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Crítica: Duna

Dune, EUA, 2021


Com um fantástico espetáculo visual, Denis Villeneuve apresenta uma ótima introdução ao complexo universo de Duna

★★★★☆


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Adaptar o universo de Duna para o cinema é uma tarefa bem ingrata no ano 2021. A série literária é uma das principais bases da fantasia e da ficção científica produzidas nas últimas cinco décadas, o que significa que os principais desenvolvimentos desse filme já foram vistos inúmeras outras vezes em inúmeras outras produções. Ainda assim, o diretor Denis Villeneuve nos oferece um verdadeiro espetáculo visual e uma grandiosa homenagem ao trabalho do escritor Frank Herbert, realçando os aspectos mais místicos e hipnóticos de seu trabalho. De alguma forma, Villeneuve consegue fazer uma representação inovadora de um material que é (ou deveria ser) extremamente familiar, provendo visuais surpreendentes.

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A maior parte da familiaridade está na história em si, seja no estilo Game of Thrones da trama política ou na ascensão do protagonista Paul Atreides (Timothée Chalamet) como um salvador previsto em uma profecia. A previsibilidade da trama fica ainda mais danosa devido ao fato de que esse filme cobre apenas a primeira metade do romance original, terminando com um cliffhanger e uma promessa de uma “volta por cima” por parte do protagonista. Isso faz com que Duna se pareça muito mais com o episódio inicial de uma série de ficção científica do que com um filme completo.

Quem gostou de Chalamet como Henrique V no ótimo O Rei (crítica aqui) não ficará decepcionado com seu Paul Atreides. Os dois personagens possuem temperamentos equivalentes e precisam lidar com dilemas bem parecidos. A grande diferença é que, enquanto O Rei está mais focado nas intrigas políticas, Duna está interessado nos mais diversos aspectos do exercício do poder, como nas implicações sociais e ecológicas do status quo vigente nesse universo. Consequentemente, o colonialismo é uma das principais temáticas do filme.

Enquanto os membros da Casa Atreides são apresentados como os “colonizadores do bem”, a Casa Harkonnen representa os colonizadores como os conhecemos ao longo da História da humanidade. Os Harkonnen se encaixam perfeitamente na análise feita pela minissérie documental Extermine Todos os Brutos (crítica aqui), extraindo recursos de terras invadidas e tratando a população local (nesse caso, os Fremen) como um inconveniente que precisa ser extinto ou controlado.

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Um aspecto que faz Duna parecer inovador mesmo na terceira década do Século 21 é sua inspiração na cultura árabe. A maioria das histórias de fantasia e ficção científica que permanecem populares são inspiradas em temas medievais misturados com culturas como a celta, a viking e a japonesa. Em Duna, a história de resistência dos Fremen parece ter sido inspirada em conflitos como a Guerra do Cáucaso e a Revolta Árabe, com heróis como o imã Shamil e o britânico T. E. Lawrence servindo como inspiração para Paul Atreides.

Na frente ecológica, Duna apresenta o planeta Arrakis não apenas como um deserto desolado, mas também como um complexo ecossistema capaz de sustentar diversos tipos de seres vivos, sejam eles vermes gigantes, seres humanos ou pequenos mamíferos (na vida real, existem animais equivalentes, como os jerboas e os gatos-do-deserto). Há inclusive a presença de uma ecologista, a doutora Liet Kynes (Sharon Duncan-Brewster), responsável por acompanhar a transição de poder e preocupada com o equilíbrio do planeta.

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A ideia de séries literárias de ficção científica como Duna e Fundação é incentivar o leitor a pensar em termos de civilização. As histórias contadas nelas acompanham uma ou várias civilizações ao longo de milhares de anos, mostrando que a História não acontece apenas em termos de nossas próprias vidas e de nossas necessidades de curto prazo. Elas nos ajudam a lembrar das linhas do tempo das várias civilizações que já existiram ao longo da História e de como elas, que pareciam eternas para seus cidadãos, também ruíram.

Casos como o do declínio da civilização do Vale do Indo e da corrida do ouro no Brasil Colonial deveriam nos alertar em relação às decisões que tomamos em nosso próprio tempo. No romance Duna, Herbert escreveu:

O que os “analfabetos ecológicos” não entendem sobre um ecossistema é que ele é um sistema. Um sistema! Um sistema mantém uma certa estabilidade fluída que pode ser destruída por um acidente em um único nicho. Um sistema tem ordem, fluindo de ponto a ponto. Se algo impede um fluxo, um outro fluxo colapsa. Os inexperientes podem ignorar o colapso até que seja tarde demais. É por isso que a maior função da ecologia é entender as consequências.

Infelizmente, essa primeira parte de Duna ainda não é suficiente para ir mais fundo nesse e em outros temas abordados pelo primeiro livro da série. Resta esperar que pelo menos mais uns dois filmes sejam produzidos, mostrando a ascensão de Paul e as consequências imediatas dela para sua família e para os Fremen. Villeneuve disse recentemente que esse é um “filme pop”, mas é mais provável que ele tenha uma reação tão limitada quanto a de seu último trabalho, a fantástica ficção científica Blade Runner 2049 (crítica aqui).

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