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Crítica: Midsommar

Midsommar, EUA/Suécia, 2019


O angustiante terror de Midsommar funciona muito bem visualmente, mas roteiro não está no mesmo nível que a direção

★★★☆☆


Em Midsommar, o diretor e roteirista Ari Aster investe em visuais belos e chocantes para contar uma história desconfortável e angustiante. Porém, o filme perde parte do impacto graças a um roteiro relativamente previsível, ancorado em típicas artimanhas de filmes de terror e desprovido de surpresas recompensadoras. Ainda assim, a narrativa é um ótimo exercício de construção de suspense e deve agradar quem gostou do crescente clima de pesadelo de Hereditário (crítica aqui), trabalho anterior do diretor.

Inspirado nas comemorações do solstício de verão (que, no Brasil, chamamos de festas juninas) típicas de países nórdicos, o midsummer (período marcado pelos dias mais longos do ano) dá ao diretor a oportunidade de fazer um filme de terror que não depende da escuridão para assustar e incomodar. A proposta é interessante e funciona razoavelmente bem, mas seria ainda mais eficaz com um roteiro mais afiado.

O que amedronta em Midsommar não são as ameaças que se escondem no escuro, mas sim aquelas que se escondem sob a superfície de felicidade e hospitalidade do vilarejo sueco onde a história se passa. O suspense é construído de forma instigante, enquanto os visuais contrapõem o clima de sonho bucólico e paradisíaco com momentos de violência gráfica e visceral.

Conforme os previsíveis aspectos ritualísticos (e fanaticistas) das comemorações vão sendo revelados, o que havia de terror na trama vai se diluindo e cedendo espaço não apenas para o suspense mas também para a comédia. O nível de absurdez de certos desenvolvimentos é capaz de fazer o espectador rir tanto por um desconfortável nervoso quanto pelos aspectos de humor negro das cenas.

A protagonista Dani (Florence Pugh) e seu namorado Christian (Jack Reynor) são os personagens cujos desenvolvimentos são os mais profundos, mas, ainda assim, eles são bem superficiais. Enquanto ela é definida estritamente pela perda que sofreu durante a abertura do filme e por sua dependência emocional, ele representa uma pessoa indecisa, imatura e dissimulada tanto nos relacionamentos pessoais quanto nos profissionais.

Isso se dá porque o foco temático não está em nenhum deles isoladamente mas sim neles como casal. O frágil estado do relacionamento entre os dois é a primeira fonte de desconforto mostrada pelo filme. A segunda é a terrível perda que Dani sofre na família, o que aumenta ainda mais sua necessidade de conforto emocional e faz o relacionamento se prolongar por mais tempo do que deveria (com a conivência do insincero Christian).

O filme recebeu esse aspecto depois que o próprio diretor passou por um complicado processo de rompimento. Segundo ele, além de um conto de fadas moderno (na noção original dos “contos de fadas” dos Irmãos Grimm), Midsommar é um filme sobre o fim de um relacionamento no pior momento possível. De certa forma, essa é uma história sobre a superação das duas situações nas quais a protagonista está aprisionada: o luto e a dependência emocional.

As atuações do ótimo elenco ajudam a salvar o roteiro, especialmente a performance central de Florence Pugh. Com ela, a atriz se consolida como uma sólida protagonista e repete as virtuosas atuações que entregou em Lady Macbeth e na minissérie The Little Drummer Girl (sobre a qual escrevi aqui). Ela também foi muito elogiada na comédia dramática Lutando Pela Família e parece ser uma das peças chave no filme solo da Viúva Negra no MCU.

Em suma, Midsommar é um filme de terror convencional que compensa a falta de originalidade no roteiro com luxo e grandiosidade na execução. Enquanto a história em si chega a ser esquecível, é garantido que algumas das situações traumáticas e visuais chocantes irão permanecer com o espectador por pelo menos alguns dias. Apesar de não estar no mesmo nível que Hereditário, a obra mostra que Ari Aster ainda merece a nossa atenção.