Crítica: Fallout – 2ª Temporada

Fallout, EUA, 2024-2026



Prime Video · Trailer · Filmow · IMDB · RottenTomatoes

★★★★☆


Mesmo não tendo um forte motor narrativo, a segunda temporada de Fallout ainda consegue capturar a atenção e o interesse do espectador graças a ótimos personagens, a intrigantes mistérios e a uma fantástica construção de mundo. Para os fãs dos jogos, a série ainda conta com inúmeros easter eggs e momentos de fan service. Curiosamente, o universo criado é tão envolvente que essas referências funcionam muito bem mesmo para quem não as conhece, já que os efeitos especiais e a direção de arte as tornam visualmente estimulantes por si próprias.

fallout freeside

Ao invés de um grande vilão que precisa ser derrotado ou de algum outro grande objetivo a ser alcançado, a segunda temporada de Fallout se limita a acompanhar as jornadas individuais dos personagens centrais. Isso é feito por meio de uma narrativa que é acima de tudo uma grande colcha de retalhos, ao invés de ser um fluxo constante de acontecimentos. Felizmente, cada um dos trechos possui seus próprios atrativos e oferece suas próprias recompensas ao espectador.

A personagem mais interessante ainda é a protagonista Lucy (Ella Purnell), já que continuamos acompanhando sua jornada de aprendizado e amadurecimento. Se na primeira temporada a vemos perdendo a inocência de uma pessoa que cresceu em um ambiente altamente amigável e controlado, agora nós a vemos entrando em contato com seu lado mais sombrio. Depois de toda a violência da qual ela foi vítima ou autora, há apenas vestígios da Lucy que conhecemos no início da primeira temporada.

Ela ainda tenta manter a sua firmeza moral, mas o mundo ao seu redor segue exigindo que ela vá além da sua própria ética para poder sobreviver. Isso cria uma certa expectativa para quando ela se reencontrar com seu irmão Norm (Moises Arias), já que os dois personagens estão passando por mudanças significativas enquanto afastados um do outro. Tanto ele quanto Maximus (Aaron Moten) estão tendo que recorrer ao improviso dadas as complicadas situações nas quais eles se encontram.

Enquanto isso, o Necrótico/Cooper Howard (Walton Goggins) segue em busca de sua esposa e de sua filha nessa terra arrasada. Porém, as cenas mais interessantes com ele se passam duzentos anos antes, quando ele ainda está tentando evitar o apocalipse. Naquele tempo, ele acaba entrando em contato com a deputada federal Diane Welch (Martha Kelly) e com o bilionário Robert House (Justin Theroux), em interações que ainda ecoariam 200 anos depois.

fallout

A trama traça um curioso paralelo entre Welch e House, revelando o quão desequilibrada a balança do poder se tornou nesse mundo fictício. Ela, uma representante eleita pela população, não é levada a sério e passa por diversos tipos de humilhação, evidenciando o quão desfavorecido o poder político se tornou, especialmente depois que a Guerra Sino-Americana deixou o governo do país quase quebrado.

Por outro lado, quando escuta alguém dizer que não votou para que o bilionário aparecendo na televisão tomasse as decisões sobre o futuro do país, Robert House responde: “Cada dólar gasto é um voto depositado, e aquele cara ali tem mais votos do que todos aqueles políticos cabeça-de-bagre de Washington.”

Assim como Cooper, House também sabe que o apocalipse está por vir. Porém, ao invés de tentar evitá-lo, o bilionário está mais interessado em tentar garantir a própria sobrevivência. Dessa forma, a falta de poder e de influência dentre os representantes eleitos deixa a população à mercê das vontades dos detentores do poder econômico. Esse tema vem sendo abordado pela série desde a primeira temporada, especialmente quando um amigo lembra a Cooper de um filme de faroeste no qual eles, que são atores, trabalharam:

“E o que acontece quando os fazendeiros de gado se tornam mais poderosos do que o xerife? A cidade inteira pega fogo.”

Ironicamente, Fallout é uma produção original do Amazon Prime Video, serviço de streaming que faz parte do império da Amazon, do bilionário Jeff Bezos. No mesmo dia em que o episódio final da segunda temporada foi lançado, uma outra propriedade do bilionário realizou uma preocupante rodada de demissões: o tradicional e centenário jornal Washington Post. Na prática, o movimento reduz a capacidade do jornal de investigar e produzir notícias de interesse público enquanto mantém sua capacidade de “produzir conteúdo” para a era das redes sociais.

O jornal foi responsável por histórias que mudaram os rumos do país e que resultaram em filmes como The Post: A Guerra Secreta e Todos os Homens do Presidente. Agora, enquanto segue em frente com aproximadamente 300 jornalistas a menos, o jornal ainda possui vagas abertas para profissionais de marketing, editores de vídeo e gerentes de vendas de anúncios.

Algumas das revelações feitas na segunda temporada de Fallout serviram apenas para gerar ainda mais perguntas, garantindo os mistérios para o futuro da série. Espera-se que a narrativa comece a convergir para um enfrentamento contra o temido Enclave ou que comece a focar na reconstrução da civilização como objetivo principal dos personagens. Isso garantiria o foco que faltou na temporada atual e do qual alguns espectadores sentiram falta.