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Lovecraft Country e Penny Dreadful: Unidas no Terror e na Ousadia

Em 2020, os fãs de Penny Dreadful, série que teve três temporadas entre 2014 e 2016, tinham esperança de que a perfeita mistura de terror e misticismo da obra original seria repetida em Penny Dreadful: City of Angels. Porém, a nova encarnação da série não ficou à altura da anterior, sofrendo com excessos de subtramas e de personagens. Ao invés dela, foi Lovecraft Country que não apenas repetiu com sucesso a fórmula da série de 2014, mas também a ampliou de forma ainda mais intensa e emocionante.

As duas séries lidam com o sobrenatural de forma reflexiva, ousada e sensorialmente rica, sempre explorando os limites da violência, da sexualidade e da arte. Se Penny Dreadful faz uso dos monstros clássicos da literatura, Lovecraft Country se apropria dos monstros criados por H. P. Lovecraft, escritor que tinha pontos de vista inquestionavelmente racistas. Se os terrores de Penny Dreadful servem como metáforas para depressão, alienação e solidão, os de Lovecraft Country fazem referências ao racismo e à segregação racial. Se Penny Dreadful utiliza citações de poetas clássicos britânicos, Lovecraft Country utiliza citações, músicas e discursos de ativistas e artistas negros dos EUA.

No primeiro episódio de Penny Dreadful, que é ambientada na Londres vitoriana, a médium Vanessa Ives (Eva Green) e o ex-aventureiro Sir Malcolm Murray (Timothy Dalton) contratam o pistoleiro americano Ethan Chandler (Josh Hartnett) para ajudá-los a resgatar a filha de Murray das garras de estranhas criaturas. No restante da série, o núcleo formado pelos três personagens precisa lidar com o sedutor Dorian Gray (Reeve Carney) e com o estranho Dr. Victor Frankenstein (Harry Treadaway) e sua atormentada Criatura (Rory Kinnear), além de bruxas, lobisomens, vampiros e possessões demoníacas.

Penny Dreadful: City of Angels tenta fazer o mesmo na Los Angeles dos anos 1930, colocando grupos de judeus, latinos e nazistas como peões no conflito entre Santa Muerte (Lorenza Izzo) e sua diabólica irmã Magda (Natalie Dormer). A série mostra o racismo e a xenofobia que os mexicanos e seus descendentes precisam enfrentar na “cidade dos anjos”, especialmente vindo de autoridades que possuem vínculos com agentes nazistas. Porém, os longos episódios cobrem tantas subtramas e oferecem tão poucas resoluções que quaisquer momentos memoráveis se tornam insatisfatórios dado o investimento de tempo feito pelo espectador.

Esses erros são magistralmente evitados por Lovecraft Country. A criadora Misha Green se apropria não apenas do romance no qual a série é baseada, mas também de outros aspectos do trabalho de Lovecraft e de eventos históricos dos EUA. O resultado é uma primeira temporada que coloca um grupo de pessoas negras no centro de incríveis aventuras, cheias de magia e emoção. As situações de fantasia e ficção científica mostradas são comuns em muitos outros exemplares de cultura pop, mas essa é a primeira vez que um grupo de personagens negros é colocado no centro da ação, com seus dramas sendo tratados com toda a atenção e complexidade devidas.

No primeiro episódio, Atticus Freeman (Jonathan Majors) volta para Chicago com o intuito de localizar seu pai, Montrose (Michael Kenneth Williams), dado como desaparecido semanas antes. Ele encontra algumas pistas sobre onde o pai pode estar e parte então em uma viagem acompanhado de seu tio George (Courtney B. Vance) e de sua amiga de infância Letitia (Jurnee Smollett). Esse é apenas o início de uma aventura que levará ele e outros personagens, como Ruby (Wunmi Mosaku), Hippolyta (Aunjanue Ellis) e Ji-Ah (Jamie Chung), por uma enlouquecedora sequência de acontecimentos.

Mesmo os personagens secundários possuem seus momentos para brilhar. Os episódios de Lovecraft Country são muito mais focados do que os das duas encarnações de Penny Dreadful, além de serem quase sempre dedicados a um determinado tipo de ficção. Enquanto o primeiro episódio é uma grande e aterrorizante road trip, há também o episódio da casa mal-assombrada, o da aventura no estilo Indiana Jones e o da pura ficção científica, inspirado principalmente no estilo sessentista de Barbarella e Flash Gordon, com a adição de toques de afrofuturismo.

Além desses, há também o episódio temático sobre transformações, sejam elas de temperamento, de identidade de gênero ou de cor da pele. Algo semelhante ocorre em um episódio inteiramente ambientado na Coreia do Sul, focado em uma personagem que havia sido apenas mencionada anteriormente e que envolve elementos do folclore asiático. Já no episódio que lida com o brutal assassinato do jovem Emmet Till, vários personagens são afetados pelo acontecimento, especialmente a pequena Diana (Jada Harris), que passa a ser perseguida por dois espectros caracterizados como estereótipos da representação negra na cultura americana.

É essa mistura de temas e gêneros de ficção que tornam Lovecraft Country uma versão mais abrangente e imprevisível de Penny Dreadful. Nessa nova série, antes de qualquer evento fantástico ou sobrenatural oferecer qualquer ameaça, os personagens precisam lidar com os terrores do racismo. Heróis brancos vivendo uma aventura jamais tiveram que se preocupar com policiais interessados em prendê-los ou matá-los apenas pela cor de sua pele, nem com a possibilidade de serem linchados se pisarem na vizinhança ou no restaurante errados. Aqui, os maiores momentos de terror e desconforto são aqueles que mostram situações que aconteciam ou ainda acontecem no mundo real.

É por isso que Lovecraft Country tem um lado emocionalmente catártico. Ao mostrar essas pessoas negras lidando com traumas transgeracionais (como os provocados pelo assassinato de Emmet Till, pelo Massacre de Tulsa e pela segregação racial), a série ajuda os espectadores negros não apenas a aceitarem e enfrentarem as próprias dor, raiva e ressentimento, mas também a se verem como agentes de mudança. As conquistas sociais realizadas nas últimas décadas não ocorreram “naturalmente”, mas sim graças às pessoas que se impuseram e deixaram de aceitar as condições que lhes foram impostas. É isso o que os heróis de Lovecraft Country fazem não apenas em nome de si próprios, mas também em nome de seus antepassados e de seus descendentes.