Crítica: Vida

Life, EUA, 2017


Terror no espaço é um prato cheio para os fãs do gênero

★★★★☆


Vida pode não adicionar muito ao gênero das “ficções científicas nas quais cientistas ficam presos em uma nave espacial com uma criatura assassina à solta”, mas é muito eficiente em transportar o espectador para um ambiente de terror absoluto. Seja pelo claustrofóbico ambiente da realista estação espacial, seja pelo incômodo causado pelas angustiantes cenas de terror, ou seja pela implacabilidade do alienígena recém-descoberto, esse é um filme que consegue ser altamente eficiente e eficaz na execução de sua simples proposta.

life1Parte dessa eficiência vem das ótimas performances de seu estelar elenco, encabeçado por Rebecca Ferguson, Ryan Reynolds e Jake Gyllenhaal. Eles conferem seriedade e credibilidade à trama, que abraça muitos (ainda que não todos) clichês desse tipo de filme. Uma vez que os momentos iniciais preparam o típico cenário de terror no espaço (por exemplo, a apresentação da equipe inclui o membro super bem-humorado, a capitã séria e carismática, o cientista encantado com as novas descobertas, etc.), é quase uma decepção quando nem todos os clichês são explorados ao longo da narrativa. Ao invés disso, o filme vai apenas subindo os níveis de desespero e tensão até o inevitável momento no qual os sobreviventes partem para o tudo ou nada.

A outra parte da eficiência desse terror vem de seu grande monstro: uma forma de vida que rapidamente cresce de um organismo unicelular para uma maleável e inteligente criatura que parece saída direto de um pesadelo. Não sendo suficiente o fato de que ela consegue se movimentar até por pequenas frestas nos ambientes de contenção, ela também mata suas vítimas de formas que levam ao mais absoluto horror corporal. As cenas nas quais a criatura ataca os humanos são comparáveis apenas à clássica cena do jantar em Alien – O Oitavo Passageiro, que é a mais óbvia influência de Vida.

Se alguma reflexão pode ser extraída dessa intensa viagem de ação e terror, certamente é sobre a fragilidade da vida humana diante da vastidão do espaço. Enquanto a criatura que os tripulantes enfrentam é resistente ao fogo, ao frio, à eletricidade e ao vácuo, nós estamos limitados a viver na atmosfera da Terra, um ambiente absurdamente controlado se comparado às condições extremas de outros planetas conhecidos. Em outras palavras, a vida a humana é compatível apenas com o sensível bioma formado pela fina camada de gases (mais especificamente, a troposfera) ao redor de um pequeno planeta que gira em torno de uma das trilhões de estrelas que compõem o universo conhecido. Encontrar outro planeta que possua exatamente as mesmas condições seria muito mais sorte que acertar na loteria. E não é que esse planeta coincidentemente seja perfeito para abrigar nossa forma de vida, mas sim que nossa forma de vida evoluiu precisamente para se adaptar a esse planeta.

life2Como em outros filmes do gênero, a prioridade dos astronautas passa a ser não deixar a criatura chegar na Terra, pois sua agressividade e resiliência colocaria em risco toda a vida no planeta. Veja que um dos clichês nos quais o filme não cai são dos humanos “burros” que se desesperam e acabam diminuindo as próprias chances de sobrevivência. Aqui, os astronautas conseguem se manter racionais o suficiente para fazer tudo certo, ou ao menos racionalizando os riscos antes de contar com a sorte. Infelizmente, isso só aumenta o terror, pois, independente de suas contra-medidas, a criatura parece ser uma força da natureza que não pode ser contida.

Vida deve agradar tanto os fãs do gênero quanto os espectadores ocasionais. Sem nenhuma mensagem mais profunda, o filme é uma montanha-russa de suspense e terror com um final, no mínimo, ousado.