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Coronavírus: os Deuses, as Pragas e os Homens

A pandemia de COVID-19 mais uma vez testa a capacidade de resposta da humanidade diante de uma ameaça emergencial. O patógeno da vez, chamado SARS-CoV-2 e pertencente à família dos coronavírus, coloca à prova nossas organizações, nossas lideranças e nossas sociedades. Suas baixas taxas de mortalidade escondem o estresse destruidor que a síndrome COVID-19 pode colocar sobre nossos sistemas de saúde. E há lições sobre isso em nosso passado.

O artigo intitulado Plagues follow bad leadership in ancient Greek tales (As pragas seguem as lideranças ruins nos antigos contos gregos, em tradução livre) fala sobre a importância das histórias sobre pragas para exercitar a imaginação dos espectadores. Com isso, eles poderiam aprender sobre a importância de lideranças inteligentes e capacitadas:

Os épicos lembram suas audiências de que os líderes precisam ser capazes de planejar para o futuro com base no que aconteceu no passado. Eles precisam entender causa e efeito. O que causou a praga? Ela poderia ser prevenida? (…)

Histórias sobre pragas proveem cenários nos quais o destino leva a organização humana ao limite. Líderes humanos são quase sempre cruciais para a sequência causal, como Zeus observa na “Odisseia” de Homero, dizendo: “Os humanos estão sempre culpando os deuses por seu sofrimento / mas eles sofrem dores além das destinadas devido a suas próprias imprudências.”

O apelo de histórias como essa explica o recente sucesso que romances como A Peste e Ensaio Sobre a Cegueira estão fazendo em alguns países europeus. Um especialista consultado pela BBC diz: “diante da doença precisamos nos repensar — quem somos, o que estamos enfrentando. Por falarem da condição humana, esses livros ganham interesse”.

O mesmo vale para o filme Contágio, sucesso de 2011 que mostra os esforços de políticos e profissionais da saúde para conter uma pandemia de uma misteriosa doença. O diretor Steven Soderbergh faz uso de uma narrativa quase documental para representar de forma realista os desafios enfrentados e a natureza do trabalho executado pelas pessoas que estão na linha de frente do combate ao patógeno e seus efeitos.

A trama possui várias semelhanças com a pandemia de COVID-19, como a origem na China e a alta taxa de transmissão, além dos esforços coordenados entre agências como a OMS, o CDC e ECDC. A principal diferença é que o patógeno do filme é altamente agressivo, matando em até 48h e com uma taxa de mortalidade de 25% a 30% (a do SARS-CoV-2 provavelmente ficará abaixo dos 4%, apesar de ser significativamente maior para idosos, chegando a 15%).

Coincidentemente, a Netflix lançou em 22 de janeiro de 2020 uma série de documentários sobre o trabalho e os profissionais que lidam com esse tipo de ameaça. Com seis episódios, Pandemia (ou Pandemic: How to Prevent an Outbreak) mostra o conhecimento que foi adquirido com as pandemias do passado e serve como um guia para o que está sendo feito em relação ao novo coronavírus.

No geral, Contágio e Pandemia mostram respostas competentes e profissionais para crises globais. Não é o que pode ser dito sobre a história contada na minissérie Chernobyl (comentário aqui), que mostra como a União Soviética tratou de forma absurdamente irresponsável um dos maiores acidentes nucleares da História. Ao invés de se priorizar o bem da população, os burocratas no comando priorizaram inicialmente o abafamento do acidente e a supressão de informações.

