Crítica: Star Wars – Os Últimos Jedi

Star Wars: Episode VIII – The Last Jedi, EUA, 2017


O Episódio VIII sopra novos ares na franquia da forma mais espetacular possível

★★★★☆


As 2 horas e 30 minutos de duração de Star Wars: Os Últimos Jedi entregam uma montanha-russa de ação e emoção que a maioria das séries da atualidade não entregam nem com 10 ou mais episódios. Com algumas das batalhas espaciais e duelos de sabre de luz mais impressionantes da franquia, esse capítulo é um veículo completo de entretenimento. Mas é no desenvolvimento da história e nas novidades introduzidas pelo roteirista e diretor Rian Johnson que esse Episódio VIII realmente se destaca, surpreendendo os fãs não apenas com referências aos episódios anteriores, mas também com ótimas e numerosas reviravoltas.

Depois de uma evacuação não tem bem sucedida de sua base atual e agora com combustível limitado, os sobreviventes da Resistência passam a ser perseguidos pela Primeira Ordem, enquanto Poe Dameron (Oscar Isaac), Finn (John Boyega), o androide BB-8 e a novata na “turma” Rose (Kelly Marie Tran) tentam encontrar uma forma alternativa de escapar de seus perseguidores. Essa simples estrutura de corrida contra o tempo é bem sucedida graças ao ótimo trabalho de montagem, que intercala as várias subtramas de forma quase natural.

Entretanto, essas subtramas se movem de forma tão rápida e cheias de acontecimentos que não sobra muito tempo para ir mais fundo na maioria dos personagens, chegando a ponto de não dar muita atenção para figuras clássicas como C-3PO (Anthony Daniels) e Chewbacca (Joonas Suotamo). Isso é compensado tanto pela ação quanto pelo desenvolvimento dos relacionamentos entre Rey (Daisy Ridley) e Luke Skywalker (Mark Hammil) e entre ela e Kylo Ren (Adam Driver), ambos cheios de revelações e reviravoltas.

De volta à frente narrativa da Resistência, Dameron tem que lidar com a General Leia (Carrie Fisher) e a Vice Almirante Amilyn Holdo (Laura Dern) depois de enviar clandestinamente Finn, BB-8 e Rose para cruzar a galáxia em busca de uma pessoa vital para o plano de fuga montado por eles. Enquanto Dameron evolui ao longo de um interessante arco narrativo, a viagem dos outros três é conduzida a toque de caixa, o que não permite nenhum momento realmente tranquilo ou reflexivo. A mais prejudicada por isso é Rose, uma nova personagem que termina o filme sem uma apresentação mais detalhada.

A grande novidade desse episódio é um surpreendente amadurecimento da narrativa. O episódio anterior, Star Wars: O Despertar da Força, fazia tantas homenagens e referências à trilogia original que tudo parecia caminhar na direção da simples repetição, mostrando essencialmente os mesmos acontecimentos com contexto e personagens ligeiramente diferentes (Rey seria equivalente à Luke, Finn à Leia ou Han Solo, Kylo Ren à Darth Vader, BB-8 à R2D2, etc.) Porém, Star Wars: Os Últimos Jedi trilha caminhos completamente inexplorados na franquia, parecendo apontar para um grande final do qual não haverá volta (ver os Comentários com SPOILERS abaixo).

Esse episódio também sobe o nível no quesito humor. Um dos destaques fica para as hilárias interações entre os membros da Primeira Ordem, especialmente Kylo Ren e o General Hux (Domhnall Gleeson). Já Luke volta com o humor 100% apurado, nos fazendo lembrar das divertidas interações entre ele e o Mestre Yoda em Uma Nova Esperança. Nos dois casos, o humor é tanto e em momentos tão críticos que chega a parodiar a própria franquia, o que é muito bem vindo. Uma das piores coisas que poderia acontecer com Star Wars é a saga se levar a sério demais.

E além de tudo isso, o filme ainda nos presenteia com alguns dos momentos mais memoráveis de toda a franquia. São cenas que facilmente se tornarão icônicas por mérito próprio. Rian Johnson e J. J. Abrams acertam em quase todos os aspectos nesse Star Wars que, mais do que homenagear clássicos do passado, tem tudo pra se tornar um novo clássico.

Comentários com SPOILERS

O já mencionado amadurecimento da trama é evidenciado em muitos dos aspectos de Os Últimos Jedi.

Um dos maiores deles é o arco de Poe Dameron, que escapa de clichês para fazer uma releitura do tipo de personagem que ele representa. Tipicamente, sua personalidade impulsiva e cabeça “esquentada” acabariam causando muita confusão mas tudo daria certo no final. Porém, não é o acontece nesse episódio. Se ele não tivesse colocado Finn e o decodificador DJ (Benicio Del Toro) na nave inimiga, o plano da Vice Almirante Holdo teria funcionado e muitas mortes poderiam ser evitadas. Em outras palavras, seu plano não apenas dá errado, mas acaba também estragando os planos de suas superioras. Isso coloca a trama mais próxima do mundo real, no qual atos impulsivos tem resultados mais frequentemente negativos do que positivos.

Já o local onde Finn e Rose encontram o DJ de Benicio Del Toro é outro aceno para o mundo real: uma elite distante dos problemas da maioria da população da galáxia se diverte e faz apostas com os lucros da venda de armas para o conflito em curso. O próprio DJ tira parte da inocência e romantismo da Resistência ao mostrar que o movimento compra armas dos mesmos “mercadores da morte” que as fornecem para a Primeira Ordem. Assim como no mundo real, as gloriosas lutas por liberdade ou ideologias nas quais muitos nascem e morrem não passam de uma oportunidade de negócios para terceiros. Esse é mais um argumento em favor de um dos principais temas desse episódio: o fim dos Jedi.

