O Grande Jogo de Azar

stocksnap_imub39jbn1Ocasionalmente, somos surpreendidos no noticiário por estórias devastadoras. Não falo de mega-catastrófes, atentados terroristas ou afins, mas de pessoas que tem suas vidas interrompidas em momentos cruciais, ou apenas felizes, de suas existências. Uma grande mudança, ou uma grande conquista, ou um momento qualquer em uma rotina destinada ao sucesso podem ser subitamente cancelados por um pequeno ou grande acidente que leva desse mundo alguém que ainda tinha toda uma vida a ser vivida.

Tais acontecimentos podem levar algumas pessoas a questionarem a própria fé. Que Deus poderia permitir um fim tão trágico para estórias geralmente tão puras quanto inspiradoras? E com qual propósito? Outras podem encontrar conforto no mistério que é a nossa fé: Deus sabe o que faz e não cabe a nós questionar Seus grandes planos.

E é nesse conforto que estou interessado aqui. A crença religiosa nos dá respostas em um Universo que insiste em permanecer, em grande parte, desconhecido. Mais que isso, a existência de forças superiores que tudo controlam e que olham por nós nos dá garantias: garantia de que as coisas vão melhorar; de que existe uma justiça suprema e infalível; de que teremos proteção quando saímos da cama e começamos o dia; de que nossos entes queridos também estão seguros e protegidos.

Afinal, sem essa proteção, como poderíamos ousar fazer qualquer coisa, por mais simples que fosse? Provavelmente, a quantidade de coisas que podem dar errado em qualquer ponto do nosso dia, mesmo quando estamos dormindo, tende a infinito. Em qualquer momento, por mais simples e mundana que seja a atividade, sempre há a possibilidade de algo dar terrivelmente errado e resultar em consequências catastróficas. E é justamente por isso que somos tão apegados às já citadas garantias.

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Porém, vamos, por um instante, supor que essas forças superiores não existam.

Pra começar, já não poderíamos ter a noção de garantia. A implicação disso é de que em cada decisão que tomamos ao longo do dia estamos fazendo uma aposta. Ao acordar e colocar os pés no chão, você aposta que o chão vai estar lá. Ao entrar em um ônibus, você aposta que chegará ao seu destino. Ao almoçar em um restaurante, você aposta que a comida não está contaminada. Ao deixar seu filho na escola, você aposta que ele será bem cuidado. Para todos os efeitos, nada nos garante que um avião não irá cair sobre nossa casa enquanto dormimos, portanto ir pra cama no fim do dia também é uma aposta.

Gosto desse raciocínio não por ele nos causar uma certa sensação de insegurança, mas por ele nos incentivar a constantemente pensar na qualidade de nossas decisões e a assumirmos o controle do nosso próprio destino, ao invés de o entregarmos nas mãos de forças desconhecidas que podem muito bem não existir. Podemos ter esse controle porque as “apostas” mencionadas no parágrafo anterior são diferentes do lançar de uma moeda: por termos mais variáveis envolvidas e mais resultados possíveis que cara ou coroa, as probabilidades de falharmos e de termos sucesso podem ser bem diferentes de 50%.

Sendo assim, o que nos resta é tomarmos medidas e decisões que maximizem a probabilidade de termos o resultado esperado. Quando você olha para os dois lados antes de atravessar uma rua, a probabilidade de você ser atropelado será bem menor que quando você atravessar sem olhar e esperando pelo melhor. Na grande maioria dos casos, e se não acompanhado de medidas apropriadas, o puro otimismo será seu inimigo.

Essa análise “probabilística” acaba por diminuir significativamente o lado “aposta” das nossas decisões. No ótimo Crupiê, o protagonista Jack (Clive Owen) explica rapidamente o que motiva os apostadores: “Apostar não é uma questão de dinheiro. Apostar é uma questão de não encarar a realidade, de ignorar as probabilidades.”

Veja que esse pensamento é bem menos reconfortante que a ideia de que existem forças superiores que estão no controle da situação e que controlam os resultados de nossas ações. Diante de um Universo grande e complexo demais para compreendermos (e que, por isso, chamamos de caótico), não é estranho que criemos estórias para explicá-lo, o que nos lembra a célebre frase de Voltaire: “Se Deus não existisse, teríamos que inventá-lo.”

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Porém, maximizar as chances de sucesso não nos dá a garantia de sucesso. Isso apenas nos dá alguma garantia de que fizemos o melhor que podíamos diante da situação. Ainda que você consiga elevar as probabilidades de sucesso para 99,9%, não há nenhuma força superior garantindo que a sua tentativa não caia no 0,1% dos casos.

É por isso que parte de “estar no controle” é conseguir lidar com resultados adversos. Se a sua decisão (ou a sua “aposta”) possui apenas um resultado aceitável, você está sendo preocupantemente otimista. A aposta ideal não é aquela que tem as mais altas chances de sucesso, mas sim aquela que tem o maior número possível de resultados aceitáveis. Você deixa de ser um mero apostador quando está mais preocupado em se preparar para a maioria dos resultados possíveis do que em classificar esses resultados como bons ou ruins.

Essa resiliência, que também pode ser considerada um desapego do resultado, nos ajuda a lidar com a última aposta que fazemos na vida, e que invariavelmente perdemos. No penúltimo episódio da 7ª temporada de Game of Thrones, um rápido diálogo nos diz tudo o que precisamos saber sobre isso:

Beric Dondarrion (Richard Dormer): Somos soldados. Temos que saber pelo que estamos lutando. Não estou lutando para que algum homem ou mulher que mal conheço se sente em um trono feito de espadas.

Jon Snow (Kit Harington): Então pelo que você está lutando?

Beric Dondarrion: Pela vida. A morte é o inimigo. O primeiro inimigo… e o último.

Jon Snow: Mas todos nós morremos.

Beric Dondarrion: O inimigo sempre ganha. E ainda assim temos que combatê-lo. Isso é tudo o que sei. Você e eu não vamos encontrar muita alegria enquanto estamos aqui, mas podemos manter outros vivos. Podemos defender aqueles que não podem se defender.

Jon Snow: “Eu sou o escudo que guarda os reinos dos homens.”

Beric Dondarrion: Talvez não precisemos entender nada mais que isso. Talvez isso seja o bastante.

Jon Snow: Sim. Talvez isso seja o bastante.