Simplicidades

Nós programadores gostamos de simplicidade. Um código para resolver um determinado problema deve ter estritamente os comandos necessários para resolver aquele problema. Sem voltas ou complicações desnecessárias. Mesmo os problemas complexos são divididos em problemas menores (digamos, “componentes”) e mais simples. Além disso, é importante que esses problemas menores estejam bem isolados uns dos outros, a fim de evitar que uma alteração em um deles exija a adaptação dos outros àquela mudança. Dessa forma, é possível fazer uma alteração pontual sem se preocupar com os efeitos colaterais no resto do sistema.

Infelizmente, a nossa sociedade não foi desenvolvida dessa forma. Ela foi e está sendo moldada por um processo que já dura milhares (ora, por que não, bilhões) de anos. Os “componentes” envolvidos estão intimamente ligados e não podem ser alterados individualmente sem afetar outros. Uma pequena alteração em um deles pode disparar uma reação em cadeia cujo resultado final é imprevisível e/ou indesejável. Porém, isso não evita que a maioria das pessoas e instituições tratem essa sociedade como um sistema simples, no qual respostas pontuais para problemas aparentemente pontuais seriam suficientes. Isso ocorre porque a ânsia de se resolver um determinado problema é amplamente maior que a vontade de entender como aquele determinado problema se relaciona com os outros. Como em uma questão de física em uma prova do Ensino Médio, a resistência do ar é ignorada, e com um cálculo puramente teórico e incompleto tenta-se resolver um problema do mundo real.

Esse tipo de tratamento é causado principalmente pela indisposição que a maioria das pessoas tem por análises profundas das situações com as quais elas tem que lidar. É muito mais simples recorrer à um conjunto de decisões pré-fabricadas, providas por ideologias ou religiões, e aplicá-las às situações que surgem na sociedade ou, mais simplesmente, em nosso dia-a-dia. Esses conjuntos de decisões pré-fabricadas permitem confortáveis simplificações para decisões que na prática são insuportavelmente complexas. Divide-se as possibilidades entre o certo e o errado; o bem e o mal, dentre outras dicotomias simplistas. O importante é evitar a reflexão sobre as grandes e pequenas decisões que temos, como sociedade, que tomar todas os dias.

Acredito que a manifestação máxima dessas simplificações ocorre nas polêmicas semanais/mensais que surgem na Internet. Nossa nova ágora permite que os mais radicais e simplistas pontos de vista sejam alardeados aos quatro ventos sem impedimentos. Opiniões são formadas em piscar de olhos. Problemas históricos são reduzidos à simplificações inacreditáveis. As simplificações que já eram errôneas o suficiente quando impressas nas capas de jornais no formato de manchetes tem um alcance sem precedentes nessa nova era. “Notícias” que se tornam memes nas inúmeras mídias sociais. Manipuladores profissionais elevam suas habilidades a níveis quase divinos.

É com essa situação em mente que dou início a essa série de posts. Não pretendo tratar dos temas específicos que estão bombando na semana, mas sim da abordagem geral que esses tipos de temas e/ou fatos históricos acabam recebendo. Mais importante que a reflexão sobre esses temas é a reflexão sobre como os tratamos, ou o que perdemos quando os simplificamos. Não prometo posts com uma certa regularidade, mas eles virão. Ou pelo menos, assim espero.