Modo Noturno:

A Dor e o Tempo na Série Dark

O homem é uma criatura estranha. Todas as suas ações são motivadas pelo desejo, seu caráter é forjado pela dor. Por mais que ele tente suprimir a dor, suprimir o desejo, ele não pode se libertar da escravidão eterna de seus sentimentos. Enquanto durar a tempestade dentro dele, não conseguirá encontrar a paz. Nem na vida, nem na morte. E assim ele fará, todos os dias, o que for necessário. A dor é o seu navio, o desejo é a sua bússola. É só disso que o homem é capaz.

Dark, S02E07

A série alemã Dark volta com uma segunda temporada mais curta, mais complexa e, paradoxalmente, mais fácil de entender. Uma vez que o espectador já teve tempo suficiente para explorar o universo apresentado na primeira (que pode incluir a ajuda de árvores genealógicas dos personagens da série), fica menos difícil seguir os novos desenvolvimentos da trama e uma ousada expansão desse universo.

Se na primeira temporada temos que acompanhar os eventos “paralelos” ao longo de três pontos do tempo (1953, 1986 e 2019), na segunda temos um deslocamento de pelo menos seis meses e dois novos períodos, resultando nas linhas do tempo de 1921, 1954, 1987, 2020 e 2053. Além disso, vários personagens possuem diferentes versões da mesma máquina do tempo, que possibilita viagens fora do ciclo de 33 anos permitido pela passagem na caverna.

O que torna Dark difícil de acompanhar é o fato de que estamos vendo os mesmos personagens em diferentes momentos de suas vidas. A primeira temporada se esforça para estabelecer quem é quem em cada linha do tempo: qual criança se torna qual adulto e qual adulto se torna qual velho. Isso também dá ao espectador um entendimento quase completo da vida de cada personagem, uma vez que possibilita estabelecer relações entre o que a pessoa viveu no passado e quais as consequências daquilo no seu futuro.

Outro fator complicante é a própria estrutura narrativa. Em uma história normal, a ação pode ocorrer em locais diferentes ao longo do fluxo do tempo, considerado, inerentemente, constante. Porém, em Dark, a ação pode ocorrer tanto em locais diferentes (todos na pequena cidade de Winden) quanto em diferentes pontos do tempo. Eventos que tiveram início em 2019 podem desencadear desdobramentos em 1953 e 1986, por exemplo.

Isso obriga o espectador a abandonar a passagem do tempo como um fenômeno absoluto e aceitá-la como uma ocorrência relativa ao observador. A passagem do tempo em Dark é orientada estritamente às experiências dos personagens, já que não podemos contar com o tempo linear, como o vivenciamos no mundo real.

Além disso, essa nova temporada é mais carregada em paradoxos, com eventos do futuro sendo os causadores de eventos no passado que, por sua vez, são os causadores do evento no inicial no futuro.

Por exemplo, o cientista Tannhaus (Christian Steyer) entende que ele só conseguiu escrever o livro Eine Reise durch die Zeit (Uma Viagem Através do Tempo) porque teve acesso a uma cópia trazida do futuro. Portanto, fica a pergunta: se o conhecimento necessário para a escrita veio da leitura do próprio livro, em qual momento esse conhecimento surgiu? Em qual momento ele foi desenvolvido de forma original?

Apesar de alguns desses paradoxos causarem estranhos relacionamentos dentre as quatro famílias acompanhadas na narrativa, nenhum deles chega ao extremo do paradoxo temporal apresentado no filme O Predestinado, que pode servir como um ótimo “aquecimento” para quem ainda não assistiu a primeira temporada de Dark.

Mas, afinal, qual a motivação para se elaborar uma história tão complexa? Toda história sobre viagem no tempo parte de uma reflexão: e se pudéssemos voltar atrás e corrigir nossos erros? E se pudéssemos voltar no tempo e fazer diferente?

Evangelion

Em uma recente entrevista, um dos criadores de Dark, Baran bo Odar, falou sobre as motivações para se fazer essa série:

O relógio começa a contar no dia em que você nasce. Depois, você morre. O tempo é importante para todos, especialmente para nós, alemães. Somos um povo melancólico por coisas que ocorreram no passado. Existe arrependimentos e o desejo impossível de ter feito as coisas de forma diferente. Então criamos uma história em que é possível mudar o passado.