Tanto Luke quanto Yoda (que aparece como fantasma) entendem que para existir o lado da Luz é preciso haver o lado Sombrio. Enquanto existirem os Jedi usando a Força em nome do bem, também existirão os Sith usando-a para o mal. Uma vez que um não pode existir sem o outro, a solução para a destruição dos Sith e finalização do conflito envolve a extinção da Ordem Jedi.

Isso coloca a franquia em território completamente inexplorado, tirando o foco da luta do bem contra o mal e colocando-o onde talvez ele deveria estar o tempo todo: na busca por equilíbrio. E é nesse sentido que Kylo Ren e Rey podem ter sucesso onde Darth Vader/Anakin Skywalker falhou, já que ele era considerado a pessoa que restauraria o equilíbrio na Força. Para isso, em Star Wars: Os Últimos Jedi Kylo Ren se torna um vilão como nenhum outro já visto na franquia.

Percebemos que Kylo está evoluindo para algo diferente no momento em que ele destrói o “teatral” capacete que usava para emular Darth Vader. Isso faz um grande favor ao personagem, que antes parecia uma cópia quase forçada do maior vilão da saga. Depois da morte de Snoke, fica claro que estamos diante de algo completamente novo na franquia: um cavaleiro do lado Sombrio que não está sob a influência de um Lorde Sith. Além disso, parte de seus objetivos estão alinhados com o objetivo dos defensores da Luz. A diferença é que enquanto Luke e Rey estão tentando mudar o status quo por meio da construção de algo novo, Kylo parece obcecado com a eliminação total de tudo o que veio antes dele, deixando um rastro de morte e destruição.

A relação entre Luke e Rey também sai do esperado. Seria fácil os cineastas terem construído o relacionamento à imagem e semelhança do relacionamento entre Luke e Yoda, mas não é isso o que acontece. Pra começar, Luke deixa claro que não está interessado em treinar um novo Jedi mesmo depois de concordar em lhe passar o conhecimento da Ordem. Pra sua surpresa, Rey não precisa sequer disso. O próprio Yoda diz, depois de destruir a sagrada biblioteca Jedi, que ela já sabe tudo o que os livros sagrados ensinam.

Outra mostra disso é que, depois de ser influenciada por Snoke e Kylo e de desafiar Luke, ela navega facilmente pelo lado Sombrio sem se deixar seduzir por ele. Isso a coloca numa curiosa rota de colisão com Kylo Ren: os dois acreditam que podem trazer o outro para seu lado. Os dois acreditam que, no final, o outro está destinado a trocar de lado. A relação entre eles se torna tão intensa quanto íntima, e eu não ficaria surpreso se o equilíbrio da Força fosse restaurado com a morte dos dois no Episódio IX (o que também explicaria o novo interesse amoroso de Finn).

Há também a revelação (até que se prove o contrário) de que os pais de Rey não eram pessoas importantes ou personagens conhecidos no universo Star Wars. Isso rompe com outro clichê comum em filmes de fantasia/ficção científica: o do herói que é especial por ser filho de pessoas importantes ou por ser “o escolhido” (como Anakin Skywalker) ou algo que o valha. Abordagens semelhantes podem ser vistas em filmes como Blade Runner 2049 e Uma Aventura Lego, que tentam mostrar que heróis não são “nascidos”, mas formados ao longo das escolhas que cada pessoa toma em sua vida.

Muitas dessas mudanças causam a impressão de que os envolvidos na produção resolveram fazer correções de curso nessa nova trilogia. A principal delas é a morte de Snoke, vilão que não passa de uma figura misteriosa no Episódio VII e um amontoado de clichês nesse Episódio VIII. O aparecimento de Rose é outra dessas mudanças, dando a entender que novos planos foram traçados para Finn e Rey. Curiosamente, isso reflete vários pontos da trilogia original, como as revelações de que Darth Vader é o pai de Luke e Leia nos Episódios V e VI (mesmo depois de eles se beijarem no Episódio V). Isso não tira o brilho dessa nova trilogia, mas também não transmite muita segurança.

Esse episódio também traz alguns dos momentos mais memoráveis da franquia. Apenas para citar alguns:

  • A sequência de ação na abertura, especialmente quando Dameron começa a destruir os canhões do destróier, que muito lembra a destruição da primeira Estrela da Morte.
  • Leia usando a Força para voltar a sua nave.
  • A aparição de Yoda, que ainda se diverte e trata Luke como “jovem Skywalker”, e a destruição da antiga árvore que guardava os segredos da Ordem Jedi.
  • A morte de Snoke e a fantástica batalha que a segue, na qual Rey se alia a Kylo Ren para derrotar a guarda pessoal do falecido Sith.
  • O silêncio e a destruição depois que a Vice Almirante Holdo usa um salto na velocidade da luz para atacar a nave de Snoke.
  • A “volta de Luke” no melhor estilo O Retorno de Jedi, com destaque para a inédita artimanha que ele usa contra Kylo Ren e que acaba lhe custando a vida (no estilo Obi-Wan Kenobi em Uma Nova Esperança, o que aponta na direção de um “Luke fantasma” no Episódio IX).