Crítica: Blade Runner 2049

Blade Runner 2049, EUA, 2017


Obra expande o universo de Blade Runner de forma épica e reflexiva

★★★★☆


Com Blade Runner 2049, o diretor Denis Villeneuve mantém seu posto como um dos melhores cineastas da atualidade. O ótimo roteiro tem suas falhas, mas elas são compensadas pelo introspectivo espetáculo visual que o diretor coloca em tela. Ele consegue se manter fiel ao estilo e ao ritmo da obra original enquanto usa suas típicas ferramentas de construção de clima para imprimir sua própria visão ao mundo de Blade Runner. Falando em termos da filmografia do diretor, é como se estivéssemos assistindo uma futurística mistura de O Homem Duplicado com Sicario: Terra de Ninguém.

Quando o Blade Runner K (Ryan Gosling) “aposenta” um replicante que vivia escondido em uma fazenda, ele faz uma descoberta impressionante, dando início a uma investigação que o levará a questionar a própria identidade. No penúltimo ato do filme, ele finalmente encontra Rick Deckard (Harrison Ford), protagonista do filme original e uma das chaves para o mistério no centro da trama atual. A química entre os dois personagens funciona tão bem que é uma pena eles só se encontrarem depois de quase duas horas de projeção.

Outra personagem que rouba a cena é Luv (Sylvia Hoeks), uma replicante que segue fanaticamente as ordens de seu mestre, o vilão Niander Wallace (Jared Leto). Enquanto o Wallace de Leto cai no puramente caricato (quando poderia ter mais aspectos de um Daniel Plainview, protagonista de Sangue Negro), Hoeks dá a Luv um senso de fanatismo, frieza e implacabilidade que a torna um dos elementos mais ameaçadores e memoráveis da trama. Não é que ela seja profunda e multidimensional, mas a intensidade da atuação de Hoeks faz de sua uma dimensão algo quase tão marcante quanto o implacável Roy Batty (Rutger Hauer), “vilão” do original. Wallace a chama de “o primeiro anjo, o mais amado”, em uma apropriada referência a Lúcifer.

O restante do elenco de apoio é quase todo feminino, apesar de apenas Joi (Ana de Armas), namorada de K, ter um arco realmente interessante. A tenente Joshi (Robin Wright) e a prostituta Mariette (Mackenzie Davis) se limitam a cumprir seus papeis na trama, e pelo menos uma delas pode voltar para uma eventual continuação. Outros personagens menores servem apenas para que K vá montando o quebra-cabeças que sua vida se torna depois do início da investigação.

O roteiro de Blade Runner 2049 consegue levantar com sucesso todos os questionamentos aos quais se propõe, mas o faz deixando pra trás vários buracos ou detalhes mal explicados. Por exemplo, como Luv consegue, com relativa facilidade, invadir a Central da polícia, realizar atividades ilegais em seu interior e sair sem ser percebida? Podemos supor que ela hackeou o sistema de vigilância da Central, mas isso apenas geraria mais dúvidas em relação aos seus métodos. Outros aspectos que vão deixar os nerds (como eu) coçando a cabeça são os fundamentos teóricos de algumas das tecnologias mostradas: como pode o tal “emanador” fazer com que um holograma interaja fisicamente com o ambiente, chegando a se molhar sob a chuva? Isso parece mais magia que tecnologia.

Um ponto que enfraquece o impacto das questões levantadas pelo roteiro é o fato de a maioria delas já terem sidos abordadas em outros trabalhos de ficção, como nos filmes Ela e Ex-Machina: Instinto Artificial. Inclusive, o roteiro poderia facilmente ser produzido como um episódio especial da série Black Mirror, que já levantou inúmeros questionamentos sobre o impacto da tecnologia sobre a sociedade e as relações humanas ao longo de suas três temporadas. Entretanto, Blade Runner 2049 eleva o material a outro nível graças ao generoso orçamento do estúdio (de 150 milhões de dólares) e à direção de Denis Villeneuve, além de tocar em alguns temas até agora inéditos em obras recentes (ver abaixo os Comentários com Spoilers).

Os três prólogos lançados semanas antes da estreia do filme (Black Out 2022, 2036: Nexus Dawn e 2048: Nowhere to Run) tentam mostrar como o mundo de Blade Runner: O Caçador de Andróides se tornou o de Blade Runner 2049. Entretanto, eles não são vitais para o entendimento desse último, que é quase inteiramente auto-contido. O “quase” se deve a dois fatores: o primeiro é o fato de que a trama depende pesadamente dos acontecimentos do filme original, com imagens, áudios e personagens daquela obra invadindo a trama atual até finalmente encontrarmos Deckard.

O outro fator é que o roteiro deixa aberta a possibilidade de uma continuação, deixando alguns personagens sem uma conclusão para seus arcos narrativos. Essa é uma das mais lamentáveis práticas atuais de Hollywood, deixando de fazer filmes completos na esperança de emplacar franquias de sucesso. Felizmente, isso não chega a prejudicar seriamente a narrativa de 2049 (como aconteceu com as adaptações de Assassin’s Creed e Ghost In The Shell), mas o objetivo do estúdio fica claro quando certos personagens somem da trama depois de fazerem promessas grandiosas.

