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Crítica: It – Capítulo Dois

It Chapter Two, EUA, 2019


It: Capítulo Dois não é tão bom quanto o primeiro, mas ainda assim oferece uma boa experiência cinematográfica

★★★★☆


Nem tudo funciona como o esperado em It: Capítulo Dois. Se faltam terror e profundidade dramática, sobram suspense e ação com boas pitadas de humor negro. O resultado não é um grande filme de terror, mas sim uma intensa e divertida aventura no mundo de Stephen King. Apesar disso, ainda é possível perceber os dramas humanos por trás da trama.

Essa adaptação deixa de fora muitos dos detalhes e explicações presentes na obra original, mas pelo menos o que foi trazido foi bem adaptado e fiel ao livro. A narrativa sofre um pouco com o fato de que sua ambientação foi efetivamente estabelecida no filme anterior, deixando esse com o ingrato trabalho de tentar repetir a magia sem o mesmo ar de novidade.

Isso também é dificultado pela própria natureza das duas partes dessa história. Se em It: A Coisa acompanhamos um simpático grupo de crianças diante de situações aterrorizantes e sendo obrigadas a amadurecerem para lidar com elas, em It: Capítulo Dois os vemos já adultos e bem menos simpáticos, prontos para abandonarem a pequena cidade de Derry assim que possível. Alguns dos melhores momentos entre o elenco adulto funcionam (tanto para os personagens quanto para o espectador) graças à nostalgia daqueles tempos mais inocentes.

O diretor Andy Muschietti também se apoia nisso para compor os personagens adultos. Porém, apesar da abordagem superficial na composição deles, ainda é possível perceber como suas experiências na infância influenciaram suas vidas e personalidades mais de vinte anos depois. A não superação de medos, traumas e experiências afetivas faz com eles repitam padrões de comportamento que se iniciaram ainda cedo, como reação ao mundo ao seu redor. Se no primeiro filme eles precisavam superar medos e incertezas da idade juvenil, agora eles precisam superar os traumas e as inseguranças que levaram para a vida adulta.

As metáforas criadas pelo escritor Stephen King ainda funcionam, mas exigem maior esforço para que as conexões sejam estabelecidas. Em outras palavras, é possível dizer que parte do desenvolvimento dos personagens fica a cargo da imaginação do espectador, especialmente para quem não leu o livro ou assistiu às outras adaptações. Isso fica ainda mais estranho quando se leva em conta que o filme tem quase três horas de duração.

A maior parte desse tempo é ocupada com os criativos e perturbadores ataques do palhaço Pennywise (Bill Skarsgård), manifestação física/psíquica de uma entidade maligna que aparentemente veio do espaço. A narrativa adota uma abordagem episódica, que pode não ser muito orgânica, mas que é suficiente para entregar os sustos e os momentos de alta tensão, prato principal de It: Capítulo Dois. Graças a eles, o exagerado tempo de duração passa de forma mais rápida e mais divertida que o esperado. O espectador que não for conquistado pelos momentos de suspense seguidos de pequenas sequências de ação ainda pode se divertir com o terrir das doentias piadas de humor negro do “palhaço do olho amarelo” (adotando uma descrição de Pennywise que ouvi na rua um dia desses).

No elenco, os destaques vão para Bill Hader e James Ransone, que fazem maravilhas com as versões adultas de Richie e Eddie. O trabalho de Hader é facilitado pelo fato de que seu personagem é um dos mais interessantes da trama, mas o talento do comediante o eleva ainda mais, tornando-o um grande destaque. Já Ransone consegue capturar a essência de Richie de forma que se torna impossível imaginar qualquer outra versão adulta do personagem.

Jessica Chastain, James McAvoy, Jay Ryan e Isaiah Mustafa fazem o que podem com seus personagens, mas os arcos dramáticos deles são razoavelmente previsíveis (mesmo com certas revelações “chocantes”) e os atores não adicionam muito na fórmula estabelecida, ao contrário de seus colegas mirins.

O clima tenso e sombrio é muito bem estabelecido já na cena de abertura, que mostra um covarde e brutal ataque homofóbico a um casal que estava tendo uma noite agradável em um parque de diversões. Essa é uma cena difícil de assistir tanto pela brutalidade quanto pela natureza realista daquela ameaça. Os atacantes não são fantasiosas entidades malignas que servem como metáforas para alguma coisa, mas sim pessoas “normais” que compartilham das crenças e intolerâncias de muitas pessoas do mundo real.

Essa cena é uma recriação do assassinato de Howard Charlie, que ocorreu em 1984 e foi o evento que chamou a atenção de Stephen King para as ameaças sofridas pela comunidade LGBT+ no mesmo estado dos EUA em que ele nasceu. E não é por acidente que a cena termine com um ataque de Pennywise, como é muito bem explicado nesse artigo:

Pennywise é atraído pelo medo, sofrimento e ódio. Em vários momentos do livro, ele se alimenta de atos de racismo, antissemitismo, violência sexual, violência doméstica e abuso infantil – atacando pessoas que já estão aterrorizadas e em seus momentos mais vulneráveis. Esses são atos que não começaram por causa de Pennywise, mas sim por causa de outros seres humanos e de sua capacidade de odiar. De um ponto de vista simbólico, Pennywise é a manifestação de um mal que representa os horrores que crianças e pessoas marginalizadas precisam encarar diariamente. Enquanto ele é monstruoso em todos os sentidos, ele não é o único monstro presente no livro.

Com essa chocante e profunda abertura, It: Capítulo Dois poderia ter um desfecho mais intenso e memorável. O ato final é bem satisfatório se analisado em termos de ação e aventura, apesar de ser demasiadamente longo e bem parecido com o desfecho de It: A Coisa. Conforme várias pessoas têm apontado, a relação entre os dois filmes é bem parecida com a relação entre Vingadores: Guerra Infinita (crítica aqui) e sua continuação Vingadores: Ultimato (crítica aqui): o primeiro filme é quase perfeito, enquanto o segundo consegue concluir a história de forma bem satisfatória apesar de vários problemas narrativos ao longo do percurso.

Comentários com SPOILERS

O principal ponto que merece ser tratado nessa sessão é como a história lida de forma irresponsável com a temática do suicídio.

Enquanto os outros membros do Clube dos Otários resolvem voltar para Derry depois da convocação feita por Mike (Isaiah Mustafa/Chosen Jacobs), Stanley (Andy Bean/Wyatt Oleff) resolve tirar a própria vida. Seu ato é explicado em uma carta que os membros do grupo recebem depois de terem derrotado Pennywise, e é usada pelo roteiro para dar encerramento e uma despedida digna ao personagem.

Porém, a carta se trata basicamente de um bilhete de suicídio no qual Stanley explica que se matou para não atrapalhar os amigos na luta contra Pennywise. Esse é exatamente o tipo de sentimento compartilhado por milhões de pessoas ao redor do mundo que sofrem de doenças mentais. Com a auto-estima comprometida e incapazes de enxergar valor em si próprias, elas se sentem um fardo para colegas, amigos e familiares e veem o suicídio como uma espécie de ato de altruísmo.

Ao usar esse mesmo raciocínio como conclusão para o arco de Stanley, o filme corre o risco de validar esse tipo de pensamento e colocar em perigo pessoas que deveriam estar buscando ajuda profissional. Se isso veio do livro, deveria ter sido tratado como um dos vários detalhes que não envelheceram bem e ficaram de fora dessas duas adaptações.