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Crítica: Entre Frestas

Hiacynt, Polônia, 2021


Filme faz uma interessante combinação de drama e suspense, mas jamais atinge as altas notas que se poderia esperar

★★★☆☆


Como forma de chamar a atenção para a perseguição a homossexuais na Polônia comunista dos anos 1980, Entre Frestas funciona muito bem. Porém, a produção está mais interessada em ser um drama intimista do que em explorar o potencial da história como um intenso e envolvente thriller policial ou mesmo como thriller político. Essa escolha é perfeitamente válida, mas impede que o filme se diferencie significativamente dos muitos outros dramas intimistas sobre homossexualidade e alcance um público mais amplo.

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A trama mostra a história de Robert (Tomasz Zietek), um policial que fica insatisfeito com o rápido e corrupto encerramento de um caso de assassinato, resolvendo então investigar o crime por conta própria. Essa premissa e a ótima direção de Piotr Domalewski garantem um típico clima noir para a produção. A diferença é que, ao invés de se envolver em um submundo de gangsters e femme fatales, Robert mergulha no mundo da subversiva comunidade gay da cidade de Varsóvia.

O pano de fundo de Entre Frestas é a Operação Jacinto, que se tratou de um esforço da República Popular da Polônia para registrar todos os homossexuais do país. A justificativa oficial era o combate aos crimes cometidos por “gangues de homossexuais” e o controle da transmissão do HIV, mas a realidade era bem diferente. Na prática, as informações coletadas por meio de vigilância e interrogatórios serviam para chantagear indivíduos e, provavelmente, para conter a oposição anticomunista ao governo.

O filme lembra produções como Crimes Ocultos e O Segredo dos Seus Olhos, nas quais agentes do Estado precisam enfrentar o próprio Estado na tentativa de garantir que a justiça seja feita. Porém, a trama policial é intercalada com a jornada pessoal do protagonista, que luta para aceitar sua própria sexualidade. Seu drama realça o lado humano da trama, mas também se encaixa em uma típica fórmula: membro de uma sociedade conservadora, um jovem que está prestes a se casar se vê dividido entre seguir o caminho que lhe foi preparado ou abraçar sua homossexualidade.

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Felizmente, esse aspecto da trama é tão bem executado que sua previsibilidade jamais se torna um problema. A desvantagem é que essa subtrama não permite um melhor desenvolvimento do lado mais político e policial da trama principal, o que poderia resultar em algo do calibre do já citado O Segredo dos Seus Olhos. O mistério e o suspense estão presentes, mas jamais são explorados de uma forma que realmente leve o espectador a imergir profundamente na história. Nas mãos de um David Fincher, o roteiro de Entre Frestas resultaria em um filme impactante e inesquecível.

A produção é mais uma manifestação das cicatrizes que a ditadura comunista deixou na Polônia. A Netflix já havia lançado em 2018 a minissérie 1983, que se passa em uma versão alternativa da História na qual a Polônia jamais deixou de ser comunista. A série tem alguns episódios dirigidos por Agnieszka Holland, diretora polonesa que já está há várias décadas fazendo filmes e séries sobre o autoritarismo no país, tanto o nazista quanto o comunista. Nessa linha, seus dois filmes mais recentes são A Sombra de Stalin (crítica aqui) e O Charlatão (crítica aqui).

Entre Frestas pode não atingir todas as altas notas que sua história permitiria, mas o filme ainda é um bom exemplo de combinação entre drama e suspense. Se combinados de outra forma, seus elementos poderiam resultar em uma produção de alto apelo popular, ainda que sem perder a relevância e a sensibilidade da trama original. Isso harmonizaria perfeitamente com a distribuição global feita pela Netflix, aumentando ainda mais o alcance dos dramas pessoais e políticos presentes na história.

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