Blade Runner 2049 não vai agradar quem estiver esperando apenas um “filmaço de ação”, mas é um grande presente para os fãs do original e uma obra empolgante para os fãs de ficção científica e/ou do trabalho do diretor Denis Villeneuve. Focado na jornada de K e um pouco mais longo que o necessário (são 2h 40min de projeção), as cenas de ação são esporádicas e intensas, no melhor estilo do diretor, que parece apaixonado pelos belíssimos cenários e visuais criados para o filme. Apesar de não respeitar as típicas características dos filmes noir, esse é um grande filme de detetive.

Comentários com Spoilers

Um dos aspectos mais interessantes de 2049 é que a narrativa já parte de um conceito diferente de humanidade. Nos primeiros momentos do filme, ficamos sabendo que o protagonista é um replicante caçador de replicantes. Porém, depois do trabalho, ele não é desligado e colocado em uma caixa. Ao invés disso, ele vai pra seu apartamento passar a noite com sua namorada virtual, Joi. Ou seja, por mais que seja um obediente “soldado”, ele tem a sua vida pessoal.

Mas o mais interessante pra mim é como o roteiro brinca com o Complexo de Messias do personagem: como em muitos outros filmes e obras de ficção, estamos acompanhando uma pessoa normal que de repente descobre ser especial e ter um grande destino pela frente. Esse tipo de estória permite que o espectador alimente seus próprios sonhos de grandeza e destino. Todos querem ser o herói prometido que salvará o mundo ou o Universo. Muitos dos que abandonam essa fantasia continuam acreditando que um dia esse herói grandioso surgirá e fará todo o sofrimento desaparecer, ou pelo menos resolver os maiores problemas da sociedade.

Mas K (número de série KDC3-7) fica visivelmente decepcionado quando descobre que ele não é o procurado replicante que nasceu naturalmente de outro replicante. Ele havia começado a acreditar nisso devido a uma cruel combinação de fatores. Pra começar, logo quando descobre que houve uma replicante que deu a luz a um bebê, ele também descobre que há uma relação entre o caso e uma de suas memórias, levando-o a acreditar que talvez aquela não seja uma memória implantada. Junto a isso, sua namorada Joi sempre repete que ele é especial, e que tudo aquilo não pode ser uma coincidência, o que nos leva a um outro aspecto relevante.

Apenas depois da decepção K se lembra que Joi é, acima de tudo, um produto. Se para ele aquela era uma relação feliz, era porque Joi estava programada para fazer o máximo para agradá-lo, já que ela não é uma pessoa com os próprios sonhos e vontades. Esse é o sonho de muitos homens (ou das pessoas em geral): uma parceira que se elimine em nome da relação e faça tudo por seu parceiro, tornando-o o centro de sua existência. K só percebe que Joi é uma fantasia masculina quando finalmente entende o significado das frases escritas em letras gigantescas no anúncio do produto: “Tudo o que você quer ver. Tudo o que você quer escutar.”

O constante K, por sua vez, representa uma fantasia de trabalhador: sempre obediente e sem problemas pessoais para impactar sua produtividade, ele, como todos os outros replicantes, é o funcionário perfeito. Inteligente o suficiente para fazer um bom trabalho, mas não o suficiente para questionar o patrão. Não é à toa que Wallace queira gerar trilhões dessas “abelhas operárias” (que também aparecem no filme) para colonizar os planetas que estão além do Sistema Solar.

Há um paralelo entre Wallace e o senhor Cotton (Lennie James), um “empreendedor” que explora o trabalho infantil longe do grande centro urbano de Los Angeles. Quando o encontramos, ele está explicando para as crianças que apenas o trabalho as torna dignas, e que elas só ficarão vivas enquanto forem úteis. Esse é um pensamento que tem seus defensores na vida real: para eles, uma pessoa só tem valor se contribui para a economia; alguém que não produz é indigno e não passa de um fardo para a classe trabalhadora.

Não é à toa que esse artigo da The Economist diz que “a escravidão moderna é perturbadoramente comum.” E não é à toa que as palavras que saudavam os prisioneiros na entrada dos campos de concentração de Auschwitz eram “Arbeit Match Frei” – O Trabalho Vos Liberta.

Essa crítica da Vox analisa com mais detalhes as referências religiosas e as pistas deixadas pelo filme, concluindo que a mensagem principal dele é:

A liberdade, a habilidade de desafiar regras, é algo que todos os seres, não importa qual sua manifestação, tem a capacidade de realizar. Emoções e desejos, virtude e ação – todas essas coisas estão juntas e disponíveis para todos. A escravidão é um crime mesmo quando os escravos são criados expressamente para esse propósito. Entretanto, tentar enterrar a verdade para preservar a ordem é tão destrutivo quanto destruir um ser para se garantir uma revolução. E predestinação, o filme fortemente implica, é tão ruim quanto a escravidão.

As últimas frases nessa citação se referem à escolha feita por K: ele não apenas interrompeu os planos de Wallace, mas também os dos replicantes revolucionários que acreditavam que Stelline (Carla Juri) estava destinada a liderá-los. Ele percebe que não precisa ser o aguardado salvador para poder fazer a diferença.