Modo Noturno:

Desinteligência Brasileira

Um homem chega nas ruas de Moscou e grita: “Estou cansado desse cara do bigode ridículo e das leis idiotas sendo líder!” Um soldado o escuta, o prende e o leva imediatamente para Stalin. Depois que o soldado explica o que aconteceu, Stalin pergunta ao homem: “Posso saber em quem você estava pensando quando disse aquilo?” O homem responde: “Camarada Stalin, é claro que eu estava pensando em Hitler, aquele fascista maldito!” Stalin ordena que o homem seja libertado, mas vira para o soldado e pergunta: “Em quem VOCÊ estava pensando quando ouviu aquilo?”

Algumas das características mais marcantes do ditador Josef Stalin eram a sua paranoia e sua sede de poder. Quem não fosse um seguidor completamente fiel e obediente, era considerado um inimigo do Estado, o que significava que qualquer aliado que ousasse criticá-lo poderia ser chamado de traidor. Para se livrar de qualquer tipo de oposição dentro do partido comunista, ele implementou o Grande Expurgo, chegando ao ponto de tentar remover os ex-aliados da História do país, o que foi feito por meio da destruição de documentos e falsificação de fotos.

Essas características, que podem ter sido resultantes de problemas mentais, são comuns em muitos outros ditadores, como Hitler, Idi Amin e Saddam Hussein. Outro ponto que todos eles possuem em comum é o uso de agências de inteligência para vigiar e combater tanto os opositores quanto os aliados. Dessa forma, a principal função das agências (identificar e antecipar possíveis ameaças à nação) fica de lado e elas passam a agir como uma polícia privada do mandatário, servindo para identificar e antecipar possíveis ameaças à permanência dele no poder.

É isso o que vem acontecendo no governo de Jair Bolsonaro. Depois de tentar interferir politicamente na Polícia Federal, ele implantou seus apoiadores na Abin e revelou fazer uso de uma “Abin paralela“. O aparato que deveria ser utilizado para proteger a nação está sendo utilizado para proteger os interesses do presidente e de seus filhos, como no caso das “rachadinhas” de Flavio Bolsonaro. Ao invés de monitorar ameaças externas ou de terrorismo interno, a Abin está plantando agentes nos próprios ministérios do governo, numa clara demostração do altíssimo nível de paranoia do presidente. O órgão também é alvo de suspeitas devido a compras misteriosas ou difíceis de explicar.

O que Bolsonaro está tentando criar é uma típica polícia política, um corpo policial que, ao invés de perseguir criminosos, persegue os opositores do regime que está no poder. Na época de Stalin, esse era o papel da NKVD, um poderosíssimo ministério do interior com múltiplas funções de segurança no Estado. Foi a NKVD que estabeleceu o infame sistema de Gulags, cuja população carcerária era formada por uma grande quantidade de presos políticos.

Mas, afinal, quais tipos de ameaças a Abin deveria estar monitorando?

Narrativas de Guerra

Há uma história que vem se repetindo nas últimas décadas no cenário geopolítico: o líder de uma nação se torna tão nocivo para seu próprio povo ou para povos estrangeiros, que a comunidade internacional se vê na “obrigação” de intervir militarmente no país. No caso do Afeganistão, precisava-se retirar o Talibã do poder. No caso do Iraque, era Saddam Hussein. No caso da Líbia, era o ditador Muamar al-Gaddafi. No caso da Síria, apesar de ser uma guerra civil, tanto os EUA quanto a Rússia possuem lados no conflito.

Além de serem ditaduras, outro ponto em comum entre esses regimes é que eles não possuíam relações diplomáticas muito amigáveis com o resto do mundo. Inclusive, pode-se dizer que eles foram invadidos não porque os EUA e aliados tinham a “obrigação” de fazê-lo, mas sim porque eles tinham o “direito” de invadi-los. Ficou claro que, além de estarem realmente atacando o próprio povo, os regimes também se portavam como párias na diplomacia internacional. Dessa forma, foi fácil para as partes interessadas (como o complexo industrial-militar) traçarem uma narrativa de como é “imprescindível” intervir no país para salvar a população.

Ditaduras como as da Arábia Saudita e do Egito seguem sem serem incomodadas, mas elas possuem fortíssimas alianças com os EUA. Na Coreia do Norte e no Irã, dois párias internacionais, seria muito arriscado intervir militarmente, pois eles realmente conseguiriam se defender. Mas e se algo semelhante acontecesse no Brasil?

Em agosto de 2019, a revista de relações internacionais Foreign Policy publicou um artigo intitulado “Quem vai salvar a Amazônia (e como)?“. Nele, o autor “imagina” se, mais cedo ou mais tarde, seria necessário intervir militarmente no Brasil para salvar a maior floresta tropical do mundo, um bem de interesse de toda a humanidade. O texto começa com um cenário hipotético, no ano de 2025, no qual o presidente dos EUA dá ao governo brasileiro um prazo de uma semana para encerrar todas as atividades de desmatamento. Se o país não obedecer, será iniciado tanto um bloqueio naval quanto ataques aéreos em alvos estratégicos do país. É assim que as narrativas começam a ser costuradas, e o simples fato de que alguém ousou escrever sobre esse cenário já é preocupante o suficiente.

