Heróis

Em determinada cena do filme Os Vingadores – The Avengers, o vilão Loki ordena a um grupo de humanos que se ajoelhem diante dele. Intimidados, eles o fazem. O vilão completa: “Isso não é mais simples? Não é esse o seu estado natural? Essa é a verdade não dita da humanidade, que vocês desejam a subjugação. O brilhante chamariz da liberdade diminui o seu prazer de viver, em uma insana corrida por poder, por identidade. Vocês foram feitos para serem comandados. No final, vocês sempre se ajoelham.” Um senhor bravamente se ergue e desafia o vilão: “Não para homens como você.” Ora, é esse o desafio? Essa afirmação pode até desafiar o vilão em si, mas de forma alguma desafia sua tese sobre a natureza humana. Fomos feitos para sermos comandados? Assim como o conhecimento, a liberdade seria um fardo?

Não acho que fomos feitos para sermos comandados, mas isso certamente é mais fácil. Temos a tendência de buscar líderes, sejam eles políticos, religiosos, intelectuais, etc. Dessa forma, não precisamos decidir quais caminhos iremos percorrer, basta seguir o líder. E assim, nos organizamos em grupos e seguimos a corrente. Mais uma vez, vejo aqui a tendência que temos de evitar ao máximo a tomada de decisões. Uma verdadeira luta contra a responsabilidade. Vejo essas características em cada regra ou protocolo que temos que seguir em nossas vidas, seja no aspecto profissional, social, ou qualquer outro. Uma vez que existe um comportamento ideal esperado de cada situação, você não precisa realmente decidir o que fazer. Em outras palavras, usamos regras e protocolos como substitutos para a inteligência e a criatividade. É claro que, de um jeito ou de outro, foram esses mecanismos que nos trouxeram até aqui, e eles foram e são importantes para garantir a ordem e o funcionamento da nossa sociedade. Mas acredito que devemos cada vez mais tentar superá-los, pois o fato de um determinado “método” ter sido muito útil até o momento não implica que ele proverá a melhor forma de seguirmos em frente.

Ainda na luta contra a responsabilidade, não procuramos apenas líderes, mas também salvadores. Heróis, que devem se sacrificar para resolver problemas que não temos a disposição de nos organizar para resolvermos juntos. E heróis precisam de vilões. É por isso que as pessoas em geral, com a ajuda dos meios de comunicação, procuram ambos dentre os homens públicos. Quem está certo e quem está errado; quem é do bem e quem é do mal. Não basta discordar da posição do opositor, é preciso demonizá-lo. É preciso mostrar como ele levará tudo a perder e praticamente provocará a queda da civilização. E, se possível, é preciso elevar os homens do bem, que são a última linha de defesa contra a desesperadora ameaça. Isso tudo para não ter que tentar entender o ponto de vista do outro, e não ter que contrabalança-lo com argumentos sólidos ou tentar chegar juntos em um ponto em comum. Perceba que há aí uma desumanização dessas pessoas. Um ser humano como qualquer outro, com suas qualidades e seus defeitos, é reduzido à um personagem público e monotemático. Não se pressupõe que essa pessoa tenha as mesmas dificuldades e inseguranças que qualquer outra tem ao realizar o seu trabalho, e que ela pode cometer erros e realizar acertos. Enquanto deveríamos estar tentando avaliar a competência de tal pessoa, perdemos tempo tentando decidir se ela é do bem ou do mal.

E ainda sobre salvadores, termino esse post citando o que deve ser a minha fábula favorita:

Certa vez vivia um povo no leito de um grande rio cristalino. A correnteza deslizava silenciosamente sobre todos eles, jovens e velhos, ricos e pobres, bons e maus. E a correnteza seguia seu caminho, alheia a tudo que não fosse sua própria essência de cristal.

Todas aquelas criaturas se agarravam como podiam aos ramos e às pedras do leito do rio, porque sua vida consistia em se agarrar e porque todas elas, desde o berço, tinham aprendido a resistir à correnteza. Mas por fim uma das criaturas disse: ‘Estou farta de me agarrar. Mesmo que meus olhos não vejam o que há pela frente, confio que a correnteza saiba para onde vai. Vou me soltar e deixar que ela me leve pra onde quiser. Se eu continuar aqui, imobilizada, morrerei de tédio!’

As outras criaturas riram e exclamaram: ‘Tola! Se você se soltar, essa correnteza que você venera a lançará, aos trambolhões e feita em pedaços, contra as pedras. Ela a matará mais depressa que o tédio.’ Mas ela não lhes deu ouvido. Inspirou profundamente e se soltou. A correnteza lançou-a com violência contra as pedras, mas a criatura, embora machucada, estava decidida a não se agarrar novamente. E então a correnteza a trouxe à tona e ela não mais sofreu nem se lastimou.

As criaturas que viviam rio abaixo e não a conheciam exclamaram: ‘Vejam, um milagre! Uma criatura igual a nós, e no entanto voa nas águas! Olhem, é o Messias que veio nos salvar!’ E a que que tinha sido arrastada pela correnteza respondeu: ‘Não sou mais Messias do que vocês. O rio gosta de nos fazer voar, com a condição de que ousemos nos soltar. Nossa verdadeira missão na vida é esta viagem, esta aventura’.

As outras continuaram gritando, cada vez mais alto: ‘O Salvador! O Salvador’, mas ainda agarradas às pedras. E quando levantaram os olhos, ela tinha desaparecido. Ficaram sozinhas, criando lendas sobre um Salvador.

Richard Bach, “Ilusões – As Aventuras de um Messias Indeciso” (1977)