O artigo Dictatorships Are Making the Coronavirus Outbreak Worse (As ditaduras estão piorando o surto de coronavírus, em tradução livre) faz um levantamento de como as respostas de países como China, Irã e Coreia do Norte à pandemia do novo coronavírus estão no mesmo patamar da resposta soviética a Chernobyl. Em vários casos, jornalistas e/ou críticos do governo foram presos para se conter o fluxo de informação sobre a pandemia. O artigo alerta:

À primeira vista, ditaduras altamente centralizadas podem parecer melhor equipadas para se mobilizar rapidamente durante uma epidemia, já que elas simplesmente não respeitam os direitos ou os desejos dos cidadãos em seus planos. Pode-se achar que a enorme quantidade de novas construções e apropriações do Partido Comunista chinês na corrida para disponibilizar mais hospitais, mais leitos e mais laboratórios como algo positivo.

Porém, devido ao clima de medo que elas criam para sobreviver, as tiranias acabam prejudicando a inovação e a cooperação, além de tratar até mesmo críticas construtivas como crimes contra o Estado.

E é exatamente isso o que vem acontecendo. Ainda de acordo com o artigo acima, enquanto as impressionantes medidas emergenciais tomadas pelo governo chinês eram elogiadas ao redor do mundo, uma outra história ficava nas sombras:

De acordo com um artigo agora censurado, um hospital de Wuhan enviou uma amostra do coronavírus para as autoridades em 24 de dezembro. A amostra foi sequenciada três dias depois, mas em 1° de janeiro um oficial ordenou sua destruição e iniciou um acobertamento. Uma semana depois, um grupo de médicos visitou Wuhan, mas não teve acesso a essas evidências anteriores, evitando que eles diagnosticassem corretamente a volátil situação.

Ao longo dos últimos dois meses, médicos, jornalistas e cidadãos chineses que informavam a verdade têm sido perseguidos e silenciados, ou simplesmente desaparecido. Medidas apropriadas que poderiam ter sido tomadas não o foram, devido ao medo de se desagradar ao paranoico Partido Comunista.

Percebe-se que surtos virais como o do novo coronavírus também causam estragos ao potencializar as falhas nas sociedades e na psique humana. Esse último cenário é explorado no filme Ao Cair da Noite (análise aqui), que mostra uma família que se isola em uma casa na floresta depois do surto de uma misteriosa doença, apenas para ser lentamente consumida pela paranoia e pelo irracional instinto de sobrevivência de seus membros.

O lado irracional da humanidade também aparece quando o pânico acaba provocando a escassez de recursos. Mas esse é o tipo de escassez menos preocupante. No artigo The Shortages May Be Worse Than the Disease (A escassez pode ser pior do que a doença, em tradução livre), a autora Elise A. Mitchell faz um rápido levantamento da relação entre surtos de infecção (principalmente, a varíola e o sarampo) e a falta de acesso a serviços sociais, expondo o que pode ser considerado um ciclo vicioso:

Em um informativo relato sobre o surto de 1519, o frei dominicano Bartolomé de las Casas explicou que a falta de comida e abrigo adequados, o trabalho extenuante, e “pouco ou nenhum cuidado com sua saúde e conservação” por parte dos espanhóis fez com que o povo Taíno perecesse rapidamente. Rotas marítimas espanholas e indígenas espalharam a doença no Caribe e nas Américas do Norte e do Sul, onde milhares pereceram, além de sobrecarregar os curandeiros indígenas da região. Quando qualquer substrato da população ficava excluído do acesso a comida, remédios, abrigo e tratamento, a varíola tipicamente continuava a se espalhar e as consequências comórbidas eram catastróficas.

A historiadora conclui dizendo que, apesar do mundo atual ser muito diferente do de séculos atrás, os desafios que enfrentamos ainda são bem parecidos:

As sociedades avançam suas próprias destruições quando falham em prover assistência médica, moradia ou dispensa do trabalho devido ao status empregatício, socioeconômico ou imigratório das pessoas. O mundo no qual vivemos hoje é radicalmente diferente daquele do início da Idade Moderna, mas, em certos aspectos, é muito similar. As epidemias continuam a nos lembrar da nossa humanidade compartilhada, pois elas nos mostram que a sobrevivência individual está ligada ao bem-estar das outras pessoas.