A diplomacia brasileira respondeu publicando um artigo na mesma revista, intitulado “Não faça do Brasil um bode expiatório do meio ambiente“. Nele, um diplomata brasileiro usa os argumentos que o próprio Bolsonaro sempre usa: que o Brasil é um caso de sucesso na preservação das florestas e que a tendência histórica é de queda no desmatamento. Isso, é claro, ignora o fato de que as conquistas foram realizadas ao longos dos governos anteriores e que, durante o governo Bolsonaro, o desmatamento voltou a subir significativamente, a ponto de 2019 e 2020 serem os dois anos com mais alertas de desmatamento na história.

O diplomata termina dizendo que o Brasil não tem medo de ameaças e tem plena capacidade de se defender de uma intervenção militar estrangeira. Antes disso, ele informa ao autor do outro artigo que os Estados não interagem apenas por meio de ameaças militares e bullying, defendendo “a sútil arte da diplomacia”.

A Sútil Arte da Diplomacia

Em outubro de 2020, o chanceler brasileiro Ernesto Araújo disse que se a atuação da diplomacia do país “faz de nós um pária internacional, então que sejamos esse pária”. E foi além:

Esse pária aqui, esse Brasil, essa política do povo brasileiro, tem conseguido resultados. Talvez seja melhor ser esse pária deixado ao relento, deixado de fora, do que ser um conviva no banquete no cinismo interesseiro dos globalistas, dos corruptos e semicorruptos.

O discurso do chanceler revela o mesmo tipo de paranoia dos ditadores citados anteriormente. Se alguém discorda da política externa bolsonarista, essa pessoa só pode ser corrupta, e não um especialista que tem um ponto de vista diferente da situação. Só a opinião do “líder supremo” importa e quem discorda só pode ser criminoso. O chanceler também usa a palavra “semicorruptos” (???) e faz referência ao globalismo, termos cujos significados variam entre o vago e o completamente estúpido.

Mesmo se ele estivesse correto em sua rebeldia adolescente, tanto o chanceler quanto o presidente deveriam se lembrar de que essa não é uma posição sustentável. Era exatamente esse tipo de posição adotada por Hussein no Iraque e que ainda é adotada por Nicolás Maduro na Venezuela. Na diplomacia internacional, é muito melhor ter muitos amigos de quem você discorda do que ter alguns poucos amigos com quem você concorda. A não ser, é claro, que um dos seus poucos amigos seja os EUA. Talvez era com isso que Bolsonaro e Araújo estavam contando, mas a chegada de Joe Biden ao poder é uma má notícia para a rebeldia tupiniquim.

Enquanto isso, o chanceler segue colecionando “resultados”. Bolsonaro foi excluído da Cúpula do Clima da ONU por não ter apresentado um plano ambicioso o suficiente, apesar da diplomacia brasileira tentar inclui-lo até o último minuto; o país também perdeu uma vaga no tribunal que pode julgar Bolsonaro por genocídio ou ecocídio; o governo se isolou mais ainda ao não condenar a invasão do Capitólio nos EUA; país ficou de fora de uma cúpula que discutiu fechar os mercados internacionais para quem desmata; e o presidente da França diz que depender da soja brasileira é endossar o desmatamento da Amazônia.

Para completar, ao invés de realmente combater o desmatamento e traçar uma estratégia diplomática que recupere a reputação do país, o governo segue investindo em publicidade no exterior, colocando anúncios em outdoors e pontos de ônibus. E isso tudo sem levar em conta a catastrófica resposta do governo Bolsonaro à pandemia de COVID-19, que vem causando mais problemas à imagem do país.

Diante desse cenário, o quão difícil seria para a comunidade internacional justificar uma intervenção militar “pontual” no Brasil, apenas para “garantir que a Amazônia não seja destruída”? Independente desse ser o real motivo, o fato é que o Brasil está fornecendo todos os argumentos necessários para alguém aproveitar a oportunidade. Seria uma intervenção correta? Claro que não. Porém, uma vez que os tambores de guerra começassem a soar, seria evitável? Pouco provável.

E fica a questão: quais análises a Abin está enviando ao presidente sobre esses assuntos? E quais providências estão sendo tomadas?

O cachimbo favorito de Stalin desaparece. Acreditando que foi roubado, ele exige que o culpado seja identificado e punido, o que leva a KGB a prender e interrogar todas as pessoas que estiveram próximas ao seu escritório nos dias anteriores. Na manhã seguinte, Stalin encontra o cachimbo no bolso de um casaco que ele havia usado recentemente e liga para o chefe da KGB:
“Encontrei o cachimbo. Pode encerrar a investigação e liberar todo mundo.”
“Isso seria impossível, Camarada Stalin. Metade dos suspeitos morreu durante os interrogatórios.”
“Ora, então pelo menos liberte a outra metade!”
“Isso também seria complicado, Camarada, pois todos os sobreviventes confessaram o crime!”

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