos encontrar satisfação em momentos muito menores e mais singelos. Por exemplo, ao invés de ter como objetivo profissional ter um salário cada vez mais alto, é muito melhor buscar uma situação de equilíbrio que lhe possibilitará passar mais tempo ao lado de quem você ama.

Já a narrativa de “guerra dos sexos” insiste em tratar homens e mulheres como “criaturas” completamente diferentes, com um lado tratando o outro como o grande vilão da história. Porém, apesar das diferenças biológicas e da atual prevalência de sociedades patriarcais, os dois lados desse suposto “conflito” possuem muito mais semelhanças do que diferenças e enfrentam desafios equivalentes quando olhamos sob o ponto de vista da condição humana.

No geral, as pessoas querem apenas se sentir amadas e acolhidas. Porém, o caminho até uma verdadeira situação de contentamento e companheirismo é marcado por dificuldades tão intensas quanto incrivelmente complexas. Nas seções a seguir, vamos tentar abordar uma pequena parte dessa complexidade.

Violentos Afetos

Apesar das semelhanças entre os gêneros, quando falamos sobre o desenvolvimento emocional de seres humanos, as diferenças começam a aparecer na forma de construções sociais. Por exemplo, existe a ideia de que meninos devem ser, acima de tudo, “durões” e meninas devem ser “delicadas”. Uma das consequências dessa mentalidade é que meninos crescem com muito menos contato físico afetuoso do que meninas, levando-os, mais tarde, a associar esse tipo de contato apenas com violência ou com práticas sexuais.

Esse artigo diz:

Apesar dos claros benefícios do afeto físico, [o especialista entrevistado] diz que, no geral, a cultura dos EUA sofre com falta de toque. Para os garotos, o problema se combina com rígidas ideias sobre masculinidade que desencorajam a proximidade física e emocional. O resultado é que alguns garotos podem não estar recebendo toques o suficiente de cuidadores, professores, amigos e outros entes queridos. (…)

Quando garotos não recebem o toque humano necessário para um desenvolvimento saudável, (…) eles podem buscar isso de formas menos apropriadas ou, às vezes, mais agressivas. Isso pode aparecer na forma de socos no braço ou na região da virilha “por brincadeira”, mas também pode se manifestar como irritabilidade, ansiedade, isolamento social ou dificuldades em se acalmar.

Isso ajuda a entender o porquê de tantos homens recorrerem à agressões físicas para lidar com grandes e pequenas frustrações, levando a altíssimas taxas de violência contra a mulher e à necessidade de se cunhar o termo feminicídio como tipificação criminal. Essas limitações emocionais também podem ajudar a explicar os motivos pelos quais muitos homens buscam lazer, pertencimento e sociabilidade no fenômeno das brigas de torcida (também chamadas de “bondes de pista”) ou em outras atividades criminosas.

Assim, os homens ficam mais limitados não apenas no ato de oferecer carinho, mas também no ato de recebê-lo. Acostumados com a falta de toque, eles podem passar a vida inteira sem conhecer os benefícios desse tipo de interação. Há homens que só aprendem sobre o toque físico fora de contextos violentos ou sexuais quando têm filhos e começam a cuidar da criança por longos períodos. E há também homens (e até mulheres) que recorrem aos chamados “profissionais do aconchego” (do inglês, professional cuddler), que são pessoas que oferecem sessões de abraços, carinhos e conversas sem conotação sexual.

Por outro lado, as garotas geralmente recebem quantidades saudáveis de carinho e atenção, mas são “treinadas” para serem submissas e dependentes de um homem “provedor”. Ao longo da História das patriarcais sociedades ocidentais, isso muitas vezes resultou em mulheres que chegam à idade adulta ainda com uma psique “infantilizada” e incapazes de lidar com responsabilidades financeiras. Ao invés de se preocuparem com carreira e sustento, elas eram incentivadas a se preocupar apenas em serem atraentes o suficiente para arrumarem um marido e “prendadas” o suficiente para cuidar da casa e dos filhos.

Enquanto limitava as liberdades das mulheres, essa lógica também depositava grandes pressões financeiras e psicológicas sobre os homens. Ao invés de uma parceira de vida, o que eles tinham era uma espécie de “propriedade” que precisava ser mantida e controlada. A duras penas, essa lógica começou a ser questionada por movimentos feministas, apesar de ainda ser defendida por homens que não querem perder essa posição de poder e até por mulheres que não querem perder os “benefícios” dessa vida de submissão e responsabilidades estritamente domésticas.

Além disso, as garotas também eram incentivadas a reprimir a própria sexualidade, o que pode resultar em mulheres que não lidam de forma saudável com os próprios desejos. Em muitos casos, o sexo jamais é visto como uma fonte de prazer, afeto e intimidade, mas sim como uma obrigação ou como uma moeda de troca. Por outro lado, os meninos eram incentivados a projetar a sexualidade como um sinal de potência e poder, colocando sobre eles a pressão dessa performance.

