Modo Noturno:

O Superdeterminismo de Devs

Há uma típica história noir na superfície de Devs.

Ambientada em São Francisco, a minissérie mostra a trama de espionagem e assassinato na qual a engenheira de software Lily (Sonoya Mizuno) se envolve depois que começa a investigar o desaparecimento de seu namorado, Sergei (Karl Glusman). Isso a coloca em rota de colisão com o proprietário da empresa na qual ambos trabalham, o visionário Forest (Nick Offerman), envolvendo também seu braço direito, Katie (Alison Pill), e seu implacável chefe de segurança, Kenton (Zach Grenier). Posteriormente, Lily conta com a ajuda de seu ex-namorado, Jamie (Jin Ha) durante a investigação.

Todos os oito episódios são escritos e dirigidos pelo criador Alex Garland, que é a mente por trás de dois dos mais celebrados trabalhos de ficção científica dos últimos anos: Ex-Machina: Instinto Artificial e Aniquilação (crítica aqui). Em Devs, ele mais uma vez acerta a mão. A narrativa pode ser um pouco lenta para parte do público, mas um opressor clima noir (no qual a trilha sonora se destaca) e uma constante tensão hipnotizam o espectador ao longo dos capítulos.

Mas é o que há sob essa superfície que realmente interessa.

Acontece que a empresa de Forest, Amaya, foi capaz de desenvolver com sucesso um avançado computador quântico e já começa a explorar as suas aplicações. Uma delas parece ser o misterioso projeto Devs, no qual Sergei foi alocado antes de desaparecer. Já no segundo episódio, fica claro que Devs é um avançado projeto de simulação da realidade, a ponto de ser capaz de projetar imagens do presente, do passado e do futuro.

Os desenvolvedores alcançaram isso utilizando-se da interpretação de Bohm da mecânica quântica, que assume um universo simples e determinístico. E o determinismo é a chave aqui: se o Universo realmente é determinístico, isso significa que as trajetórias de todas as partículas que o compõem foram determinadas no momento de seu surgimento. Ou seja, o Big Bang deu início a uma reação em cadeia perfeitamente previsível e simulável (dado que se tenha poder computacional suficiente) que define todos os acontecimentos desde então, seja o surgimento de galáxias, seja um ato corriqueiro de qualquer pessoa, como espirrar ou piscar os olhos.

Sendo assim, se você conhece a posição atual de uma partícula, também seria possível calcular as posições passadas e futuras dela. Ao se extrapolar isso para um grande conjunto de partículas e levando-se em conta as interações entre elas (por exemplo, por meio da dinâmica molecular), seria possível calcular o “estado” do Universo em qualquer ponto do tempo desde o Big Bang. Uma vez calculado o estado, a equipe do projeto Devs teve “apenas” que projetar as imagens e os sons para assistirem vídeos de eventos históricos que ocorreram muito antes da invenção de câmeras de vídeo.

Mas é quando se projeta o futuro que os problemas começam. Sob esse modelo determinístico, você pode até saber o que vai acontecer, mas é incapaz de alterar o futuro. É um “problema” semelhante aos enfrentados pela protagonista de A Chegada (crítica aqui) e pelo Dr. Manhattan de Watchmen (análises aqui e aqui). Ambos conhecem os acontecimentos futuros (ela tem “memórias” de eventos que ainda não ocorreram e ele vivencia todos os pontos do tempo simultaneamente) e, ainda assim, não se sentem presos a algo pré-determinado. Em Devs, Forest dá uma explicação semelhante, dizendo que, apesar de já saber quais são as palavras que sairão da própria boca, ele não sente que as está dizendo por já conhecê-las, mas sim porque são essas as palavras que, naquele momento, ele tem a vontade de dizer.

Mas e se ele tivesse a vontade de alterar a previsão? Então, há aí um paradoxo, além de sérias implicações para o nosso livre arbítrio.

Digamos que você consulte o sistema Devs e o que você vê é você mesmo, dentro de alguns minutos, “brincando” de roleta russa e perdendo: a arma dispara e você morre. Diante dessa informação, você decide não jogar aquele jogo. Porém, se não jogar realmente fosse o seu futuro, o sistema teria previsto isso. Sob paradigmas determinísticos, tanto o fato de que você escolheria jogar quanto o fato de que você já saberia o resultado são consequências imutáveis do próprio surgimento do Universo.

Porém, em determinado ponto de Devs, alguém contraria uma previsão feita pelo sistema. Mas isso só acontece porque eles passam a utilizar a interpretação dos muitos mundos da mecânica quântica. Ao contrário do modelo determinístico, essa interpretação defende que uma partícula pode estar em uma sobreposição quântica de estados, potencialmente infinitos, cada um em um Universo diferente e incomunicável. Qual a implicação disso para o exemplo da roleta russa?

Digamos que você consulte o sistema Devs e o que você vê é você mesmo, dentro de alguns minutos, “brincando” de roleta russa e perdendo: a arma dispara e você morre. Diante dessa informação, você decide não jogar aquele jogo e você realmente não o joga, permanecendo vivo. Sob o paradigma dos muitos mundos, esse é apenas um dos Universos possíveis. Existe um Universo no qual você joga e perde, e foi ele que o sistema te mostrou. Existe também um Universo no qual você joga e ganha. Existe também um Universo no qual a arma dispara antes de você apontar para a sua cabeça. Existe também um Universo no qual você sequer existe. Ou seja, existem infinitos Universos com todas as variações possíveis de todas as partículas existentes.

É com base nessa suposição que a programadora Lyndon (Cailee Spaeny) faz uma escolha que é uma verdadeira profissão de fé. Não é bem uma roleta-russa, mas algo equivalente. Ela “puxa o gatilho” porque acredita que existem Universos no qual ela sobrevive e aposta que o Universo atual é um deles.

Devs também faz bastante uso de subtextos religiosos. Como em vários casos da vida real, Forest é um bilionário da tecnologia cujo poder lhe sobe à cabeça. Depois de um determinado nível de sucesso, figuras como ele passam a se ver como líderes visionários que irão conduzir a humanidade rumo ao futuro. Motivado por uma terrível tragédia pessoal, ele já não mede as implicações éticas e criminais de suas ações. Ainda que não se veja como tal, seus atos se assemelham ao de um fanático líder religioso: uma figura paternal que não aceita ser questionada e que acredita estar acima de qualquer lei ou julgamento.

Em seu último episódio, Devs escancara essa e outras comparações de naturezas religiosas e existenciais, como já feitas em filmes e séries como Matrix, Westworld e Black Mirror.

Se o sistema simula todas as partículas da realidade, qual é a diferença entre a realidade e a simulação? As pessoas e os lugares simulados não são apenas projeções em uma tela, mas sim representações fiéis da realidade. As interações que as partículas sofrem no mundo virtual são equivalentes àquelas que elas sofreram ou irão sofrer no mundo físico. Não são apenas as personalidades das pessoas que estão sendo simuladas, mas também cada célula de seus corpos, o que garante que todos os seus sentimentos, instintos, traumas e trejeitos também serão simulados. Diante disso, que garantia nós temos de que o nosso próprio Universo não seja uma simulação?

E, no caso da simulação de Devs, quem seria Deus?

E qual besta grosseira, finalmente chegada a sua hora,
Se arrasta em direção a Belém para nascer?
William Butler Yeats, A Segunda Vinda