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The Crown: Publicando a Lenda

Óleos e juramentos. Orbes e cetros. Símbolo sobre símbolo. Uma rede incompreensível de mistério e liturgia arcanos, misturando tantos elementos que nenhum clérigo, historiador ou jurista jamais poderia separar. (…) Quem quer transparência quando se pode ter magia? Quem quer prosa quando se pode ter poesia? Se levantarmos o véu, o que nos resta? Uma jovem ordinária, de habilidades modestas e pouca imaginação. Mas, ao vesti-la dessa forma, ao ungi-la com óleo, abracadabra, o que se tem? Uma deusa.

Apesar de parecer uma fiel representação dos bastidores da família real britânica, The Crown apenas adiciona mais uma camada de tinta à imagem pública daquela monarquia. O criador Peter Morgan adota certas interpretações de fatos históricos e de detalhes conhecidos para produzir uma envolvente dramatização, rica em profundas reflexões e em detalhes íntimos imaginados pelo autor. O resultado é um drama de altíssima qualidade que funciona nos mais diferentes níveis, do mundialmente histórico ao intimamente existencial.

A série mostra a família real como um grupo tão privilegiado quanto encarcerado pelo poder simbólico que possui. Todo o luxo e toda a reverência que recebem são contrabalançados pelo dever de se comportarem e viverem como símbolos nacionais. Em vários momentos, a família parece muito mais uma empresa, com a diferença de que seus “funcionários” não escolheram ingressar na instituição; apenas nasceram nela. Eles são obrigados a suprimir anseios e objetivos individuais e a tomar decisões pessoais que possuem ramificações não apenas familiares, mas também constitucionais. Além disso, também precisam levar em conta as expectativas do grande público, que é quem está pagando suas contas.

O modelo rígido e tradicional da família real britânica representa um ideal de família que não foi concebido para respeitar os pontos de vista e as liberdades individuais de seus membros, se assemelhando muito mais a um regime ditatorial do que a um grupo de pessoas unidas pelo afeto. Esse é um modelo que parece ideal para uma família que é vista como um símbolo, mas mesmo nesse aspecto ele tem suas limitações. Ao invés de uma vantagem, a falta de flexibilidade acaba se tornando uma ameaça para a união da família quando seus membros preferem perder os privilégios do que viver sem plena liberdade. Ainda assim, esse é um modelo que muitas famílias no mundo ainda tentam seguir à risca.

É claro que a flexibilidade vem com seus próprios desafios. Nas séries Yellowstone (resenha aqui) e Succession (resenha aqui), que também giram em torno de poderosas famílias, os patriarcas dão liberdade de escolha para seus filhos, apesar de desejarem que eles continuem nos negócios. Nos dois casos, mesmo quando os filhos mostram interesse, os pais ainda precisam decidir quais deles estão mais preparados para a função. E para piorar, sempre há aquele filho que está ansioso pelo comando e toma medidas inconsequentes para adiantar a sucessão. No caso de The Crown, o filho já nasce escolhido e a única coisa que ele pode fazer com a ansiedade é suportá-la.

É por isso que a abdicação do Rei Edward VIII (Alex Jennings/Derek Jacobi) foi tão impactante. O filho que nasceu escolhido recusou seu papel e mudou completamente o destino de seu irmão, que assumiu o trono e se tornou o Rei George VI (Jared Harris), e de sua sobrinha, que se tornou a Rainha Elizabeth II (Claire Foy/Olivia Colman). Talvez seja por isso que A Rainha-Mãe (Victoria Hamilton/Marion Bailey), esposa de George VI e mãe de Elizabeth II, tenha se tornado uma defensora tão ferrenha das tradições da monarquia, já que um “rebelde” mudou completamente a história de sua família.

A priori, a passividade e falta de iniciativa de Elizabeth não pareciam compatíveis com o papel que ela estava prestes a assumir. Porém, isso é exatamente o que se espera de uma liderança que serve apenas como símbolo e inspiração, e não como um poder legislativo ou executivo. Se a monarquia é um dos alicerces da unidade britânica, a última coisa que se espera é que essa instituição provoque abalos e divisões políticas dentre os membros da união.