A vontade de ter feito as coisas de uma forma diferente não diz respeito apenas a ações que queremos desfazer, mas também às coisas que não fizemos: as oportunidades perdidas, os momentos desperdiçados, os erros não cometidos. Com a restrição de que o tempo flui em uma única direção, o que nos resta é imaginar como poderia ter sido ou onde estaríamos agora se certos eventos tivessem acontecido (ou não acontecido).

Para nós, esses são momentos que não pertencem nem ao passado, nem ao presente e nem ao futuro. São momentos que existem apenas como ideias em nossas mentes. Por mais que se tente “correr atrás” e, de alguma forma, corrigi-los, dificilmente será equivalente ao que teria sido no passado. O firme e impiedoso caminhar do tempo garante que jamais teremos 15, 18 ou 20 anos novamente, sendo então uma perda de tempo tentar reviver as experiências de outras épocas de nossas vidas.

Sem a possibilidade de voltar atrás e reviver o passado (ou guiar nossas versões mais jovens), o que resta para muitos é tentar escapar dele. Esse é o drama mostrado em Neon Genesis Evangelion, um cult anime de 1995 que explora de forma ousada e visceral temas como depressão e identidade pessoal.

A maioria dos personagens desse anime estão tentando escapar de traumas do passado, sejam eles entes queridos que se foram ou o amor e atenção que jamais receberam. A dor e o sofrimento levam o protagonista Shinji (Megumi Ogata) a se isolar das outras pessoas e se tornar obcecado pela aprovação de seu negligente pai, que também tem suas próprias pendências psicológicas.

A trajetória de Shinji ao longo dos episódios é uma fiel representação dos perigos e armadilhas da depressão e como esses elementos o levam a se tornar o seu próprio pior inimigo. A pergunta que ele repetidamente faz ao longo da série é: por que é tão errado tentar fugir do sofrimento?

Dark e Neon Genesis Evangelion também convergem quando se trata de antagonistas. Nos dois casos, alguns dos personagens atormentados pela dor decidem que a destruição de tudo o que existe é a única solução para suas aflições. Consumidos pelo próprio sofrimento, eles se tornam cegos para o sofrimento alheio e enxergam o mundo exterior como uma grande ameaça, contra a qual se rebelam.

Não é à toa que a segunda temporada de Dark comece com parte de uma famosa citação de Nietzsche:

Aquele que luta contra monstros deve se cuidar para que não se torne um. E se você olhar por tempo demais para dentro de um abismo, o abismo olhará de volta para dentro de você.

Aniquilação

Os antagonistas de Dark também se aproximam da tese central do filme Aniquilação, no qual cientistas tentam entender um fenômeno extraterrestre que está ocorrendo na Terra. A trama dessa produção é uma grande metáfora para os nossos processos internos de evolução e como nos tornamos pessoas diferentes ao longo do tempo. Além disso, ela também aborda as nossas tendências autodestrutivas e como às vezes nos autossabotamos.

Conforme escrevi nessa crítica:

Essas outras pessoas [que você era no passado] cederam espaço para a pessoa que você se tornou e, consequentemente, deixaram de existir. Esse é um dos motivos pelos quais é tão difícil para nós mudarmos: antes de nos transformarmos, temos que estar dispostos a extinguir a pessoa que somos agora. Independente de querermos ou das circunstâncias externas nos forçarem a mudar, toda mudança é um ato de autodestruição. Nesse contexto, querer mudar é equivalente a querer deixar de existir.

Por outro lado, não querer mudar é equivalente a querer parar o fluxo do tempo. As mudanças que sofremos são inevitáveis, e a única coisa que podemos fazer em relação a elas é guiá-las. Se não as guiarmos, são nossos impulsos e nossas frustrações que ditarão nossos atos e quem nós nos tornaremos.

Em Dark, isso causa o surgimento do antagonista principal, introduzido na segunda temporada, mas também pode ser visto de forma completa na personagem Hannah (Maja Schöne), mãe do protagonista Jonas (Louis Hofmann). Desde sua pré-adolescência, ela nutre uma obsessão que jamais foi capaz de superar e que a leva a cometer atos destrutivos que afetam as vidas daqueles que ela culpa por suas frustrações.

Em outras palavras, incapaz de suprimir a dor e o desejo, ela não pode se libertar da escravidão eterna de seus sentimentos.