Crítica: Era Uma Vez em Hollywood

Once Upon a Time in… Hollywood, EUA, 2019


Filme leva o espectador para um passeio pela Hollywood de 1969 sob o ponto de vista de Quentin Tarantino

★★★★☆


Era Uma Vez em Hollywood é o que acontece quando se dá a um fã de cinema os recursos necessários para homenagear a indústria que lhe inspirou e sobre a qual ele construiu uma carreira de sucesso. O diretor Quentin Tarantino reconstrói a Hollywood de 1969 e passeia calmamente por ela durante duas horas, até finalmente reimaginar a primeira noite do Caso Tate-LaBianca conforme sua própria vontade.

Ao longo das 2 horas e 40 minutos da projeção, o diretor faz referências a sua própria filmografia e aos tipos de filmes e séries de TV que o influenciaram, especialmente aos faroestes espaguete e a séries como The F.B.I. e Lancer. E ele aproveita a oportunidade para reconstruir (ou apenas exibir) algumas das cenas dessas e de outras obras que fazem parte da história do cinema e da televisão dos EUA.

O filme lembra a homenagem feita pelos Irmãos Coen com seu Ave, César!, que dá um divertido e envolvente mergulho na Hollywood do início dos anos 1950, com seus épicos bíblicos e seus elaborados números de dança. Mas enquanto na obra dos Coen os “antagonistas” são membros da indústria que simpatizam com o comunismo, em Era Uma Vez em Hollywood são os hippies que levam (dessa vez, injustamente) a má fama.

Os assassinatos cometidos pelos membros da Familia Manson não ajudaram em nada a já negativa imagem do movimento hippie diante da sociedade americana. Os participantes da seita liderada por Charles Manson tinham um estilo de vida que em muito lembrava os comportamentos defendidos pelo movimento, mas que também estava muito longe dos ideais de “paz e amor” que eram a base dele. Para muitos, os crimes cometidos por integrantes desse grupo representaram “o fim do sonho hippie e do ideal da contracultura.”

É por isso que Tarantino usa os protagonistas Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e Cliff Booth (Brad Pitt) para manifestar seu desprezo pelos hippies descalços e cabeludos que zanzavam pelas ruas e pelas estradas californianas dos anos 1960. Já a Sharon Tate interpretada por Margot Robbie funciona como um símbolo de uma pureza sessentista que ainda causa nostalgia em muitas pessoas, inclusive no diretor. Ela representa uma parte da cultura rejeitada pela contracultura.

O fim dessa era é abordado sob o ponto de vista dos hippies em Vício Inerente, cuja narradora faz em um dos trailers uma introdução que serve parcialmente para Era Uma Vez em Hollywood:

São os momentos finais dos psicodélicos anos 1960 e a paranoia está no comando. Se não for Charles Manson, é a polícia de Los Angeles ou o FBI, ou o misterioso corpo de algo chamado “A Presa Dourada”. Tudo foi de “suave…” para “qual é, cara?”, sugerindo um alto nível de medo e desconforto com a direção nas quais as coisas estavam indo.

Medo e desconforto também são os sentimentos que dominam a vida de Rick Dalton quando o espectador o encontra. Era Uma Vez em Hollywood também aborda a cultura das celebridades, e Dalton não está muito bem posicionado nela. Anos depois de tentar a transição da TV para o cinema (o que causou o cancelamento da série que estrelava), ele ainda não emplacou nenhum grande sucesso e segue fazendo pequenas participações em outras séries de TV.

Se Dalton segue em busca de respeito e reconhecimento, Booth segue vivendo cada dia de uma vez e lidando calmamente com os problemas que vão aparecendo, fazendo o máximo para evitar novos encontros com a polícia. É a jornada desses dois personagens que permite que Tarantino explore sua fantasia hollywoodiana enquanto vai estabelecendo os elementos centrais para o tenso, imprevisível e comicamente violento final.

O ponto baixo da narrativa ocorre quando o diretor tenta estabelecer detalhadamente os locais e os horários nos quais Dalton, Booth e Tate estavam ao longo da noite dos assassinatos. O uso de letreiros em tela e de narração em off faz com que o espectador seja bombardeado com um volume de informações tão difícil de processar quanto irrelevante para as cenas seguintes. Esses dados são mais úteis para o diretor estabelecer a verossimilhança de sua versão da história do que para o espectador se situar na ação.

Por outro lado, o ponto alto é a visita que Booth faz ao Rancho Spahn, que chega a ser mais tensa do que a cena final. Essa é a sequência que tira o espectador do mundo das estrelas e o faz lembrar de que esse é um filme de Tarantino. O que começa como uma inocente e inusitada conversa vai paciente- e gradualmente se tornando um pequeno pesadelo no qual qualquer coisa pode acontecer. Assim como no épico faroeste espaguete Era Uma Vez no Oeste, a recompensa por esses momentos está não apenas no desfecho, mas também na própria espera (o que torna filmes como esses intragáveis para espectadores mais impacientes).

Com Era Uma Vez em Hollywood, Tarantino tenta “guardar num potinho” a era do entretenimento durante a qual ele viveu sua infância, enquanto se vinga daqueles que causaram seu encerramento. Esse talvez seja o filme mais intimista do diretor, já que ele compõe um apaixonado retrato de um lugar e de um tempo que tiveram grande influência sobre a sua arte e sobre a sua vida. É como se estivéssemos olhando para a Hollywood do final dos anos 1960 com seus olhos e sentindo suas melancólicas nostalgia e frustração.