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Crítica: Bronx

Bronx, França, 2020


Dizer que o crime não compensa não é o suficiente para esse exagerado drama policial

★★★☆☆


Há algo terrivelmente niilista na trama de Bronx. O que poderia ser apenas um típico drama de crime francês na agora longa tradição de dramas de crime franceses se torna algo que diverge do padrão. A história do policial que decide fazer justiça com as próprias mãos toma alguns rumos inesperados aqui, resultando em um desfecho extremamente exagerado e essencialmente desprovido de uma mensagem moral. Se o diretor Olivier Marchal queria dizer que o crime não compensa, ele o faz da forma mais radical possível.

Com tons de The Shield, Os Infiltrados e Sicário: Dia do Soldado (crítica aqui), o filme é focado em uma complexa trama envolvendo duas famílias criminosas e uma “boa” variedade de policiais corruptos. Se inicialmente parece que a equipe liderada por Richard Vronski (Lannick Gautry) irá salvar o dia e pegar os bandidos que se escondem nos dois lados da lei, sua frágil superioridade moral se perde depois que o grupo inadvertidamente comete um crime indefensável e segue tentando se livrar das consequências de suas ações.

Ao contrário de outros filmes como esse, Bronx não possui seu próprio código moral e senso de justiça. Aqui, os personagens morrem não porque eles de alguma forma “merecem”, mas sim porque esse é o mundo no qual eles estão envolvidos. Poderia-se dizer que a moral aqui é que “quem vive pela espada, morre pela espada”, mas mesmo pessoas inocentes que estão na periferia desse mundo acabam sendo vítimas da violência inerente a nele.

O realismo aqui está no fato de que todos os planos de todos os personagens dão errado. Ao fim, muito sangue foi derramado e ninguém realmente fica por cima. Os assassinatos, as mentiras e as tentativas de manipulação até atingem os objetivos pretendidos no curto prazo, mas no médio prazo todos os tiros “saem pela culatra”. E, no longo prazo, poucos deles sobrevivem para contar a história.

Também há algum realismo nas personalidades dos personagens. São homens que acreditam que podem resolver tudo na bala e que vão sair ilesos das situações violentas das quais participam. A instabilidade emocional, o alcoolismo e as falhas morais deles os tornam passíveis de chantagens e de cometerem erros dos quais não têm como escapar. Eles caem nas armadilhas uns dos outros e geralmente falham em enxergar o grande esquema das coisas.

Apesar de bem executada, a ação aqui é pouca e secundária. Não é a trama que está à serviço da ação, mas sim o contrário. E é uma trama boa o suficiente para manter o espectador vidrado nos acontecimentos e ansioso pelos próximos desenvolvimentos. Por mais que o filme não provenha a satisfação comum nas versões americanas desse tipo de história, há aqui atrativos mais imprevisíveis e interessantes mesmo quando se limitam a aplicar certos clichês do gênero.

O final de Bronx é surpreendente menos pelos acontecimentos em si e mais pela ferocidade com a qual o filme abraça o niilismo e remove todo e qualquer significado da narrativa. Não é apenas que o crime não compensa, mas a lei também não, e nem a vida em si. E o fato de que o filme foi escrito e dirigido por um ex-policial que se tornou cineasta apenas adiciona mais uma camada de niilismo à coisa toda.