Modo Noturno:

A Ideia da Terra Plana e Outras Histórias de Rebeldia

O movimento terraplanista brasileiro não apenas acredita que a Terra é plana, mas também que poderosos grupos de influência estão envolvidos em uma ampla conspiração para esconder essa verdade do povo. Os conspiradores fazem isso para garantir lucros e manter a população sob controle. Ainda segundo os terraplanistas, a NASA e o restante da comunidade científica não são nada mais do que o braço de propaganda dessa conspiração, responsável por espalhar as mentiras que a sustentam.

Essa não é a primeira vez que o consenso científico é questionado. Em 1847, o médico húngaro Ignaz Semmelweis propôs que seus colegas de profissão lavassem as mãos antes de atender pacientes e foi recebido com descrença e ridicularização. Alguns médicos, para os quais era comum terminar autopsias e em seguida realizar partos sem nenhum tipo de higienização, achavam contra-intuitiva e ofensiva a ideia de que eram eles mesmos que estavam provocando a alta taxa de mortalidade em alguns hospitais.

Mesmo depois de reduzir em mais de 90% as mortes por infecção pós-parto em um hospital de Viena, suas ideias e práticas só foram amplamente aceitas após sua morte, depois que o trabalho do cientista Louis Pasteur embasou o desenvolvimento da teoria dos germes na segunda metade do Século XIX.

O trabalho de Pasteur também serviu para consolidar o desenvolvimento de vacinas, que havia sido iniciado no século anterior pelo médico e naturalista Edward Jenner, desenvolvedor de um eficaz método imunizador contra a varíola. Inicialmente, as ideias de Jenner também foram mal recebidas pela comunidade científica (inclusive, com ridicularização), mas eventualmente ele teve seu trabalho reconhecido pela Academia de Ciências do Reino Unido.

Graças aos avanços realizados por Pasteur, o desenvolvimento e a aplicação de vacinas passou a ser um sinal de desenvolvimento nacional em todo o mundo. No início do Século XX, atendendo as sugestões do médico e sanitarista Osvaldo Cruz, uma das medidas adotadas pelo presidente brasileiro Rodrigues Alves para modernizar a cidade do Rio de Janeiro foi tornar obrigatória a vacinação da população.

Infelizmente, a medida foi implementada de forma absurdamente autoritária, a ponto da polícia invadir as casas das pessoas para vaciná-las à força, resultando então na chamada Revolta da Vacina em novembro de 1904. O governo decretou estado de sítio e reprimiu violentamente os revoltosos, especialmente a população mais pobre. Quatro anos mais tarde, a cidade sofreu com uma epidemia de varíola que deixou mais de 6000 mortos.

O mandato de Rodrigues Alves terminou em 1906, mas ele seria novamente eleito presidente em 1918. Entretanto, antes de assumir o cargo, Alves contraiu a agressiva cepa da Gripe Espanhola de 1918, e morreria em janeiro de 1919. Estima-se que a pandemia da Gripe Espanhola matou entre 50 e 100 milhões de pessoas ao redor do mundo, o que correspondia a até 5% da população mundial. No Brasil, a doença matou cerca de 35 mil pessoas, incluindo o presidente eleito.

Uma cepa semelhante à de 1918 surgiu em 2009 no México, mas foi contida graças, em parte, à vacinação em massa. De acordo com dados oficiais, 18,5 mil pessoas foram mortas pela doença ao redor do mundo, mas estima-se que o número pode ter sido bem maior.

Um outro médico rebelde foi o alemão Werner Forssmann, que, em 1929, defendia a ideia de que seria possível inserir uma sonda na veia de um paciente, conduzi-la até o interior de seu coração e administrar medicamentos diretamente no órgão. Uma vez que seus pares e superiores consideravam a hipótese perigosa demais para ser testada em humanos, Forssmann realizou o experimento em si próprio, com a ajuda de uma enfermeira que só concordou porque achava que ela seria a cobaia.

Com um cateter parcialmente inserido em seu braço, Forssmann e a enfermeira andaram até o departamento de raio-x, onde ele usou o equipamento para guiar a sonda até o interior do seu próprio coração. Esse foi o primeiro cateterismo cardíaco realizado na História.

