Lanternas: Homens Quebrados e Destinos Incertos
É verdade que Lanternas abriu mão de explorar todo o potencial cósmico e grandioso do universo do Lanterna Verde, mas isso abriu as portas para uma marcante releitura do personagem. Se essa releitura é bem-vinda ou não fica a critério de cada espectador. A questão é que, ao invés de uma grande batalha contra um grande inimigo, a trama está mais focada na trajetória dos dois protagonistas e de outros personagens em busca de suas próprias identidades e da definição de seus destinos. Assim, ao invés de batalhas interplanetárias, a narrativa está muito mais interessada nas experiências humanas e nos dilemas morais causados pelo poder do anel do Lanterna Verde.
O que eu e muitos outros espectadores esperavam era que a série mostraria John Stewart (Aaron Pierre) se tornando o novo Lanterna Verde da Terra, assim como Pinguim mostrou o protagonista se tornando um impiedoso vilão. Em um momento grandioso, John Stewart seria escolhido pelo anel, vestiria o uniforme pela primeira vez e recitaria o clássico juramento dos Lanternas Verdes:
No dia mais claro,
Na noite mais densa,
Nenhum mal escapará à minha presença.
Todo aquele que venera o mal há de penar,
Quando o poder do Lanterna Verde enfrentar!
Essa tradução não é 100% fiel, pois os tradutores brasileiros mudaram algumas palavras para manter as rimas do original, que diz:
In brightest day, in blackest night
No evil shall escape my sight
Let those who worship evil’s might,
Beware my power, Green Lantern’s light!
Porém, não é nessa direção que a série vai. É compreensível que muitos espectadores tenham ficado frustrados, pois essa releitura ocorre antes mesmo do personagem ser adaptado de forma convencional para a TV ou para o cinema. O filme de 2011 ainda é considerado uma adaptação bem questionável, já que tira boa parte da seriedade do herói enquanto, de forma apressada, o mostra lidando com vários vilões e com vários aliados clássicos do personagem. Tudo o que os fãs gostariam de ver está naquele filme, mas não de uma forma coerente e equilibrada.
Ao invés do uniforme fluorescente e das viagens intergalácticas do filme, a série Lanternas é em grande parte ambientada na pequena cidade de Rushville, no estado do Nebraska. A trama é claramente inspirada na série True Detective, tanto na dinâmica entre seus protagonistas quanto na estrutura da narrativa, que se passa em múltiplas linhas do tempo. Em 2016, o Lanterna Verde Hal Jordan (Kyle Chandler) e seu aprendiz John Stewart vão para Rushville investigar um possível ataque alienígena, o que os coloca no encalço de um temido Caçador Cósmico. Em 2026, John volta para Rushville para investigar o inesperado assassinato de Hal, que já não é um Lanterna.
Essa é uma forma bem simplista de descrever a trama da série, que conta com várias reviravoltas. A produção é um perfeito reflexo da colaboração entre seus três criadores. Damon Lindelof foi o showrunner da minissérie Watchmen, que também lida com ideias de heroísmo (“quem vigia os vigilantes?”) e com vários personagens em busca de um grande poder. Chris Mundy, por sua vez, foi roteirista de dois episódios e produtor de True Detective: Terra Noturna, além de já ter escrito para séries como Bloodline e Ozark. Já Tom King tem uma longa carreira como roteirista de histórias em quadrinhos, o que é vital para a trama de Lanternas se manter fiel aos personagens apesar de todas as mudanças.
Além das duas linhas do tempo principais, Lanternas também passeia por flahsbacks para as infâncias de Jordan e Stewart, o que é vital para entender os homens que eles se tornaram e as decisões que eles tomam.
O pai de Stewart, também chamado John (J. Alphonse Nicholson), havia sido um dos candidatos para se tornar o Lanterna Verde quando a nave de Abin Sur caiu na Terra. Porém, quando perguntado se estava com medo, que é o teste realizado pelo anel no universo da série, ele respondeu que sim. Dessa forma, o anel passou ele e todos os outros candidatos que ficaram aterrorizados com a experiência e escolheu o primeiro que afirmou não ter medo: Hal Jordan.
Esse trauma leva o John pai e sua esposa Bernadette (Jasmine Cephas Jones) a criarem John Stewart para ser um homem destemido e comedido, com o intuito de que ele seja escolhido como Lanterna Verde. Diante das limitações que John já teria que enfrentar sendo um homem negro nos EUA, era importante para seus pais que ele não fosse deixado para trás diante da oportunidade de se tornar um super-herói. Porém, ao começar essa preparação ainda durante a primeira infância do garoto, John e Bernadette acabam roubando o filho de sua infância e da completa formação de uma identidade própria. Ele aprende a não sentir medo, a não demonstrar sentimentos e a seguir ordens, mas não aprende a ter as próprias opiniões ou a formar vínculos emocionais profundos e duradouros.
Assim, na tentativa de evitar os próprios traumas, os pais de John acabam traumatizando-o de uma outra forma, o que é o tipo de coisa que acontece frequentemente na vida real.
Já a infância de Hal Jordan é marcada por diferentes tipos de ausência paterna, seja ela física ou emocional. Seu pai Martin (Jake B. Miller) lhe deixa como herança sua audácia e suas tendências depressivas. Talvez Martin acredite que está fazendo um favor ao filho ao lhe falar do “legado dos garotos da família Jordan”, dando a entender que não há como Hal escapar do ciclo de impulsividade e autodestruição no qual ele mesmo está preso. Assim como repete o comportamento do próprio pai, Martin espera que Hal repita o seu comportamento, ao invés de tentar guiar o garoto para que se torne um homem saudável e interrompa o ciclo de autodestruição.
E assim, tanto Hal Jordan quanto John Stewart chegam à idade adulta acreditando que seus destinos já estão definidos. Enquanto John está focado em ser escolhido pelo anel e desenvolve de forma limitada os outros aspectos de sua vida, Hal está focado em jamais abrir mão do manto do Lanterna Verde. Uma vez que moldou toda a sua vida e toda a sua identidade ao redor desse título, Hal Jordan não está disposto a simplesmente entregá-lo para outra pessoa. Sem família, amigos ou outros tipos de relacionamentos próximos, o anel e a missão que vem com ele é tudo o que havia lhe restado quando o encontramos em 2016.
Sua obsessão em continuar sendo o Lanterna Verde o impede de enxergar o total contexto de suas ações e o leva a desconsiderar os potenciais efeitos negativos que seu “heroísmo” pode ter sobre a vida das pessoas. Seu cansaço psicológico e sua moral cinzenta vão ficando cada vez mais problemáticos, até chegar ao ponto no qual dezenas de pessoas são mortas ou feridas devido à sua “audácia”. Por outro lado, essa situação leva John Stewart a reconsiderar o objetivo que ele está desde a sua infância tentando alcançar, percebendo que também poderia se perder pelo caminho se assumisse o anel em 2016.
Mas Lanternas oferece saídas honrosas para os dois personagens.
Em 2026, depois de cumprir uma pena de prisão por ter provocado as mortes já citadas, Hal volta para Rushville e faz o que pode para compensar os erros que cometeu em 2016. Deixando para trás a sua obsessão com o anel do Lanterna Verde, ele inicia um relacionamento com a xerife Kerry Kane (Kelly Macdonald) e finalmente consegue enxergar uma outra possibilidade de vida para o seu futuro. Infelizmente, o destino lhe reserva uma última surpresa, ainda resquício dos eventos de 2016.
Assim como John e Hal, o jovem Noah Macon (Shea Pritchard) parece estar preso diante de um destino inevitável. O fato de que ele é um Caçador Cósmico significa que seus instintos mais básicos tendem a levá-lo a conquistar uma posição de poder totalitário e a controlar o futuro da humanidade, seja guiando-a conforme o que lhe parece correto ou seja destruindo-a. A outra possibilidade é que ele viva como um ser humano normal, se relacionando de formas saudáveis com as outras pessoas e buscando ser uma pessoa feliz. Conscientemente, é isso o que Noah quer, mas nem ele confia em seus instintos mais sombrios.
Ao invés de mostrar uma grande batalha e um grande triunfo dos “mocinhos”, o episódio final de Lanternas está mais preocupado em mostrar as escolhas feitas pelos protagonistas. Os grandes “vilões” que eles superam são as crenças limitantes que os mantinham com visões bem restritas do que suas vidas poderiam ser. John Stewart poderia simplesmente tratar Noah como um inimigo e resolver a situação por meio da violência, o que provavelmente resultaria em um grande e satisfatório espetáculo de ação para nós espectadores.
Mas a trama é bem mais profunda do que isso. É por isso que não temos John Stewart sendo escolhido pelo anel, vestindo o uniforme e recitando o clássico juramento dos Lanternas Verdes. O que temos é John Stewart assumindo as rédeas do próprio destino. Ao invés de ser escolhido por um anel, é ele quem escolhe o anel que irá utilizar. Ao invés de se submeter à força policial da Tropa dos Lanternas Verdes, ele se estabelece como um defensor independente do planeta Terra. E ao invés de recitar o clássico juramento da corporação, ele recita um juramento de autoria própria:
No dia mais claro
Na noite mais escura
Aceitarei o meu medo
Farei o que é certo
Escolho este anel
Escolho esta luta
A serviço da luz desta Lanterna
Ao fim, não é o anel que faz de Hal Jordan e de John Stewart super-heróis, mas sim suas atitudes diante das tentações de poder, das dificuldades que eles enfrentam e das pessoas que precisam de seu auxílio. Lanternas não nos oferece um grande espetáculo de ação no episódio final, mas sim reflexões sobre as nossas escolhas individuais e sobre como elas podem afetar a trajetória da humanidade.


