Crítica: Caminhos do Crime
Crime 101, EUA, 2026
Trailer · Letterboxd · IMDB · RottenTomatoes
★★★★☆
Ainda que não alcance as alturas de novos clássicos como Profissão Ladrão, Fogo contra Fogo e Atração Perigosa, só o fato de que Caminhos do Crime tenta (e quase consegue) chegar lá já faz a produção valer a pena. Mais que isso, o filme fica bem acima de outras produções que já tentaram emular esses e outros clássicos thrillers de ação sobre assaltos. Por mais que a história não seja completamente imprevisível, o diretor e roteirista Bart Layton consegue criar personagens bem desenvolvidos e manter um ótimo clima de tensão, além de permear a trama com um marcante senso de estilo.
Talvez o grande destaque da produção seja a forma como o diretor apresenta as pressões sob as quais os três personagens centrais estão. O assaltante Mike/James Davis (Chris Hemsworth), o detetive Lou Lubesnick (Mark Ruffalo) e vendedora de seguros Sharon Combs (Halle Berry) possuem vidas bem diferentes, mas todos eles chegaram em pontos nos quais precisam de algum tipo de mudança de rota. De repente, as vidas que eles construíram até o momento não parecem sustentáveis no médio e no longo prazo. Ao longo da narrativa de Caminhos do Crime, os três personagens experimentam conduzir suas vidas de formas diferentes do que estão acostumados.
Indo além, eles representam pessoas solitárias e focadas em suas vidas profissionais, tentando encontrar no trabalho algum significado maior ou a satisfação que eles parecem incapazes de encontrar em suas vidas pessoais. É possível vê-los tentando estabelecer conexões humanas e aspirando por um tipo diferente de existência, mas os traumas do passado ou as incertezas da meia idade os mantêm preocupados com sucesso profissional e segurança financeira.
Isso fica mais claro no caso do protagonista, Mike. Marcado por uma infância de pobreza, seu foco é jamais voltar àquela situação. Com uma ótima atuação de Hemsworth, o personagem apresenta todos os trejeitos de alguém que não possui muito traquejo social e que sempre esteve mais focado em ganhar dinheiro. Metódico e disciplinado, percebe-se que se divertir ou alcançar algum tipo de felicidade nunca esteve dentre suas prioridades. Enquanto dirige pelas ruas de Los Angeles, a presença dos muitos moradores de rua que existem na cidade (e em outras partes dos EUA) o mantém tão apreensivo pelo seu passado quanto focado em seu futuro.
Assim como nos novos clássicos citados no início desse texto, o roteiro de Caminhos do Crime insere um interesse amoroso para o protagonista, que serve acima de tudo para realçar o quão inadequado ele é para funcionar como um ser humano “normal”. Talvez porque ele seja convencionalmente atraente e relativamente vulnerável, Maya (Monica Barbaro) insiste no relacionamento até que as várias red flags apresentadas por Mike vão ficando cada vez mais preocupantes. O que o espectador percebe é ele está tentando conciliar duas realidades completamente incompatíveis.
Caminhos do Crime perde um pouco da pegada relativamente realista ao ir até o fim com o arquétipo do “bandido com um bom coração”. O mais comum é que alguém como Mike apresente, pelo menos, alguma deficiência em sua capacidade de empatia ou mesmo alguns traços de psicopatia, o que é o caso dos personagens Ormon (Barry Keoghan) e Money (Nick Nolte). Filmes como A Qualquer Custo e Ambulância lidam melhor com essa dicotomia ao serem protagonizados por irmãos de índoles diferentes que colaboram no mundo do crime, o que permite que os roteiros façam contrapontos entre as boas intenções de um e a destrutiva impulsividade do outro.
O roteiro de Caminhos do Crime também realça os dilemas morais de Sharon e Lou, profissionais que precisam ir além de seus limites éticos se quiserem se manter alinhados com a cultura das organizações das quais eles fazem parte.
Vale notar que talvez Sharon não teria problemas com isso se seus chefes tivessem lhe dado a grande promoção que lhe foi prometida. Para muitos, sua frustração pode até ser difícil de entender, pois, ainda que ela não tenha se tornado uma sócia da firma, ela ainda é uma executiva de alto nível no local. Porém, sua insatisfação pode ser um caso de adaptação hedónica: uma vez que ela já possui o cargo atual há um bom tempo, ele já não lhe parece tão alto assim, levando-a a ansiar por uma posição ainda mais importante.
Já o detetive Lou, que é um personagem bem similar ao que Ruffalo interpretou na minissérie Task, precisa lidar com as conflitantes prioridades da polícia de Los Angeles. Para seu chefe, o capitão Stewart (Matthew Del Negro), se um crime não pode ser solucionado do jeito certo, então ele precisa ser solucionado de alguma outra forma. O importante é que as estatísticas sejam mantidas sob controle e que o departamento não seja cobrado pelos erros cometidos pelos policiais. Infelizmente, foi justamente esse tipo de mentalidade que resultou em um dos maiores escândalos de corrupção policial da História dos EUA, que foi dramatizado na minissérie A Cidade é Nossa.
Todas essas temáticas fazem com que Caminhos do Crime seja bem menos derivativo do que parece e garanta sua própria identidade, não se limitando a ser apenas “mais um” thriller sobre assaltos. Faltou muito pouco, especialmente em seu desfecho, para que a trama merecesse um lugar de destaque na longa lista de filmes pertencentes a esse subgênero. Para quem nunca viu como esses mesmos temas já foram tratados em inúmeros outros filmes, Caminhos do Crime pode oferecer uma introdução intensa, estilosa e talvez até inesquecível.









