Modo Noturno:

Crítica: Os Pequenos Vestígios

The Little Things, EUA, 2021


Produção é exemplo de que mesmo tendo tudo para dar certo, um filme ainda pode ser completamente desperdiçado

★★☆☆☆


Em circunstâncias normais, a mera presença de atores do naipe de Denzel Washington, Jared Leto e Rami Malek seria o suficiente para elevar a qualidade de um roteiro mediano. Isso teria acontecido com Os Pequenos Vestígios se o roteirista e diretor John Lee Hancock tivesse focado em contar uma história básica e sem floreios. Porém, Hancock erra a mão de uma forma que o roteiro fica tão abaixo da média que nem essa grande combinação de astros pode salvá-lo. Uma das poucas coisas positivas aqui é que ele foi ousado e tentou “voar alto”. Porém, ele jamais consegue manter a altitude.

Se o filme fosse apenas esquemático e previsível, o resultado seria um bom suspense policial com uma pegada retrô. Mas, além disso, desde os momentos iniciais os personagens vão tomando decisões ou lidando com situações que não fazem muito sentido. Inicialmente, isso pode ser relevado como características da época na qual o roteiro foi idealizado (além de ambientado, o filme também foi escrito nos anos 1990), mas chega ao ponto no qual os desenvolvimentos afetam a suspensão da descrença.

Por exemplo, por que um detetive iria acompanhar sozinho um suspeito que ele acredita ser um perigoso assassino em série? Havia um milhão de outras formas para ele lidar com aquela situação, mas ele escolhe a pior forma possível e segue tomando decisões inexplicáveis na sequência. Nada do que havia feito anteriormente deu sinais de que ele já estaria tão obcecado pelo caso que estaria disposto a jogar todo e qualquer cuidado ao vento. Essa é uma cena central no ato final, e pouca coisa funciona depois disso.

A resolução da trama tem menos a ver com a identidade do assassino e está mais preocupada com o aspecto moral do trabalho dos policiais. Nesse sentido, Os Pequenos Vestígios erra mais uma vez ao relativizar a corrupção policial, colocando-a como justificável ou, pelo menos, aceitável em alguns momentos. Os dois detetives são mostrados como homens torturados pela culpa e obcecados em obter alguma resolução para suas aflições, mas, na prática, eles apenas cometeram erros e saíram impunes. Essa é a prova final de que o filme é fruto de uma outra época e não tinha nada que ser lançado em pleno 2021.

Todos esses aspectos de Os Pequenos Vestígios já foram abordados de formas mais interessantes e inteligentes em muitos outros filmes e séries de detetive dos últimos trinta anos. A produção não chega nem perto de alcançar a profundidade moral de filmes como Seven: Os Sete Crimes Capitais ou Os Suspeitos, ou de séries como True Detective e Mindhunter. O filme de Hanckock consegue seguir o formato dessas produções, mas jamais se equipara ao conteúdo.