Crítica – Extermínio: O Templo dos Ossos
28 Years Later: The Bone Temple, Reino Unido/EUA, 2026
Trailer · Letterboxd · IMDB · RottenTomatoes
★★★★☆
Não há nada muito convencional nesse novo capítulo da franquia Extermínio, série cinematográfica que segue subvertendo o gênero dos filmes de zumbis. Continuando a partir do ponto no qual Extermínio: A Evolução parou, Extermínio: O Templo dos Ossos ainda acompanha a jornada de amadurecimento do jovem Spike (Alfie Williams). Porém, dessa vez, ele deixa o protagonismo para dar espaço para a colisão de dois mundos: o do doutor Ian Kelson (Ralph Fiennes) e o do líder de seita Jimmy Crystal (Jack O’Connell).
Enquanto já conhecemos Kelson devido à sua participação no ato final de A Evolução, O Templo de Ossos nos introduz ao violento e perturbador mundo de Jimmy Crystal. A origem de Jimmy está na aterradora cena de abertura de A Evolução. Em 2002, durante o surto inicial do vírus, um Jimmy de oito anos de idade não apenas vê sua família ser morta/infectada por zumbis, mas também vê seu pai, um vigário anglicano que parece ser um fanático religioso, aceitar com êxtase a chegada dos infectados, como se fosse o dia do juízo final.
Ao crescer sozinho depois desse evento traumático, Jimmy utiliza as poucas referências que possui de sua infância para criar uma sanguinária seita satânica. Se inspirando nos visuais e nos bordões dos Teletubbies e do apresentador da BBC Jimmy Savile, ele se torna um sádico e manipulador líder de seita, exercendo poder sobre jovens desesperados e desamparados para conseguir o que quer e para se sentir especial.
A inspiração em Jimmy Savile não é uma coincidência, mas sim uma referência a um trauma nacional britânico. Durante várias décadas, com seu jeito excêntrico e bem humorado, Savile foi uma querida figura midiática para milhões de pessoas, com presença quase constante na TV e status de símbolo nacional. Porém, após a sua morte em 2011, a polícia começou a investigar inúmeras acusações de abuso e assédio sexual feitas contra Savile, concluindo que ele foi um dos maiores criminosos sexuais da História do país, com vítimas entre 5 e 75 anos de idade.
No universo de Extermínio, como o apocalipse zumbi teve início em 2002, o Reino Unido jamais teve a oportunidade de conhecer a verdadeira natureza de Savile, o que explica o fato de Jimmy Crystal se inspirar em seu visual para compor sua seita. Esse aspecto faz com que O Templo dos Ossos tenha uma camada extra de terror para os espectadores britânicos, já que muitos deles tiveram que “recalcular” a admiração e a nostalgia que tinham por uma figura que se revelou um completo monstro. É uma situação que lembra a queda do pedófilo líder religioso mostrado no documentário Colônia Dignidade.
O característico estilo de Savile, que era copiado em festas de fantasia, era marcado pela combinação de moletons esportivos com joias extravagantes, além dos longos cabelos loiros claros. Agregando-a com a variação de cores dos Teletubbies e com certa simbologia cristã, Jimmy Crystal utiliza essa estética como uma das formas de suprimir a individualidade de seus seguidores, que são todos chamados de Jimmy e são considerados “dedos” de suas mãos.
Quando Crystal finalmente encontra Kelson e seu impressionante “templo de ossos”, ele imediatamente tenta fazer o que qualquer líder extremista faria: subverter o significado daquele ossuário para consolidar a sua mitologia pessoal e o seu poder sobre seus seguidores, o que ele já havia começado a fazer ao se apropriar de símbolos cristãos. Ele está interessado em lealdade e obediência cegas, e não pode permitir que seus “dedos” tenham senso crítico<link> o suficiente para questionar as suas ordens.
Antes da chegada de Jimmy no templo dos ossos, o mundo de Kelson é afetado por outro acontecimento marcante. O zumbi “alfa” que ele chama de Sansão (Chi Lewis-Parry) começa a dar sinais de inteligência, permitindo que o médico estabeleça uma improvável amizade com o gigante infectado. Esse desenvolvimento parece ser consequência das repetidas vezes que Kelson o sedou com uma mistura de morfina e outros medicamentos, levando-o a acreditar que talvez exista como tratar os efeitos neurológicos do vírus.
Isso resulta nos interessantes momentos nos quais Sansão vai recuperando sua humanidade. De forma psicodélica e desnorteante, a diretora Nia DaCosta faz uma envolvente representação da confusão mental do personagem. Inicialmente, ele não consegue discernir entre as memórias que estão voltando e a realidade do momento atual, exibindo claros sinais de uma condição psicótica. Isso retoma uma ideia que o roteirista Alex Garland vem explorando desde o filme anterior, reforçando que esses “zumbis” são, antes de mais nada, seres humanos.
Porém, o grande momento de Extermínio: O Templo dos Ossos ocorre quando as aspirações satânicas de Jimmy Crystal se combinam com a criatividade artística do doutor Kelson, resultando no que eu já considero um dos melhores momentos musicais da História do cinema. É algo que pode ser comparado com a cena de dança em Napoleon Dynamite ou com a batalha final de Star Trek: Sem Fronteiras, ou mesmo com os marcantes momentos musicais de Pecadores. Fazendo um uso tematicamente relevante da canção The Number of the Beast, do Iron Maiden, esse é o tipo de cena que faz o preço do ingresso valer a pena.
Por fim, assim como Jimmy Crystal teve uma rápida aparição nos momentos finais de Extermínio: A Evolução, o protagonista do primeiro Extermínio aparece em uma cena nos momentos finais de O Templo dos Ossos. Tudo indica que Jim (Cillian Murphy) irá encontrar Spike e que os dois estarão juntos no quinto filme da franquia, que ainda precisa ser confirmado por Danny Boyle e pelos demais produtores.
No geral, Extermínio: O Templo dos Ossos representa mais um capítulo na jornada dessa fictícia versão do Reino Unido em busca da recuperação da sua humanidade. Mais uma vez, os zumbis representam apenas uma das ameaças com as quais os personagens têm que lidar, já que alguns dos maiores perigos presentes nos capítulos anteriores vieram dos não-infectados. Os dois filmes dessa nova trilogia nos lembram da frase que aparece nos momentos finais de Mad Max: Estrada da Fúria:
Para onde devemos ir, nós que vagamos por essa terra arrasada, em busca do que há de melhor em nós?