Um marco disso é como a Rainha supostamente agiu para evitar um golpe de estado, tese defendida pelo biografo do Conde Mountbatten (Greg Wise/Charles Dance) e mostrada na terceira temporada de The Crown. Ao invés de se deixar levar pela própria insatisfação com o governo e colocar em xeque a jovem democracia do país (que só havia se democratizado efetivamente em 1928), a Rainha preferiu não apoiar o movimento golpista e esperou que o voto popular se encarregasse de trocar o primeiro-ministro. É esse tipo de firmeza de caráter que evita rupturas da ordem democrática e mantém a integridade do poder constitucional mesmo diante de crises econômicas e governos impopulares, dando tempo para o sistema político do país amadurecer de forma orgânica e saudável.

Nas muitas repúblicas que se espalharam pelo mundo depois da fundações dos Estados Unidos da América, espera-se algo semelhante dos chefes de estado, que acumulam tanto o poder executivo quanto a obrigação de servirem como símbolos nacionais. Isso causa alguns problemas, pois líderes eleitos que deveriam ser vistos apenas como funcionários públicos acabam sendo reverenciados como monarcas por parte da população, que chega a ponto de defender poderes ilimitados para presidentes populares. Esse tipo de sentimento também é o responsável pela implantação de ditaduras, que sempre contam com o apoio de pelo menos uma pequena parcela da população.

Nos roteiros de The Crown, os dramas políticos se misturam naturalmente com os dramas pessoais por meio de paralelos traçados com muita habilidade. Isso significa que um bom grau de ficção é adicionado aos elementos históricos, e os escritores se dão ao direito de imaginar como seriam as conversas e interações íntimas entre os personagens. Como em qualquer obra de ficção inspirada em eventos reais, o resultado aqui é uma mistura entre a realidade dos fatos e a “licença poética” adotada pelos realizadores. Um ótimo exemplo disso é o ótimo episódio que aborda a crise de meia idade do Príncipe Philip (Matt Smith/Tobias Menzies).

Isso também se destaca na representação do romance entre a Princesa Margaret (Vanessa Kirby/Helena Bonham Carter) e Peter Townsend (Ben Miles), já que a série adota a crença popular de que foi a Rainha que impediu o casamento da princesa com um homem divorciado. Uma outra versão dessa história diz que já havia toda uma articulação política para possibilitar a união, liderada pelo primeiro-ministro Anthony Eden (Jeremy Northam) a pedido da Rainha. No plano final, a única desvantagem para a Princesa Margaret é que ela e seus descendentes sairiam da linha de sucessão do trono, ainda que manteriam o status de realeza. Porém, depois de anos de polêmicas e idas e vindas, combinados com a necessidade de se alterar uma lei e ir contra os ensinamentos da igreja, o casal teria optado por não carregar todo esse peso e desistiu do casamento.

Esse é apenas um dos casos nos quais o criador de The Crown coloriu as situações reais com elementos de sua própria imaginação, provendo palavras e sentimentos para eventos que podem ou não ter ocorrido. Isso não é necessariamente um problema, já que até mesmo o jornalismo tem um bordão para esses casos: publique-se a lenda. As imprecisões não tiram o mérito que a série obteve ao se apropriar da História para informar, inspirar e emocionar espectadores do mundo inteiro. O mesmo foi feito pela Rainha Elizabeth II, uma pessoa ordinária em uma situação extraordinária, em sua primeira Mensagem Real de Natal televisionada, em 1957. Provavelmente, não foi ela quem escreveu essas bem calculadas palavras, mas foi ela quem as colocou na História.

Hoje, nós precisamos de um tipo especial de coragem. Não do tipo necessário em batalha, mas do tipo que nos leva a defender tudo aquilo o que sabemos ser correto, tudo o que é verdadeiro e sincero. Nós precisamos do tipo de coragem que pode suportar a sútil corrupção dos cínicos, para que possamos mostrar ao mundo que não temos medo do futuro. Sempre foi fácil odiar e destruir; construir e cuidar é muito mais difícil. E é por isso que podemos nos orgulhar da nova Comunidade que estamos construindo. (…)

Antigamente, o monarca liderava seus soldados no campo de batalha e sua liderança era sempre próxima e pessoal. Hoje, as coisas são muito diferentes. Eu não posso liderá-los em batalhas. Eu não lhes dou leis ou administro justiça. Mas eu posso fazer uma outra coisa. Eu posso lhes dar meu coração e minha devoção a essas antigas ilhas e a todas as pessoas da nossa irmandade de nações. Eu acredito nas nossas qualidades e na nossa força. Eu acredito que juntos nós podemos estabelecer um exemplo para o mundo, que encorajará pessoas corretas em toda parte.