Modo Noturno:

Coronavírus: Comparando a Pandemia com um Apocalipse Zumbi

Nos últimos anos, vários especialistas aproveitaram a nova onda de filmes, séries e jogos sobre zumbis para desenvolver simulações de pandemias. A ideia era aproveitar a popularidade do tema para preparar parte da população para uma situação como essa. O CDC mantém uma página sobre o tema, incluindo uma graphic novel educativa e exercícios a serem utilizados por educadores. Recentemente, um estudo da Universidade de Chicago encontrou uma correlação entre o gosto por histórias de terror e o quão preparada uma pessoa está para lidar com uma pandemia:

Nesse estudo, nós mostramos que pessoas que lidam mais frequentemente com fenômenos assustadores fictícios, como fãs de terror e pessoas com curiosidade mórbida, mostraram uma resiliência psicológica mais robusta durante a pandemia de COVID-19. Além disso, assistir a filmes que lidam com a convulsão social que pode ocorrer durante uma pandemia estava associado com uma melhor preparação para lidar com a pandemia de COVID-19.

Uma razão pela qual o terror talvez se correlacione com uma menor aflição psicológica é que o terror fictício permite que sua audiência pratique, em um ambiente seguro, o ato de lidar com emoções negativas. Ainda que temam o assassino ou o monstro na tela, a audiência tem a oportunidade de praticar suas habilidades de regulação emocional. Passar por emoções negativas em um ambiente seguro, como durante um filme de terror, pode ajudar os indivíduos a aperfeiçoar estratégias para lidar com o medo e a lidar de forma mais calma com situações amedrontadoras na vida real.

É claro que correlação não implica causalidade. Além disso, o estudo também concluiu que o nível elevado de resiliência psicológica não significa que a pessoa estará melhor preparada para lidar com a pandemia, já que essa resiliência pode provocar apenas apatia diante da situação. Os fãs de terror possuem alta resiliência, mas poucas habilidades de preparação para uma emergência. De acordo com o estudo, foram os fãs de filmes de invasão alienígena, invasão zumbi e pós-apocalípticos que mostraram tanto a resiliência psicológica como a capacidade de se preparar para o pior. Isso significa que, além de já possuírem planos mentais, eles já sabiam que tipos de mantimentos precisariam coletar e reservar durante o início da emergência.

Vida Irreal

Desde o início da pandemia, várias das ameaças presentes em filmes de zumbis se mostraram mais realistas do que gostaríamos. Produções como o filme Extermínio, a série The Walking Dead e o jogo The Last of Us destacam não apenas as ameaças causadas pelos mortos-vivos, mas também aquelas causadas pelos outros sobreviventes. Um dos maiores problemas atuais da pandemia é convencer uma parte da população a seguir as medidas de contenção da doença. Enquanto isso, uma pequena parcela, inclusive alguns políticos e empresários, segue defendendo curas milagrosas que não funcionam e só beneficiam o vírus.

Toda história de zumbi que se preze possui aquele personagem que sempre toma as decisões mais egoístas possíveis, como esconder que foi contaminado ou abandonar os outros sobreviventes para morrer. Uma das manifestações máximas disso é o vilão Yon-suk (Kim Eui Sung), do filme Invasão Zumbi (crítica aqui), que faz um grande estrago no pequeno grupo de sobreviventes que se refugia em um trem. Na vida real, essa premissa se manifesta na forma dos negacionistas da pandemia, que espalham mentiras ou continuam viajando e frequentando festas mesmo sabendo dos riscos.

Já no filme Guerra Mundial Z, o protagonista Gerry (Brad Pitt) descobre que os zumbis não atacam pessoas que estão gravemente doentes, o que é usado pelos sobreviventes para desenvolver uma “vacina camufladora”. Essa característica dos zumbis do filme sugere que a seleção natural levou o vírus fictício a se aperfeiçoar, beneficiando uma variante que provoca o comportamento seletivo nos mortos-vivos. Nesse caso, a variante aumentou o potencial de contaminação do vírus, mas também criou um ponto fraco para os portadores. Na vida real, as novas variantes do SARS-CoV-2 já são um problema e não parecem possuir pontos fracos, gerando cada vez mais preocupações para cientistas e autoridades.

