Crítica: Devoradores de Estrelas
Project Hail Mary, EUA, 2026
Trailer · Letterboxd · IMDB · RottenTomatoes
★★★★☆
É possível perder bastante tempo discutindo o que é ou não é verossímil na ficção científica de Devoradores de Estrelas, mas esses acabam sendo meros detalhes diante da grandiosidade humana da história. Os conceitos científicos são bem interessantes (e provavelmente são melhor explorados na obra original), mas o centro da trama é o relacionamento entre um improvável astronauta e um inquieto alienígena. É a jornada emocional desse relacionamento (e como ele impacta a sobrevivência de duas espécies inteligentes) que diferencia essa produção de muitas outras que vieram antes.
A história de Devoradores de Estrelas pode ser descrita a partir dos elementos que ele possui em comum com vários outros filmes de ficção científica. Aqui, semelhante ao terror espacial de Vida, a humanidade precisa lidar com os efeitos de um organismo alienígena que coloca em risco a vida na Terra. Os “astrofages” são formas de vida que, após consumir o gás carbônico da superfície de Vênus, migram para o Sol (que é a principal fonte de energia para a vida no planeta Terra) e começam a escurecê-lo.
Os cientistas descobrem que os astrofages infectaram inúmeras outras estrelas, com exceção de Tau Ceti. É daí que surge o Projeto Hail Mary, cuja ideia se resume a enviar astronautas até essa estrela em busca de respostas, o que nos lembra as tramas de Interestelar e de Ad Astra. Sob a liderança da inabalável Eva Stratt (Sandra Hüller), o objetivo do projeto é verificar se a imunidade daquela estrela pode nos ajudar a salvar o Sol. Obviamente, esse é um projeto que será executado ao longo de décadas, já que as distâncias existentes no espaço sideral nos obrigam a rever o conceito de “ir lá”.
Os momentos iniciais de Devoradores de Estrelas mostram o protagonista Ryland Grace (Ryan Gosling) acordando sem memórias em uma nave espacial nas proximidades de Tau Ceti. Diferente do intrépido Neil Armstrong que Gosling interpretou na história real de O Primeiro Homem, Grace parece estar longe de ter o perfil de salvador da vida na Terra. Ainda assim, não demora até ele entrar no modo Perdido em Marte e começar a utilizar o poder do conhecimento humano para tentar resolver um problema que coloca em jogo a nossa existência.
Para sua surpresa, ele encontra um outro astronauta que foi para a região de Tau Ceti em busca de respostas. O alienígena apelidado de Rocky (James Ortiz) vem de um outro sistema estelar e combina seus recursos tecnológicos com os de Grace para juntos tentarem entender o que há de diferente na região. Antes de poderem colaborar, eles precisam estabelecer formas de comunicação, o que obviamente nos lembra a trama de A Chegada.
O que Grace encontra em Rocky vai além de uma mera colaboração científica, se tornando uma genuína amizade entre os dois personagens. Vale notar que essa amizade não é um mero recurso do roteiro para emocionar o espectador. Esse vínculo emocional é mostrado como sendo um elemento vital para a sobrevivência de duas espécies inteligentes separadas por vários anos-luz de distância. É em Rocky que Grace encontra alguém por quem vale a pena ser corajoso, e o sentimento é claramente retribuído pelo alienígena. Graças a esse vínculo, os dois personagens vão além dos próprios limites para poderem completar a missão.
Esse aspecto de Devoradores de Estrelas nos leva a olhar um pouco além da ficção, já que a história inteira parece ser desnecessariamente exagerada. Mas a lição aqui não é nós devemos tentar ser amigos de alienígenas de aspecto pedregoso que possuem os mesmos objetivos que nós. O que a trama nos lembra é que a empatia e a cooperação entre nós humanos são as melhores formas que possuímos de lidar com eventuais ameaças de extinção, seja a nível de espécie ou em um nível mais pessoal.
Isso também faz com que esse filme sirva como um contraponto para a pessimista sátira de Não Olhe Para Cima. Por mais que Devoradores de Estrelas não mostre o impacto da ameaça de extinção sobre a sociedade em geral, fica claro que a humanidade juntou alguns dos maiores especialistas do planeta no Projeto Hail Mary, para maximizar as nossas chances de sobrevivência. Por outro lado, Não Olhe Para Cima mostra as elites do planeta Terra apostando nos devaneios surreais de um bilionário que se considera “genial” para tentar salvar apenas alguns poucos privilegiados da completa extinção.
Infelizmente, no momento, o mundo real se encontra muito mais próximo dessa última abordagem, com bilionários de inteligência questionável falando em colonizar outros planetas ao invés de tentarmos manter a sustentabilidade do nosso. Esse aspecto também prejudica a trama de Interestelar, já que os objetivos principais de seus personagens é encontrar um outro planeta no qual os seres humanos poderiam viver e construir uma “arca” para nos levar até lá. Já no caso da série Raised By Wolves, se a humanidade vai em busca de um outro planeta para habitar, é porque as nossas guerras generalizadas acabaram com a capacidade do planeta Terra de sustentar as nossas vidas.
Além disso, Devoradores de Estrelas se leva muito menos a sério do que essas outras produções, contando com ótimos momentos de humor. Já os momentos de suspense e tensão funcionam incrivelmente bem, sendo capazes de deixar o espectador sem mover um só músculo e sem fazer um único som enquanto os desfechos das ações não ficam claros. Assim como Perdido em Marte e vários dos outros filmes mencionados anteriormente, a produção é mais uma ode à capacidade da humanidade de se adaptar diante das mudanças, de colaborar diante das grandes crises e de sobreviver diante de ameaças existenciais.