Dessa forma, percebe-se que, apesar do desequilíbrio de poder e dos muitos tipos de violência sofridos pelas mulheres, a lógica patriarcal pressiona os dois lados para que eles cumpram papéis preestabelecidos. Talvez esses papéis até sejam aceitáveis para uma parte da população, mas eles podem ser absurdamente sufocantes para quem estiver interessado em lógicas mais igualitárias de parceria, afetuosidade e amor.

Em fóruns e outras plataformas que abordam temas de “direitos dos homens” (e que muitas vezes descambam para a mais pura misoginia), é comum ver comentários reclamando sobre o fato de que, enquanto as meninas e as mulheres são vistas como dignas de receber amor incondicional, os homens dignos de amor são apenas aqueles capazes de prover recursos e de resolver problemas. Ou seja, enquanto as mulheres merecem ser amadas apenas por existirem, os homens precisam, de tempos em tempos, provar que ainda são úteis e que ainda possuem algum valor.

Nesses fóruns e plataformas, um outro comentário bem comum é: “a primeira vez que um homem recebe flores é em seu funeral”.

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Violentas Fantasias

Na ânsia de se sentirem desejáveis e dignos de serem amados, homens e mulheres podem gastar grandes quantidades de tempo e dinheiro tentando se encaixar uns nas fantasias dos outros. Nos casos mais extremos, a saúde e o bem-estar podem ser colocados em risco quando se busca por padrões estéticos arbitrários e incompatíveis com os corpos da maioria das pessoas. Ao invés de se valorizar as belezas específicas de cada um, vai-se criando um cenário no qual todas pessoas tentam ser bonitas e atraentes exatamente do mesmo jeito.

Historicamente, esse problema é mais grave no caso das mulheres, que desde a infância vão internalizando ideias de padrões de beleza e comportamento que prevalecem tanto na mídia quanto nas pessoas ao seu redor. Muitas vezes, quando chegam à idade adulta, elas sequer se lembram de quando, como e porque começaram a perseguir esses padrões. Elas apenas “sabem” que, se quiserem se sentir desejadas e dignas de serem amadas, precisam se encaixar em determinados padrões de magreza e de volume de seios, nádegas e lábios, por exemplo.

Mais recentemente, muitos homens também vêm sentindo esse tipo de pressão, o que também os leva a recorrer a procedimentos estéticos para se encaixarem em padrões de atratividade e masculinidade.

E assim, além de lotar as academias e pistas de corrida, muita gente recorre a cirurgias plásticas, próteses de silicone, apliques de toxina botulínica (mais conhecida pela marca Botox), implante capilar, lipoaspiração, harmonização facial e de glúteos, preenchimento facial/labial com ácido hialurônico, peeling, microagulhamento, dentre outros. Vale notar que boa parte desses procedimentos visam deixar os clientes com uma aparência mais jovem, já que as mulheres são levadas a acreditar que elas só são atraentes se tiverem eternamente uma aparência de adolescente ou de vinte e poucos anos de idade.

Dentre os muitos procedimentos possíveis, um dos mais caros, dolorosos e invasivos é o de alongamento ósseo, ao qual alguns homens estão recorrendo para ficarem mais altos. O processo consiste em cortar os ossos da tíbia ou do fêmur do paciente e colocar um aparelho que vai alongando-os conforme eles vão cicatrizando. Como o alongamento em si ocorre durante a fase de cicatrização e também vai esticando músculos, nervos e vasos sanguíneos, o pós-operatório acaba sendo a parte mais dolorosa, podendo durar meses. O paciente também precisa fazer fisioterapia para recuperar a musculatura e o movimento.

O tema está chamando a atenção nas mídias sociais e foi recentemente abordado no filme Amores Materialistas, com um dos personagens admitindo que ele e o irmão a fizeram. Ele diz para sua namorada:

Eu sei que parece estúpido quebrar as suas pernas para ganhar alguns centímetros, mas nós ainda achamos que valeu muito a pena. Mudou as nossas vidas. Com as mulheres, completamente. Agora as mulheres nos abordam e começam a conversar conosco, o que nunca havia acontecido antes. Não tive mais “azar” desde então. Também percebemos a diferença no trabalho, e em restaurantes, e em aeroportos. Você simplesmente tem mais valor.

Padrões como esse e como os impostos às mulheres são ainda mais nocivos quando utilizados como filtros de pretendentes. Um exemplo disso é como os aplicativos de relacionamento (como Tinder, Bumble e Happn) permitem que as pessoas filtrem quem as interessam como se estivessem filtrando um produto pelas suas funcionalidades. Dessa forma, ao invés de irem se conhecendo e se conectando de forma orgânica apesar de suas diferenças, as pessoas acabam evitando muitas conexões devido a características que poderiam ser facilmente ignoradas uma vez que a química entre elas fosse compatível.

Nesses aplicativos, é comum que as mulheres deixem claro que estão interessadas apenas em homens mais altos do que elas ou com um determinada altura mínima. Em alguns casos mais “extremos”, há mulheres que escrevem frases como “homem com menos de 1,80m é amigo” ou “homem com menos de 1,80m não é homem”. Porém, também há as mulheres que deixam explicitamente claro que não se importam com a altura do pretendente, chegando a utilizar frases como “estou em busca de um namorado, e não de um homem para pegar goiaba no pé”.

