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Crítica: Curral

Curral, Brasil, 2020


Filme apresenta um retrato fiel e sincero de uma realidade comum no interior do Brasil

★★★★☆


Curral traça um retrato de uma típica campanha eleitoral de uma cidade do interior do Brasil. A abordagem quase documental faz com o que filme sirva como registro de uma realidade que poucas vezes dá as caras na ficção de forma direta e realista. Talvez a narrativa seja até chata para quem já passou por inúmeras eleições de interior, mas ela também pode funcionar como uma reveladora viagem para quem nunca viveu naquela realidade.

Quando o protagonista Caixa (Thomas Aquino) aceita trabalhar na campanha para vereador de seu amigo de infância Joel (Rodrigo García), é perfeitamente previsível que em algum momento ele vai se arrepender. As promessas de Joel sobre ser diferente e representante de uma nova política podem até ser inicialmente sinceras, mas todo o seu perfil sócioeconômico indica que quando a situação ficar difícil ele vai começar a tomar decisões de curto prazo e a fazer alianças extremamente “pragmáticas” para conseguir a vaga no legislativo. Talvez o próprio Caixa já sabe disso, mas ele precisa do emprego.

E esse pragmatismo também vale para a população pobre. Não é possível ter grandes preocupações ético-filosóficas sobre a lisura do processo eleitoral quando a situação está apertada e alguém te oferece uma ajuda no curto prazo. Para uma população que não possui grandes perspectivas de futuro e não está acostumada a tomar decisões de longo prazo, uma cesta básica, um botijão de gás ou um carregamento de água pode fazer toda a diferença para aliviar a pressão econômica sob a qual ela vive. Nesse nível, o conceito de ética e o código moral seguido pela população é bem diferente do ideal.

A ingenuidade de Caixa não foi achar que tudo seria feito na maior honestidade possível, mas sim achar que ele iria cometer crimes eleitorais em nome de uma pessoa completamente diferente das que sempre trataram a cidade como um curral eleitoral. Ele faz um investimento pessoal ao colocar sua reputação na linha e usar todo o respeito e admiração que a comunidade tem por ele para avançar a campanha do amigo, além de permitir que o trabalho e seus relacionamentos pessoais se tornem indissociáveis um do outro.

Quando a decepção chega, o nível de tensão em Curral sobe consideravelmente, oprimindo tanto o protagonista quanto o espectador em uma situação sem saída. O estado mental de Caixa é perfeitamente representado por meio não apenas das acaloradas discussões que ele tem (e sempre perde) com Joel, mas também por meio de uma trilha sonora e uma mixagem de som que transmitem perfeitamente a barulhenta opressão de um período eleitoral no interior brasileiro.

Quando se vê parte do mesmo jogo político de sempre, seu comportamento se torna imprevisível. Talvez ele finalmente recuperou a desconfiança comum no restante da comunidade e começou a se perguntar: se há dinheiro para a campanha, como não há para oferecer melhores serviços para a população? Até que ponto os serviços e qualidade de vida são mantidos ruins apenas para que os políticos tenham moedas de troca durante as campanhas? Qual a saída para uma situação como essa?

Curral não oferece nenhuma solução, mas o fato de que ele apresenta o problema em toda sua amplitude e complexidade já é uma vitória. As nuances não se perdem no filme do diretor Marcelo Brennand, que explora aqui o labirinto econômico e moral de uma eleição local sob os pontos de vista daqueles que possuem tudo a perder com ela.

* Assistido online na 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo