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Trilogia Rua do Medo: Os Slashers Nunca Morrem

Para quem não conhece o subgênero slasher, a trilogia Rua do Medo serve como um bom resumo das premissas e desenvolvimentos comuns nesse tipo de filme. Para quem já o conhece, os três filmes funcionam como um ótimo veículo de nostalgia, seja em relação aos clássicos dos anos 1970 e 1980 ou à nova onda que começou nos anos 1990. Há também algumas novidades que trazem os filmes para o Século 21 ou que os misturam com outros tipos de terror, tornando o resultado bem interessante.

rua do medo 1994O subgênero teve início em 1978 com a franquia Halloween e foi ainda mais popularizado com franquias como Sexta-Feira 13, A Hora do Pesadelo e Brinquedo Assassino. Nos anos 1990, o filme Pânico (1996) homenageou os clássicos do passado e deu início a uma nova onda de filmes do gênero, como Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado, Lenda Urbana e Prova Final. Nos anos seguintes, o gênero seria parodiado na franquia Todo Mundo em Pânico e entraria em declínio, com os filmes de terror focando mais no estilo das franquias Atividade Paranormal e Invocação do Mal.

Recentemente, há exemplares como O Homem nas Trevas (crítica aqui), Sala Verde (crítica aqui), Corrente do Mal e até filmes como Casamento Sangrento e Werewolves Within (crítica aqui), que se encaixam marginalmente no subgênero.

Já a trilogia Rua do Medo possui praticamente todos os elementos dos slashers: assassinos implacáveis, adolescentes tendo ideias ruins, adolescentes transando em um acampamento e adolescentes lidando sozinhos com uma brutal série de assassinatos, sempre pensando em planos mirabolantes para matar o assassino ou, se ele já estiver morto, encerrar alguma maldição e mandá-lo de volta para o inferno. O resultado é uma espécie de Stranger Things para maiores de 18 anos, cobrindo violentos massacres ao longo de três períodos no tempo: 1994, 1978 e 1666.

rua do medo 1978Em Rua do Medo: 1994, a protagonista e (quase?) final girl Deena (Kiana Madeira) e um pequeno grupo de amigos são atacados por vários assassinos históricos da “amaldiçoada” cidade de Shadyside. Tudo indica que as lendas locais sobre a bruxa Sarah Fier são reais e ela está mais uma vez possuindo jovens da cidade para cometer os terríveis assassinatos. Apesar dos elementos sobrenaturais, o filme segue mais na veia de Pânico (1996) e é um pouco mais longo do que o ideal, além de fazer um esforço quase cômico para encaixar a maior quantidade possível de hits musicais dos anos 1990 nas cenas inicias. Uma grande novidade aqui é que há um casal LGBTQ+ no centro da ação, já que a ex-namorada de Deena, Sam (Olivia Scott Welch), também faz parte do grupo.

Uma vez que os problemas de Deena em 1994 ainda não estão resolvidos, a franquia volta no tempo para revelar mais detalhes da trama. Rua do Medo: 1978 homenageia os grandes clássicos do gênero ao ambientar a ação em um típico acampamento de verão dos Estados Unidos, acompanhando as desventuras das irmãs Ziggy (Sadie Sink) e Cindy (Emily Rudd) enquanto tentam navegar por uma conturbada adolescência. Depois que o local começa a ser atacado por mais um dos assassinos possuídos por Sarah Fier, elas descobrem o “quebra-cabeça” que Deena só iria começar a entender 16 anos depois. Esse pode ser considerado o melhor filme da trilogia, mantendo um bom ritmo e sem muita enrolação até o nível de tensão subir. Porém, o mistério da bruxa ainda não está resolvido.

rua do medo 1666É preciso voltar até a época das Treze Colônias para entender a verdadeira natureza da situação. Rua do Medo: 1666 mistura a histeria coletiva típica dos julgamentos de Salem (que inspiraram a peça e o filme As Bruxas de Salém) com elementos genuinamente sobrenaturais, como os do filme A Bruxa. Diante de acontecimentos que eles não conseguem entender, os colonos agem com base no medo e na superstição e procuram dentre eles próprios alguém para culpar pelos problemas, levando a jovem Sarah Fier (também interpretada por Kiana Madeira) até o limite de seu desespero. O filme também inclui a segunda parte de Rua do Medo: 1994, dando um gran finale à trilogia.

O resultado final não chega a ser um novo clássico do gênero, mas os filmes se justificam graças aos grandes momentos de tensão, a uma mitologia instigante e a momentos dramáticos e românticos que dão um significado maior a esse festival de referências a clássicos do passado. Assim como a série de livros no qual é inspirada, a trilogia Rua do Medo tem potencial para gerar infinitas sequências para a Netflix, esgotando-se apenas quando se esgotar a imaginação dos realizadores.