Em Extermínio 2, é mostrado que o surto do primeiro filme foi contido depois que a Grã-Bretanha foi evacuada e os zumbis morreram de inanição. Na vida real, algo assim poderia ocorrer por meio de uma combinação de ritmo acelerado de vacinação (com uma vacina de altíssima eficácia) e lockdowns estratégicos em certas regiões, o que poderia impedir a circulação do vírus e, talvez, provocar seu desaparecimento. A erradicação da varíola ocorreu de forma semelhante, mas aquele era um vírus mais estável e sua infecção tinha um curso bem definido. Países como o Vietnã e a Nova Zelândia ainda fazem um ótimo trabalho na contenção do coronavírus por meio de testagem, rastreio e isolamento dos casos identificados.

Ainda tratando de Extermínio 2, a situação mais uma vez sai de controle quando o país começa a ser repopulado e uma sobrevivente do surto original é encontrada. Ela é portadora do vírus zumbi, mas não apresenta os sintomas manifestados pelo restante da população. Esse único caso assintomático é suficiente para causar um novo surto e mais uma vez mergulhar o país no caos. Na vida real, um dos eventos que ajudaram os cientistas a concluir que o novo coronavírus podia ser transmitido por pessoas assintomáticas foi o surto a bordo do cruzeiro Diamond Princess, que ocorreu nas primeira semanas da pandemia.

Mas como um único caso pode levar à contaminação de um país?

Contágio

O número básico de reprodução, chamado de R Zero, de um vírus zumbi deve ser altíssimo. Uma vez que a pessoa é contaminada, ela chega no “pico dos sintomas” em questão de minutos e imediatamente vai em busca de novas pessoas para contaminar. Isso faz de um apocalipse zumbi um perfeito pesadelo epidemiológico, já que, apesar da altíssima taxa de mortalidade, os infectados seguem contaminando mais pessoas mesmo depois de falecerem. O SARS-CoV-2 não possui essa característica, mas ele possui suas próprias “vantagens pandêmicas”.

Normalmente, um vírus com um curto período de incubação e uma altíssima taxa de mortalidade, como o vírus zumbi, dificilmente seria capaz de provocar uma pandemia, pois os infectados morreriam antes de poderem transmitir a doença para outras pessoas. Pode ser que todos os anos várias versões altamente agressivas de vírus dos tipos coronavírus e influenza entrem em contato com seres humanos, mas sem jamais terem a oportunidade de serem transmitidos adiante. Mas esse não é o caso do coronavírus que provoca a COVID-19.

Para começar, depois de contaminada pelo SARS-CoV-2, uma pessoa pode levar de 1 a 14 dias para apresentar sintomas (como febre e dor de cabeça), mas se torna transmissível antes disso. Isso dá ao infectado a possibilidade de circular pelos mais diversos ambientes e espalhar o vírus pelo ar e pelas superfícies. Em um caso emblemático na Coreia do Sul, uma única pessoa infectada transmitiu a doença para mais de vinte outras em um restaurante, graças ao seu posicionamento perto de um dos aparelhos de ar condicionado do local. Apenas os funcionários, que estavam usando máscaras, não foram contaminados. Nesse caso, o R Zero foi digno de uma história de zumbi.

Outra “vantagem” da COVID-19 é que ela provoca tosse. Uma vez que os sintomas se iniciam, os infectados não saem correndo querendo morder outras pessoas, mas toda vez que eles tossem milhões de gotículas ou aerossóis de saliva são lançados ao ar, carregando o vírus e podendo contaminar quem estiver ao redor. Isso também ocorre quando os infectados cantam, falam alto ou respiram pesadamente, o que explica os focos de contaminação em bares, karaokês e academias, mesmo que ninguém esteja apresentando sintomas.

Por fim, apesar da baixa taxa de mortalidade, a COVID-19 ataca fortemente os sistemas de saúde. Apenas uma minoria dos casos evolui para sintomas mais graves, mas é uma minoria grande o suficiente para provocar o colapso do atendimento hospitalar de uma região. Nenhum lugar do mundo possui pessoal treinado e UTIs suficientes para atender à demanda provocada por um surto descontrolado de COVID-19. Os casos graves geralmente precisam de pelo menos uma semana para se recuperar, mas esse tempo pode chegar a meses, criando filas de pacientes no aguardo de UTIs e aumentando a taxa de mortalidade tanto da doença quanto de pessoas que precisam desses leitos por outros motivos.

Em suma, por mais que o vírus da COVID-19 seja muito diferente de um vírus zumbi, ele também está sendo capaz de trazer à tona alguns dos comportamentos mais tóxicos da humanidade. Muitas pessoas seguem ignorando as recomendações científicas e acabam contribuindo para a piora da pandemia, mostrando serem incapazes de agir de forma responsável e cooperativa com os demais sobreviventes. Enquanto isso, o tempo de duração desse filme vai ficando cada vez mais longo.

Veja mais: