Crítica: Terra Selvagem

Wind River, EUA, 2017


Suspense não decepciona os fãs do roteirista e diretor Taylor Sheridan

★★★★☆


Depois do sucesso de Sicario: Terra de Ninguém (análise aqui) e A Qualquer Custo (crítica aqui), o roteirista Taylor Sheridan estreia na direção com esse ótimo Terra Selvagem, que é mais um faroeste moderno em seu currículo. Nele, a inexperiente agente do FBI Jane Banner (Elizabeth Olsen) se junta ao caçador local Cory Lambert (Jeremy Renner) para solucionar o assassinato de uma jovem garota na Reserva Indígena Wind River, um território cuja população vive, em grande parte, à margem da sociedade.

Na primeira hora de filme, o diretor está mais preocupado em apresentar as pessoas e a realidade daquela terra, distanciando-se um pouco da alta tensão característica de seus trabalhos anteriores. E isso é feito seguindo uma familiar fórmula de séries procedurais, com o próprio diretor chamando o filme de “CSI: Wyoming”. Porém, a mediana tensão que acompanhamos na primeira metade rapidamente sobe vários níveis nos últimos 40 minutos de filme, resultando em uma explosão de paranoia e violência em uma das regiões mais isoladas dos Estados Unidos.

O diretor consegue fazer o espectador se sentir tão deslocado quanto Banner naquele território inóspito, ao mesmo tempo em que vamos percebendo, junto com ela, o porque de Lambert não ter muita fé nas poucas instituições presentes naquele lugar. A atuação e a química entre os dois protagonistas (que trabalham juntos no MCU) é fundamental para essa imersão, com destaque para a intensa e sensível interpretação de Jeremy Renner como um pai que está praticamente revivendo uma trágica perda do passado. Sua atuação aqui é comparável apenas ao seu ótimo trabalho em Guerra ao Terror.

Apesar de ser inspirada em eventos reais, a estória de Terra Selvagem não é baseada em nenhum evento específico, mas sim em um dos tipos de crime mais comuns e menos apurados dessas regiões: a violência contra a mulher. Os pesquisadores contratados por Sheridan para levantar as estatísticas sobre o desaparecimento de mulheres indígenas voltaram de mãos vazias, constatando que esses dados simplesmente não existem para esse específico grupo demográfico, apesar de existirem para todos os outros. Em outras palavras, ninguém está sequer contando. Esse cenário faz com que os crimes contra mulheres, causados em grande parte pela masculinidade tóxica, cometidos por nativos e não-nativos dessas regiões proliferem em quase absoluta impunidade.

Essa temática explica porque o roteirista fez questão de dirigir esse filme, garantindo que a comunidade representada nele não fosse desrespeitada pela máquina hollywoodiana. Ao invés de explorar a realidade de marginalização e desigualdade social das reservas indígenas como fonte de entretenimento ou sentimentalismo barato, o diretor usa o thriller de suspense como veículo para expor as condições precárias dessas comunidades, ainda que sem cair no puro ativismo. Nessa entrevista, ele diz:

Eu sempre soube que eu dirigiria esse. Seria melhor nem fazê-lo do que fazê-lo com outro diretor. Existem inúmeros diretores melhores que eu – é a primeira vez que faço algo nessa escala – mas eu sabia que, se eu o fizesse, o faria exatamente do jeito que prometi a meus amigos na reserva e que a visão não seria diluída e a mensagem alterada. Isso era o mais importante para mim.

A temática também ajudou a convencer a atriz Elizabeth Olsen a participar do projeto, mesmo inicialmente não se considerando apta para o papel. Ela diz:

Fiquei tão chocada depois de ler o roteiro que queria encontrar o diretor e perguntar: “Isso é real?” Pois eu não entendia. Eu não entendia como isso é algo que existe no mesmo país onde eu moro. Estes são meus vizinhos e esses são estados onde já estive.

De acordo com o diretor, Sicario: Terra de Ninguém, A Qualquer Custo e Terra Selvagem formam sua “trilogia da fronteira”. As fronteiras das quais esses filmes tratam são menos territoriais e mais civilizacionais, com seus personagens operando à margem do Estado de Direito em regiões nas quais o Estado falha em prover segurança e estabilidade para a população. São lugares ou situações que tem mais em comum com a vida fronteiriça do Velho Oeste americano do que com as modernas sociedades do século XXI. Situações semelhantes também ocorrem no Brasil e em outras partes do mundo, seja na marginalização de populações indígenas ou seja no controle de territórios por traficantes de drogas.

Terra Selvagem vale a pena ser assistido tanto pela sua temática quanto por suas qualidades como thriller de suspense, incluindo também um tocante drama sobre perda e superação. Com esse trabalho, Sheridan se consolida como um dos maiores talentos da atualidade, ficando perto de alcançar nomes como Denis Villeneuve e Christopher Nolan. Ficamos na esperança de que ele os alcance com o roteiro da continuação de Sicario: Terra de Ninguém, o aguardado Soldado.

Comentários com spoilers

Mais do que em seus dois outros trabalhos, em Terra Selvagem Sheridan nos lembra constantemente da distância entre a realidade retratada na estória e o que chamamos de civilização, com o diálogo final entre Banner e Lambert não deixando dúvidas:

Jane Banner: Eu tive sorte.
Cory Lambert: Bom, sabe, a sorte não mora aqui. A sorte mora na cidade. Não mora aqui. Nisso, se você é atropelado por um ônibus ou não, se o seu banco é assaltado ou não, se alguém está mexendo no telefone quando está prestes a atravessar uma rua… isso é sorte. É ganhar ou perder. Aqui, ou você sobrevive ou você se rende. Ponto. Isso é determinado pela sua força e pelo seu espírito. Os lobos não matam um cervo sem sorte. Eles matam os fracos. Você lutou pela sua vida, Jane, e agora você pode partir com ela. Você conseguiu tudo.