8 Filmes sobre Jornalismo Baseados em Histórias Reais

Boa Noite e Boa Sorte (2005)

Co-escrito e dirigido por George Clooney, Boa Noite e Boa Sorte mostra o papel do lendário jornalista Edward R. Murrow (David Strathairn) e sua equipe na queda do senador Joseph McCarthy durante o período do macartismo nos anos 1950. Uma outra temática apresentada é a da “competição” entre o conteúdo jornalístico e o entretenimento na televisão, uma mídia que estava em seus primeiros anos na época. Em seu histórico discurso de 1958, Murrow alertava para o uso dessa mídia em favor da distração e alienação ao invés da informação e conscientização sobre assuntos de interesse nacional, além da subserviência dos executivos de sua emissora (CBS) ao desejo de anunciantes e patrocinadores.

Ninguém familiarizado com a História desse país pode negar que comitês [congressionais] são úteis. É necessário investigar antes de legislar. Mas a linha entre investigação e perseguição é muito fina, e o senador de Wisconsin [Joseph McCarthy] a ultrapassou repetidas vezes. Nós não devemos confundir dissidência com deslealdade. Nós devemos sempre lembrar que uma acusação não é uma prova, e que a condenação depende de evidências e do devido processo legal.

The Post: A Guerra Secreta (2017)

Dada a relevância política dessa história nos EUA da atualidade, Steven Spielberg interrompeu a produção do filme Jogador Nº 1 para dirigir The Post: A Guerra Secreta. Nele, vemos os bastidores da publicação pelo jornal Washington Post (em 1971) dos famosos Papéis do Pentágono: um estudo sobre as relações entre os EUA e o Vietnã de 1945 até 1967, o que inclui 12 anos da Guerra do Vietnã.

Dentre as revelações mais bombásticas feitas pelo documento, estão o fato de que as operações militares da citada guerra haviam se estendido para os países vizinhos do Laos e Camboja, constituindo assim guerras secretas das quais o contribuinte americano não tinha conhecimento. Além disso, o estudo também deixou claro que, ao longo dos anos, várias administrações do país não apenas mentiram para o público mas também decidiram continuar o esforço de guerra mesmo sabendo que não havia como alcançar uma vitória, gastando milhões de dólares e milhares de vidas apenas para não admitir a derrota.

O filme é focado nos atritos entre a dona do jornal Katharine Graham (Meryl Streep) e o editor chefe Ben Bradlee (Tom Hanks), que está disposto a ignorar o setor jurídico da empresa e correr o risco de ser preso ao publicar os documentos. Amiga pessoal do Secretário da Defesa Robert Macnamara (Bruce Greenwood), Graham não está em uma posição fácil:

Ele é um… Nixon é um filho da puta! Ele te odeia, ele odeia o Ben. Ele quer arruinar o seu jornal há anos e você não vai ter uma segunda chance, Kay. O Richard Nixon que eu conheço vai usar todo o poder da presidência e, se houver um jeito de destruir o seu jornal, por Deus, ele vai encontrá-lo.

Todos os Homens do Presidente (1976)

The Post: A Guerra Secreta termina com cenas do arrombamento da sede do Comitê Nacional Democrata, evento que daria início ao famoso Escândalo de Watergate. Essas são as mesmas cenas que abrem Todos os Homens do Presidente, que mostra como os repórteres do Washington Post Carl Bernstein (Dustin Hoffman) e Bob Woodward (Robert Redford), com ajuda da fonte conhecida então como Garganta Profunda, fizeram a conexão entre o arrombamento e os altos escalões do governo Nixon.

Os arrombadores, que estavam fotografando documentos e instalando dispositivos de escuta, haviam sido contratados por figuras do Partido Republicano, com o presidente Nixon ciente das ações. Diante da possibilidade de enfrentar um processo de impeachment, Nixon renunciou e recebeu do novo presidente, seu ex-vice Gerald Ford, um perdão total e incondicional de quaisquer crimes que ele tenha cometido enquanto ocupava o cargo.

Esqueça os mitos que a mídia criou sobre a Casa Branca. A verdade é que esses caras não são muito inteligentes, e as coisas saíram do controle. (…) Siga o dinheiro.

Frost/Nixon (2008)

Uma vez que recebeu o perdão presidencial, Nixon se retirou de um dos maiores escândalos da política americana sem ser julgado pelos crimes que provavelmente cometeu, como obstrução da justiça ao tentar abafar o caso. Porém, três anos após a renúncia, o ex-presidente concedeu uma série de entrevistas que serviram como “julgamento” para o público americano. O filme Frost/Nixon retrata os bastidores dessas entrevistas.

Nixon (Frank Langella) aceita dar as entrevistas graças ao pagamento que receberia por elas e pelo histórico do entrevistador David Frost (Michael Sheen), mais conhecido pelo trabalho na área de entretenimento do que no jornalismo. Porém, Frost contratou pessoas para estudar o caso Watergate e deixá-lo pronto para discutir em condição de igualdade com o ex-presidente. Ele conseguiu então extrair um pedido de desculpas em tom de desabafo que equivaleu a uma admissão de culpa.

Eu os decepcionei. Eu decepcionei meus amigos. Eu decepcionei o meu país. E, pior de tudo, eu decepcionei o nosso sistema de governo e os sonhos de todos os jovens que gostariam de entrar nele mas que agora pensam: “ah, é tudo corrupto demais e tal”. Sim… eu decepcionei o povo americano. E agora terei que carregar esse fardo comigo pelo resto da minha vida. Minha vida política está acabada.

