Crítica – Peaky Blinders: O Homem Imortal

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Peaky Blinders: The Immortal Man, Reino Unido, 2026



Netflix · Trailer · Letterboxd · IMDB · RottenTomatoes

★★★★☆


Peaky Blinders: O Homem Imortal funciona muito mais como um episódio especial da série do que como um filme isolado. Além de uma grande homenagem à épica trajetória da família Shelby, a trama também oferece um verdadeiro final para essa história, que vem sendo contada desde 2013. Esse é um final melancólico e imperfeito, mas que também consegue refletir sobre a melancolia e a imperfeição de seu icônico protagonista e das pessoas que o cercavam.

No último episódio da série Peaky Blinders, o protagonista Thomas Shelby (Cillian Murphy) derrota um último oponente, se afasta da organização criminosa controlada por sua família e mais uma vez sobrevive ao seu pior inimigo: ele mesmo. Voltando a ter um estilo de vida mais próximo de suas raízes ciganas, seu futuro se torna incerto, mas ele parece ter encontrado algum tipo de paz interior.

Entretanto, o Thomas Shelby que encontramos em O Homem Imortal vive isolado e assombrado pelos fantasmas e pelas memórias de seu passado. Ao invés de aproveitar os resultados de todas as suas “gloriosas” vitórias, ele não consegue afastar o peso de toda a violência e de todas as tragédias que marcaram a sua vida. Suas táticas inteligentes e calculistas o ajudaram a derrotar grandes inimigos, mas os custos dessas vitórias acabaram deixando-o no zero a zero. Ele pode ter erguido um império, mas não conseguiu construir uma vida.

É nesse contexto que tanto sua irmã Ada Shelby (Sophie Rundle) quanto a estranha Kaulo (Rebecca Ferguson) vão em busca de Tommy e pedem que ele intervenha nas ações de seu filho, Duke Shelby (Barry Keoghan). Liderando sozinho os Peaky Blinders e com a clara necessidade de uma figura paterna, Duke se sente desconectado do mundo e começa a traçar um caminho que pode levar não apenas à subjugação do Reino Unido, mas também ao extermínio do restante de sua família e do restante do povo cigano.

A Birmingham de 1940 é uma das cidades inglesas que estão sofrendo com os bombardeios da Alemanha Nazista. Ao invés de ajudar nos esforços de guerra, Duke está mais interessado em obter ganhos pessoais e se alinha com o traidor John Beckett (Tim Roth) em um esquema que pode causar um colapso da economia da Inglaterra (e que é baseado em um plano real dos nazistas, a Operação Bernhard). O que talvez Duke não saiba é que o regime nazista não estava perseguindo e executando apenas judeus, mas também pessoas com deficiência física ou mental, poloneses, comunistas, homossexuais, Testemunhas de Jeová e povos ciganos, no que ficaria conhecido como o Holocausto Cigano.

Desde o início da série Peaky Blinders fica claro que Tommy e boa parte de seus comparsas são homens traumatizados pela absurda violência da Primeira Guerra Mundial. Aquela foi uma guerra sem precedentes na História da humanidade, sendo considerada o primeiro conflito de escala industrial, com o uso de metralhadoras, tanques, aviões e armas químicas resultando na morte de mais de 10 milhões de pessoas. O evento também contribuiu para espalhar a terrível pandemia da Gripe de 1918 e para tornar o Oriente Médio um foco de conflito que segue problemático até os dias atuais.

Dessa forma, é bem adequado que Tommy volte para cuidar dos Peaky Blinders justamente durante o início da Segunda Guerra Mundial. Ele é obrigado a voltar a ser o líder da gangue e a pensar de uma forma que os deixe sempre um passo à frente de seus inimigos; ele é obrigado a voltar a ser um chefe de família e um pai para seu filho; e ele é obrigado a voltar a ser um dos homens-toupeira da Primeira Guerra, já que o ato final de O Homem Imortal o coloca em uma dura caminhada pelos túneis subterrâneos da cidade de Liverpool.

Além disso, ele mais uma vez precisa lidar com a União Britânica de Fascistas (UBF), partido de colaboradores nazistas do qual John Beckett faz parte. Na série, Tommy já havia lidado com o notório fascista Oswald Mosley (Sam Claflin), mas ele parece ter sido deixado de lado porque o político real teve uma longa vida e só morreu em 1980. Já o Beckett do filme parece ser inspirado em um John Beckett que também era membro da UBF e que planejava montar um governo colaboracionista uma vez que a Inglaterra fosse invadida, semelhante ao governo da França de Vichy.

Todos esses elementos fazem com que O Homem Imortal sirva como uma melancólica e introspectiva viagem pelo passado da série e pelo passado do país. No fim das contas, a série sempre foi mais um reflexo da História britânica do que um reflexo dos peaky blinders da vida real. Se Tommy Shelby e os demais personagens se tornaram icônicos, foi muito mais pelas qualidades da direção de arte, da atuação de Cillian Murphy e da escrita do criador Steven Knight, que utiliza esse universo para revisitar o passado de sua família e de sua cidade natal.

O ritmo de Peaky Blinders: O Homem Imortal pode não agradar a todos os espectadores, mas funciona muito bem para explorar os conflitos internos de Thomas Shelby e para colocá-lo na direção de um último inimigo. Esse pode não ser o final que muitos gostariam, mas é um final que abre as portas para novos personagens e para novas tramas que recontam a história do Reino Unido sob o ponto de vista das ruelas escuras ao redor do The Garrison Pub.


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