Crítica: Socorro!
Send Help, EUA, 2026
Trailer · Letterboxd · IMDB · RottenTomatoes
★★★★☆
Quem estiver achando que Socorro! é apenas uma comédia sobre uma situação inusitada é melhor ir recalculando as expectativas. Para a surpresa de muitos, esse é mais um original “terrir” do diretor Sam Raimi, conhecido por exemplares como Uma Noite Alucinante e Arrasta-me Para o Inferno. Isso significa que o conflito no centro da trama vai ficar muito mais intenso, violento e nojento do que em uma comédia mais convencional, além de conter altíssimas doses de humor negro. Indo além, o filme também conta com interessantes questionamentos morais e comentários sobre a natureza humana, lembrando o trabalho do diretor no suspense Um Plano Simples.
A vida de Linda Liddle (Rachel McAdams) parece que está prestes a sofrer uma grande mudança, já que a chegada do herdeiro Bradley Preston (Dylan O’Brien) ao comando da companhia onde ela trabalha significa que a promessa feita pelo pai dele (e da qual Bradley está ciente) finalmente será cumprida. Porém, Bradley tem outros planos, já que o jeito desajeitado e constrangedor de Linda não é o que ele está procurando em um vice-presidente. Inclusive, ele já possui a sua escolha, que é um antigo colega de faculdade que trabalha há menos de um ano na empresa.
Na prática, talvez Linda nem precisasse ter um jeito desajeitado e constrangedor para ser preterida, pois ser mulher já era desavantagem o suficiente. Pode ser que Bradley, que não está preocupado nem com merecimento e nem com igualdade de gênero, só consideraria a possibilidade de lhe promover se ela fosse atraente de uma forma mais convencional e estivesse disposta a fazer “qualquer coisa” para garantir a promoção. De um jeito ou de outro, ela precisaria fazer algo para poder ser aceita no “clube dos rapazes”.
Nada disso importa depois que o jatinho no qual eles estão sofre um acidente e a dupla fica isolada em uma ilha deserta. Machucado, Bradley fica completamente à mercê de Linda para a sua sobrevivência, já que ela é uma grande fã do reality show Survivor e uma aficionada pelo assunto. Inicialmente, ele até tenta manter a dinâmica de poder que existia no escritório, mas Linda deixa bem claro que a realidade na qual eles estão agora é outra.
O que se segue poderia ser apenas uma sequência de momentos engraçados nos quais Linda “dá o troco” pelas humilhações que sofreu no passado recente. No final, os dois personagens poderiam amadurecer e perceber que a melhor chance que eles possuem de sobreviver é se trabalharem juntos. A narrativa até dá sinais de que uma atração romântica poderia, talvez, surgir entre eles. Porém, nada disso está nos planos que o diretor Sam Raimi tem para a trama.
Acontece que a mudança na dinâmica de poder entre os dois personagens acaba trazendo à tona o lado mais sombrio de Linda. Agora, é ela quem está interessada em manter o status quo e a fazer o que for preciso para se manter no controle da situação. Para quem está no topo, o mundo sempre é visto como justo e meritocrático. É assim que Bradley enxerga a situação como CEO de uma grande companhia; agora, é assim que Linda enxerga a situação quando ela possui toda a vantagem na ilha deserta.
Ela acaba nos lembrando a personagem Misty (Samantha Hanratty/Christina Ricci) da série Yellowjackets, que também só começa a “brilhar” quando ela e suas colegas de escola ficam isoladas em uma floresta gelada. Em seus piores momentos, Linda chega a ter traços da intensa antagonista de Louca Obsessão.
Dessa forma, a trama de Socorro! não é apenas sobre dar o troco, mas também sobre o custo moral de se conseguir o que quer. A partir de determinado ponto, Linda e Bradley ficam em pé de igualdade em termos de moralidade, com os dois personagens estando dispostos a mentir e manipular para atingirem os seus objetivos. Ao invés de ser aceita pelo “clube dos rapazes”, Linda acaba criando seu próprio grupo privilegiado e lutando de forma implacável para mantê-lo no poder. Assim, por mais que represente algum tipo de mudança, ela acaba se tornando uma nova versão de um velho problema.
No geral, Socorro! pode ser considerado uma combinação de filmes como No Limite e Louca Obsessão, temperada com o inconfundível estilo do diretor Sam Raimi. Mais do que uma intensa experiência cinematográfica, o filme ainda oferece relevantes e contundentes comentários sobre a moralidade humana, chegando a lembrar os dilemas morais no centro da minissérie Os Favoritos de Midas.