Por outro lado, as preferências que alguns homens colocam nesses aplicativos são bem mais perturbadoras, podendo envolver gordofobia e racismo. Há também os casos nos quais fica claro que o homem não está procurando uma parceira, mas sim uma “servente” ou uma potencial vítima de um relacionamento abusivo.

Ainda sobre fantasias, é importante notar que para algumas pessoas um “relacionamento amoroso” tem muito pouco a ver com “amor”. Por exemplo, há os casos nos quais a parceira ou parceiro são escolhidos não com base em sentimentos ou compatibilidade, mas sim com base na imagem que eles podem projetar. Nesses casos, o companheiro(a) acaba sendo tratado como um “item” que faz parte da “marca” que a pessoa quer projetar em redes sociais, fazendo muito mais parte de seu “estilo de vida” do que realmente sendo um parceiro de vida.

Por fim, uma constatação que talvez não seja óbvia para muitas pessoas é que a experiência masculina não se resume ao “paraíso” de privilégios que muitas pessoas acreditam. Obviamente, os problemas enfrentados pelas mulheres são muito mais sérios e estruturais, chegando a ser questões de integridade física e de vida ou morte. Porém, os tipos de pressão sofridos pelos homens só ficam claros para algumas mulheres quando elas “trocam de lado”.

Em três vídeos disponíveis no YouTube (aqui, aqui e aqui, todos em inglês, mas é possível ativar legendas em português), duas mulheres bissexuais e um homem transsexual revelam quais foram os aspectos que os surpreenderam quando passaram a ficar com mulheres. Não é nada que “mude tudo”, mas revela certas dificuldades que muitas vezes são consideradas “deficiências” por parte dos homens. Dentre as conclusões, alguns destaques:

  • Mulheres se comunicam de forma subjetiva, indireta e, às vezes, contraditória, mas esperam que os parceiros(as) saibam exatamente o que elas precisam e quando precisam;
  • Elas esperam que o parceiro(a) seja uma fonte de apoio e estabilidade emocional, mesmo se o parceiro estiver passando pelas próprias atribulações ou não seja capaz de oferecer esse tipo de apoio;
  • Como foram condicionadas a serem “delicadas” e “boazinhas”, elas podem dizer que já superaram uma frustração quando na realidade ainda estão bem irritadas e ressentidas, o que se manifesta de outras formas;
  • Elas podem criar expectativas que não correspondem ao que elas realmente pretendem fazer;
  • Por mais que isso seja até compreensível, homens geralmente são tratados como ameaças em potencial em situações sociais, o que pode ser uma fonte de isolamento para eles;
  • Dadas as expectativas de comportamento esperadas dos homens, não é seguro para eles manifestarem certos sentimentos, necessidades ou frustrações.

Como dito antes, nenhuma das questões apresentadas nos parágrafos anteriores servem para generalizar ou explicar o comportamento de TODOS os homens ou de TODAS as mulheres. Essas situações apenas mostram que o cenário é bem mais complicado e multifacetado do que muitas pessoas querem acreditar.

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Amores Inconvenientes

Como se tudo isso não bastasse, ainda existe o fato de que estamos reservando cada vez menos tempo para conhecer outras pessoas presencialmente. As formas de lazer às quais nos dedicamos nos deixam cada vez mais tempo na frente de telas (o que nos lembra o documentário O Dilema das Redes), seja utilizando mídias sociais, assistindo a vídeos ou jogando vídeo games. E quando resolvemos conhecer alguém, muitas vezes fazemos uso dos aplicativos de relacionamento, que vêm com os problemas e desvantagens já mencionados na seção anterior.

Além disso, pressões financeiras e longas jornadas de trabalho dificultam ainda mais as possibilidades de pessoas adultas terem tempo ou disposição cognitiva suficiente para investirem em um relacionamento amoroso. Jovens que desde cedo investem em suas carreiras podem ficar muito bons em navegar as realidades da vida profissional, mas também podem acabar subdesenvolvendo a capacidade de ter uma vida compartilhada com outra pessoa. Quando a solitude se torna razoavelmente confortável, fica ainda mais difícil abrir mão dela e fazer concessões para que um outro alguém entre em sua vida.

E assim, cresce o número de pessoas que ficam em casa e esperam que o amor de suas vidas bata à porta e lhes traga felicidade. Todas essas dificuldades podem alimentar a ideia de uma “guerra dos sexos”, com um lado culpando o outro pelas inconveniências e incompatibilidades dos relacionamentos. A realidade é que nós estamos vindo de uma situação de desigualdade de gênero que deixou tanto as mulheres quanto os homens traumatizados por violências, inseguranças, exigências e expectativas sufocantes.

O caminho para o equilíbrio não passa pela vilanização de um dos lados, mas sim pela busca por superação, maturidade e inteligência emocional. Homens e mulheres devem ser capazes de compartilhar a responsabilidade por esse processo de regeneração e de interromperem um ciclo de abusos e violências que não foi iniciado por nenhuma das gerações atuais. Não existe uma “fórmula mágica do amor”, mas existe como começarmos a traçar uma rota de saída dessa complicada situação.

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