Veja que Semmelweis, Jenner e Forssmann não estavam tentando ignorar fatos científicos com o intuito de avançar suas próprias crenças pessoais, mas estavam sim apresentando evidências e chamando a atenção para aspectos da nossa biologia que a ciência ainda estava ignorando. Ao invés de tentar substituir o conhecimento que veio antes, eles estavam tentando expandi-lo. Essa é a principal diferença entre eles e os terraplanistas, que tentam descreditar a ciência formal.

Mas esforços para descreditar a ciência não são incomuns. O físico Galileu Galilei (1564 – 1642) passou os últimos anos de sua vida em prisão domiciliar depois de receber uma condenação da Igreja Católica por defender o heliocentrismo de Nicolau Copérnico (1473 – 1543). Enquanto a Igreja insistia na ideia de que a Terra era o centro do Universo e os astros giravam ao seu redor, Copérnico e Galileu acreditavam que a Terra e demais astros é que giravam ao redor do Sol, hipótese que se mostraria correta nos séculos seguintes.

Um outro pesquisador que teve que lidar com a perseguição de poderosas instituições foi o geoquímico Clair Patterson, que nos anos 1960 descobriu que o chumbo utilizado na gasolina e em outros produtos de uso cotidiano (tintas, brinquedos, enlatados, batons, dentre outros) estava envenenando as pessoas. As indústrias do chumbo e do petróleo reagiram financiando falsos pesquisadores que discordavam de Patterson e denunciando seus alertas como alarmismo irresponsável, além de incentivar teorias da conspiração.

Ainda assim, seus esforços fizeram com que o uso do metal na gasolina fosse zerado já no ano de 1986. Na década seguinte, o nível de chumbo no sangue dos norte-americanos havia sido reduzido em até 80%.

As técnicas usadas contra Patterson também já foram utilizadas pela indústria do tabaco (como pode ser visto em filmes como O Informante e Obrigado Por Fumar) e continuam sendo utilizadas pela indústria do petróleo, mas dessa vez para descreditar os alertas de cientistas em relação ao aquecimento global.

Um claro exemplo disso é como a empresa ExxonMobil passou décadas informando ao público em geral que o aquecimento global provocado pela ação humana não passava de uma farsa, enquanto internamente a empresa possuía centenas de documentos que reconheciam o papel da humanidade na situação e analisavam como seu operacional (especialmente as plataformas de extração de petróleo) teria que se adaptar à nova realidade, com a elevação do nível do mar e o aumento na frequência de eventos climáticos extremos.

Ao invés de espalhar a verdade, a empresa ajudou a espalhar teorias da conspiração. Mas por que caímos tão facilmente nelas? De onde vem essa ansiedade paranoica? Um psicólogo consultado pela BBC diz:

Somos muito bons em reconhecer padrões e regularidades. Mas às vezes exageramos nisso – achamos que vemos sentido e significado quando realmente não há. (…) Nós também supomos que quando algo acontece, acontece porque alguém ou algo fez aquilo acontecer por um motivo.

Em outro artigo, um psicólogo diz:

Há pesquisas mostrando uma ligação entre o estresse e a suscetibilidade a teorias conspiratórias. (…) Quando alguém não se sente no controle da própria vida, durante momentos de estresse ou perturbação, teorias conspiratórias parecem mais plausíveis.

No fim das contas, a crença em teorias da conspiração não é nada mais do que um mecanismo de defesa: uma ideia que lhe dá a confortável impressão de que o mundo é simples e fácil de entender.

A ideia de que há pessoas secretamente controlando os eventos mundiais fornece a conveniente noção de que os eventos mundiais são controláveis; ou de que há ordem e propósito em acontecimentos que muitas vezes são resultados de incalculáveis interações entre imprevisíveis ações humanas e/ou naturais.

Ideias como essa não seriam problemáticas se elas não tomassem o lugar de ideias mais racionais, ou se não se aproximassem dos delírios da segunda temporada de Legion, ou de um dos raciocínios centrais do filme A Origem:

Qual é o mais resiliente dos parasitas? As bactérias? Um vírus? Um verme intestinal?

Uma ideia.

Resiliente… altamente contagiosa. Uma vez que uma ideia toma conta de seu cérebro, é quase impossível erradicá-la. Uma ideia completamente formada, completamente compreendida, ela se enraíza. Lá dentro, em algum lugar.

E para identificar e combater esse tipo de infecção, pode-se começar com a seguinte pergunta: quais ideias você não está disposto a questionar?