Modo Noturno:

Enxergando as Correntes

Senão quando, estando eu ocupado em preparar e apurar a minha invenção, recebi em cheio um golpe de ar; adoeci logo, e não me tratei. Tinha o emplasto no cérebro; trazia comigo a ideia fixa dos doidos e dos fortes. Via-me, ao longe, ascender do chão das turbas, e remontar ao céu, como uma águia imortal, e não é diante de tão excelso espetáculo que um homem pode sentir a dor que o punge. No outro dia estava pior; tratei-me enfim, mas incompletamente, sem método, nem cuidado, nem persistência; tal foi a origem do mal que me trouxe à eternidade. Sabem já que morri numa sexta-feira, dia aziago, e creio haver provado que foi a minha invenção que me matou. Há demonstrações menos lúcidas e não menos triunfantes.

Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas

Um dos pontos mais surpreendentes do documentário vencedor do Oscar Indústria Americana (crítica aqui) é como parte dos trabalhadores chineses realmente acredita na ideia de que o trabalho que eles realizam na fábrica é o que dá significado a suas vidas. Olhando de fora, é difícil entender porque eles se sentem orgulhosos de um trabalho que paga pouco enquanto coloca em risco suas saúdes física e mental ao longo de turnos de até 12h de duração.

Pode-se pensar no incentivo econômico, mas as correntes que os seguram também são mentais. Para viver a vida daquela forma, eles precisam acreditar que o que estão fazendo possui algum significado maior; eles precisam acreditar que fazem parte de algo importante e superior; eles precisam acreditar na grandeza épica da missão de entregar os lotes de para-brisas solicitados pelos clientes.

Algo semelhante vem ocorrendo no mundo ocidental. Jovens cada vez mais conectados vêm transformando o vício em trabalho em um estilo de vida. Nesse artigo, inúmeros aspectos dessa nova cultura são levantados, e uma das conclusões é que:

Nessa nova cultura de trabalho, não basta suportar ou apenas gostar do emprego. Os profissionais devem amar o que fazem e, depois, promover esse amor nas redes sociais, de forma a fundir suas identidades com as de seus empregadores. (…)

O conceito de produtividade “assumiu uma dimensão quase espiritual”. Os “techies” internalizaram a ideia — enraizada na ética protestante — de que o trabalho não é algo que você faz para conseguir o que quer, mas que o trabalho em si é tudo. Portanto, qualquer truque ou mimo oferecido pelas empresas que permita que o funcionário trabalhe mais não é apenas desejável, mas inerentemente bom.

Essa “dimensão quase espiritual” se assemelha à forma como as pessoas associam suas identidades a outros aspectos da vida: time de futebol, religião, ideologia política, etc. Tudo isso faz parte da nossa eterna busca por significado em uma existência que continua sendo, de uma forma ou de outra, um mistério.

Mas, às vezes, quando uma resposta suficiente boa é encontrada, algumas pessoas podem se agarrar tão vorazmente a ela que perdem a perspectiva do mundo ao seu redor. A crença passa a ser tratada como verdade absoluta e inquestionável. Todos os aspectos da vida passam a ser enxergados através das lentes daquela ideologia. E a crença se torna uma prisão, acorrentando seu detentor a uma ideia fixa.

Isso fica muito claro na simplista divisão entre direita e esquerda no espectro político brasileiro. Enquanto radicais de esquerda se isolam em uma autoproclamada superioridade moral, os de direita abraçam até o fim a tática do “nós contra eles”, relegando quaisquer membros que ousem criticar o líder ou o guru da vez. Os dois lados dizem querer apenas o bem do país, mas ambos parecem buscar uma completa e autoritária supremacia ideológica.

Mas o que os dois grupos (e muitos outros) realmente querem é o conforto de verem seus pontos de vista aceitos e validados pela maior quantidade possível de pessoas. Isso lhes dará o conforto de não terem suas visões de mundo questionadas e de não terem que fazer concessões. Da mesma forma que a maioria das pessoas só clicam em links que elas acreditam que irão reforçar seus pontos de vista, elas também só querem se relacionar com pessoas que farão o mesmo.

É esse mecanismo que possibilita a manipulação de massas por meio das fake news. Não importa o tamanho das mentiras que as pessoas recebam por meio do Facebook ou de correntes de Whatsapp: elas sempre irão acreditar (ou, pelo menos, encaminhar adiante), desde que o conteúdo reforce seus pontos de vista. E no centro dessa lógica há um raciocínio com um paradoxo:

Se muita gente acredita no que eu acredito, é porque minhas ideias e pontos de vista devem estar corretas; mas se muita gente não acredita no que eu acredito, é porque elas estão sendo manipuladas ou agindo de má fé. De uma forma ou de outra, minhas ideias e pontos de vista são inquestionáveis.

(Analisar se esse texto se encaixa no paradoxo acima fica como exercício para o leitor.)

Grupos ideologicamente fechados como esses podem sofrer com uma “perda de significado”. Depois de um tempo, seus membros irão seguir regras e tradições que eles nem sabem como ou porque surgiram. Seus pontos de vista serão considerados os mais corretos porque sim, não há o que discutir. E se houver discussão, ela invariavelmente resultará na conclusão de que as ideias do grupo estão corretas, pois a mera existência dele depende disso.

No filme Abril Despedaçado, o protagonista Tonho (Rodrigo Santoro) se encontra preso em uma tradição de morte e vingança no sertão nordestino. Há várias gerações, sua família e a família de um fazendeiro da região vivem em um ciclo de assassinatos e retribuição que ele não sabe como começou. O que ele sabe é das suas obrigações de ajudar o pai no engenho movido a bois e de cobrar sangue com sangue.

Já cheio de dúvidas, um acontecimento o convence a partir daquela região: depois que ele remove o trapiche dos bois que moviam o moinho, o animais seguem andando em círculos, sozinhos, como se ainda estivessem confinados pelas amarras.