O Mensageiro (2014)

O Mensageiro é baseado na vida de Gary Webb (Jeremy Renner), repórter que em 1997 publicou a série de artigos intitulada Dark Alliance no jornal San Jose Mercury News. As matérias tratavam do envolvimento da CIA na epidemia do uso de drogas que assolou os EUA nos anos 1980. Apesar de imprecisas e de alguma forma exageradas, as descobertas de Webb estavam muito mais próximas da verdade do que o governo e grandes membros da imprensa estavam dispostos a admitir.

A resposta “oficial” veio por meio de matérias no Washington Post, The New York Times e The Los Angeles Times, escritas por jornalistas que estavam, de alguma forma, colaborando com o governo e desacreditando as descobertas de Webb, ao invés de tentar investigar mais a fundo. O jornalista acabou perdendo o apoio do próprio Mercury News e pediu demissão em 1997. No ano seguinte ele lançaria o livro Dark Alliance: The CIA, the Contras, and the Crack Cocaine Explosion, baseado em suas descobertas.

Segundo Webb, a CIA estava facilitando o tráfico de drogas da América do Sul para os EUA para levantar fundos para financiar os Contras, um grupo paramilitar de direita que supostamente lutava contra o governo socialista da Nicarágua. Essa história é dramatizada de forma exagerada no filme Feito na América, no qual Tom Cruise interpreta o piloto Barry Seal, um americano que chegou a trabalhar simultaneamente para a CIA e para o Cartel de Medellín. Posteriormente, a CIA tentaria financiar os Contras por meio da venda de armas para o Irã, revelada no escândalo que ficou conhecido como Irã-Contras.

Ainda desacreditado e sem conseguir emprego em grandes jornais, Webb cometeu suicídio em 10 de dezembro de 2004 com dois tiros na cabeça, detalhe que alimenta teorias da conspiração que alegam que ele “foi suicidado.”

Minha primeira história foi sobre um cachorro que deveria ter morrido, mas não morria. Eu tinha 22 anos. Era uma historinha idiota, mas eu tinha orgulho dela. Eu a enquadrei e a pendurei na parede. E acreditava que tinha me juntado a uma associação secreta de repórteres naquele dia. Se tinha alguém que acreditava, era eu. Minha última história foi sobre um cavalo da polícia em Cupertino, Califórnia, que morreu de constipação. De verdade, não é brincadeira. Mas começar com um cachorro e terminar com bosta de cavalo, tem algum tipo de poesia aí, em algum lugar.

O Informante (1999)

Em 1996, quando o acadêmico Jeffrey Wingand (Russel Crowe) resolve relutantemente denunciar as práticas quase criminosas da indústria do tabaco nos EUA, a corporação para a qual ele trabalhava não facilita a decisão. Depois que ele concede uma explosiva entrevista para o influente programa 60 Minutes, o produtor Lowell Bergman (Al Pacino) tem que enfrentar os executivos da CBS, já que a exibição da entrevista pode ir contra os interesses financeiros da companhia. Note que o jornalista Edward R. Murrow já alertava sobre isso 40 anos antes (veja no 1º item dessa lista).

A principal revelação feita por Wingand dizia respeito a manipulação do tabaco presente nos cigarros, ao qual era adicionado elementos químicos, como a amônia, para aumentar tanto o efeito da droga como a possibilidade do cliente se viciar no produto.

Você lutou por mim? Você me manipulou até a situação na qual estou agora: olhando para o prédio da Brown & Williamson! Está todo escuro, exceto o décimo andar… É lá que fica o departamento jurídico, é lá que eles acabam com a minha vida!

Spotlight: Segredos Revelados (2015)

Vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2016, Spotlight: Segredos Revelados mostra a investigação feita pela equipe Spotlight do Boston Globe antes de exporem o esforço sistemático que a Arquidiocese de Boston fazia para encobrir casos de abuso sexual. Focado no efeito que as descobertas tem sobre os próprios jornalistas, o filme termina com a publicação da primeira de uma série de reportagens sobre os casos. As principais consequências foram a prisão de padres responsáveis por abusos e a renúncia de poderosos envolvidos no acobertamento. Além disso, as revelações encorajaram muitas pessoas a denunciarem abusos sofridos, pois agora havia a possibilidade dos responsáveis realmente responderem pelos seus crimes. Leia mais sobre o filme aqui.

Nós temos duas histórias aqui: uma história sobre um clero degenerado e uma história sobre um bando de advogados que transformou o abuso infantil em uma indústria. Qual delas você quer que nós escrevamos? Pois nós vamos escrever uma delas.

Citizenfour (2014)

O documentário Citizenfour mostra as primeiras reuniões dos jornalistas Glenn Greenwald e Laura Poitras (diretora do filme) com Edward Snowden, o analista de sistemas e ex-funcionário da CIA que revelou para o mundo a extensão do aparato de vigilância digital desenvolvido pela NSA. O filme captura a tensão em um quarto de hotel em Hong Kong enquanto Snowden faz revelações que mudariam completamente a sua vida.

Uma das principais revelações diz respeito a existência do programa PRISM, um software do governo que coleta, armazena e consolida dados de diversos serviços de internet como Gmail, Facebook, Twitter, YouTube, Yahoo, etc. O material entregue por Snowden informa que ao realizar uma busca pelo email de qualquer pessoa nesse sistema, o usuário terá acesso a todo conteúdo digital privado associado àquele endereço, como outros emails e mídias sociais.

A vida do analista de sistemas foi dramatizada por Oliver Stone na cinebiografia Snowden: Herói ou Traidor.

Todos nós temos parte nisso. Este é o nosso país e a relação de poder entre os cidadãos e o governo está se tornando uma relação de governantes e governados, ao invés de eleitos e eleitorado.