Crítica: John Wick – Um Novo Dia para Matar

John Wick: Chapter 2, EUA, 2017


Filme expande a ação e o universo de John Wick

★★★★☆


Em 2014, quem viu o primeiro trailer de De Volta ao Jogo assim que foi disponibilizado na Internet se perguntou: “ok, o que foi que Keanu Reeves aprontou agora?” A premissa do ex-assassino profissional que parte em busca de vingança contra o submundo do crime pela morte de seu cachorro parecia indicar um triste fim de carreira para Reeves, mas o astro surpreendeu a todos com um filme que se tornou um cult instantâneo e que deu uma boa recuperada em sua carreira. Além de construir um sólido arco dramático para fundamentar o que o animal de estimação significava para o protagonista, a obra entregou algumas das mais intensas e bem coreografadas cenas de ação dos últimos tempos, levando o espectador em uma viagem por um mundo tão violento e impiedoso quanto estiloso e luxuoso. Todas essas qualidades são elevadas ao cubo nessa continuação, que entrega tudo o que os fãs do primeiro filme poderiam esperar e mais um pouco.

Ainda fundamentado no arco dramático do primeiro filme (o que é melhor do que inventar um novo drama para justificar a sequência), John Wick – Um Novo Dia para Matar tem início com o protagonista tentando resolver a única pendência deixada pelo capítulo inicial: recuperar seu carro. Nesse momento, as cenas de ação são intercaladas com uma narração que serve para lembrar o espectador da natureza mitológica de Wick, sendo interrompida pelos gritos de dor e desespero dos seguranças dos mafiosos. Pra desespero do personagem que fazia a narração, os gritos são substituídos pelo som dos passos de Wick se aproximando de sua porta. Esse é John Wick, “um homem de foco, comprometimento e pura força de vontade.”

john-wick-21Ao invés de um novo problema, a trama dessa continuação gira em torno das consequências das ações do protagonista no primeiro filme. Agora que Wick violou sua aposentadoria, um antigo credor aparece para cobrar uma dívida, o que o faz mergulhar de vez em sua antiga vida. É aqui que o espectador tem a oportunidade de conhecer mais a fundo os códigos e costumes do elaborado universo de John Wick. Se no primeiro filme conhecemos o Hotel Continental, o “serviço de limpeza” e a máfia contra a qual Wick se vinga, aqui somos apresentados ao universo maior do qual essas organizações fazem parte. A mafia russa é apenas um dos braços da multinacional do crime chefiada pela Alta Cúpula, e é com ela que Wick se envolve para pagar sua dívida. Ignorar a cobrança da “promissória” não é uma opção, mas Wick certamente irá se vingar dessa cobrança.

O balé mortal de tiros e sangue também sobe de nível e proporções. As cenas de ação são mais longas e a contagem de corpos bem maior que no primeiro filme. Em determinado ponto, Wick não consegue andar nas ruas de Nova York sem ser atacado por assassinos letais em busca da recompensa multimilionária que foi colocada em sua cabeça, resultando em uma montagem de cenas de ação que por si só possui diversos momentos memoráveis, como o uso de um lápis contra um grupo de assassinos (o que Wick já havia feito, mas havia sido apenas mencionado no primeiro filme) e um tiroteio que ocorre no meio de uma multidão sem a multidão perceber (cortesia dos melhores silenciadores do mundo).

A coisa toda é bem exagerada, lindamente filmada e inegavelmente pulp. Wick é indestrutível e ao longo da ação sua fama lendária apenas aumenta. Assim como no primeiro, tudo isso é pontuado por diversos momentos de humor negro, o que é muito bem vindo para aliviar a tensão de cenas extremamente violentas (na sessão em que fui, várias pessoas se contorceram na poltrona do cinema durante as cenas com o lápis).

Em meio a tanta ação, é notável perceber que, em determinados momentos, são a fotografia e a direção de arte que capturam a atenção do espectador. Em nenhum momento a cinematografia perde o tom artístico e cool característico dos dois filmes, produzindo imagens que em alguns momentos ressaltam o luxo e a opulência das festas da Alta Cúpula, enquanto em outros evocam a rica herança cultural da cidade de Roma, deixando o filme com um tom às vezes Iluminista, às vezes medieval. O contraste entre as ruínas da velha cidade e a modernidade das armas e carros acabam fazendo parte da poesia extraída de uma guerra travada por assassinos em ternos de alto padrão.

Todos esses detalhes mostram que o diretor Chad Stahelski é um talento a ser acompanhado. Com uma longa carreira como dublê e coordenador de dublês, os filmes de Wick são os dois primeiros que ele dirigiu, o que foi mais que suficiente para justificar sua escolha como diretor do reboot da franquia Highlander. Outro destaque fica para a dedicação de Keanu Reeves para o papel, que o levou a treinar não apenas tiro tático, mas também artes marciais e direção ofensiva, dispensando dublês em várias cenas. Se De Volta ao Jogo é uma pequena joia do cinema de ação, com John Wick – Um Novo Dia para Matar, Stahelski e Reeves nos entregam um jovem clássico do gênero, comparável a pesos pesados como Operação Invasão 2 e Mad Max – Estrada da Fúria.

Nessa continuação, Wick também apanha bem mais e vai muito além do que um ser humano normal poderia suportar, mas o cliffhanger no final deixa claro que em uma eventual continuação os desafios enfrentados pelo personagem serão ainda maiores. Com um universo bem elaborado e agora com diversas classes de personagens (o grupo dos mendigos assassinos é uma das adições mais divertidas à mitologia), meu prognóstico é que a franquia John Wick ainda tem muita diversão a oferecer.