Um Pouco de Grandeza

Cada ser humano possui sua própria e única visão de mundo. A combinação das características genéticas com o contexto social no qual cada pessoa está inserida define o singular e irreproduzível caminho que ela irá percorrer ao longo da vida. E é com os dados (capturados por meio de nossos cinco sentidos) adquiridos ao longo desse caminho que cada um de nós compõe nosso próprio modelo de mundo. Ou seja, cada um de nós carrega consigo um modelo da realidade que reflete estritamente nossas próprias experiências, ideias e sentimentos. Sendo assim, cada vida que deixa de existir leva consigo toda uma realidade que existia apenas em seu mais isolado interior.

Esse ponto de vista dialoga com a famosa meditação religiosa de John Donne (que também inspirou o título de uma das grandes obras do autor Ernest Hemingway):

Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é um pedaço do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa é diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte da humanidade. E por isso não procure saber por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.

Foram nossos sofisticados modelos mentais que permitiram que a humanidade se adaptasse a praticamente todos os ambientes existentes no planeta Terra. Seja em desertos que atinjem temperaturas acima de 50°C ou em zonas polares que chegam a -40°C, a humanidade consegue estabelecer morada, ou pelo menos sobreviver por algum tempo, em uma amplitude de condições às quais nenhum outro animal sobreviveria.

Entretanto, essa grande amplitude é irrisória se comparada com os ambientes extremos encontrados fora da Terra. Nossa biosfera é um ambiente perfeitamente homogêneo e controlado diante das variações que podem ser encontradas Universo à fora. Dos “zilhões” de planetas possíveis (a NASA estima que apenas a Via Láctea tem pelo menos uns 100 bilhões deles, enquanto coloca o número de galáxias no Universo na casa dos 2 trilhões) e dos poucos milhares já conhecidos, a Terra é o único capaz de suportar nossas formas de vida. Em outras palavras, o único lugar no Universo no qual podemos sobreviver é na superfície de um planetinha qualquer, na orbita de uma estrela qualquer, que está em uma galáxia dentre trilhões de outras em um Universo cujo tamanho nós ainda desconhecemos.

Terra dos Sonhos

Porém, o desenvolvimento das grandes civilizações exigiu muito mais do que capacidade adaptativa. Para desenvolver as sociedades que temos hoje, tivemos que ir além daquilo que víamos ao nosso redor. Para transformar o mundo real, nós precisamos antes visualizar a transformação em nossos modelos mentais. Para que tenhamos algum verdadeiro progresso, precisamos ser capazes de imaginar uma realidade melhor e trabalhar no sentido de alcançá-la. Ter uma grande visão é o primeiro passo para se atingir uma grande realização. O astrônomo Carl Sagan disse: “A imaginação muitas vezes nos leva a mundos que jamais existiram, mas sem ela não vamos a lugar algum.”

Nossa capacidade de adaptação às vezes entra em conflito com nossa imaginação. Uma pessoa que sempre se limita a se adaptar a qualquer situação jamais transformará o mundo. O filósofo Edmund Burke disse que “aqueles que não conhecem a História estão condenados a repeti-la”, mas há uma variação possível dessa constatação: aqueles que conhecem a História mas possuem uma imaginação limitada irão tentar repeti-la. Quando têm dificuldades em visualizar um futuro melhor, as pessoas tendem a recorrer a um passado idílico que, na maioria das vezes, nunca aconteceu.

O fato é que nós não precisamos nos limitar pelas regras estabelecidas pela natureza, pela sociedade ou pelas nossas organizações. Em um e-mail recentemente vazado para a imprensa, o empresário Elon Musk faz uma série de recomendações, embasadas em pragmatismo e pensamento lateral, a seus funcionários, com o intuito de aumentar a produtividade em algumas de suas fábricas. A última recomendação diz:

No geral, sempre escolha o bom senso como seu guia. Se seguir uma “regra da empresa” for obviamente ridículo em uma situação específica, (…) então é a regra que deve mudar.

Grandeza

Em 20 de dezembro de 1943, depois de uma bem sucedida missão de bombardeio na cidade alemã de Bremen, o bombardeiro americano pilotado por Charles L. Brown foi atacado por dezenas de caças alemães e sofreu danos severos: além de perder os sistemas elétricos, hidráulicos e de oxigênio, o nariz e parte do leme da aeronave foram destruídos; um enorme buraco estava aberto na fuselagem, que já estava marcada com centenas de buracos de bala; dos quatro motores do avião, apenas um funcionava com 100% da capacidade, dois funcionavam com potência reduzida e o último estava completamente fora de operação. Das onze torres de defesa, apenas duas estavam funcionando, mas a maior parte da tripulação já estava seriamente ferida. Mesmo já estando em retirada, o avião dificilmente sobreviveria às baterias anti-aéreas pelas quais ainda teria que passar em território alemão.

Quando o jovem piloto alemão Franz Stigler viu o bombardeiro Aliado passando pela base onde estava reabastecendo, ele pulou em seu avião de combate e foi à caça. Porém, ao ver o frágil estado da aeronave e de sua incapacitada tripulação (visível pelo buraco na fuselagem), o piloto tomou uma atitude honrada e, ao invés de atacar os inimigos, os escoltou para fora do espaço aéreo alemão. Stigler sabia que as baterias anti-aéreas não atacariam o bombardeiro com um caça alemão tão perto do alvo. Inicialmente, ele tentou orientar Brown a pousar e se render ou a desviar para o território neutro da Suíça, mas como o americano não entendeu sua sinalização, só lhe restou acompanhar o bombardeiro até um ponto seguro.

A história desse episódio e de como Brown e Stigler posteriormente se tornaram grandes amigos até o fim de suas vidas é contada no livro O Amigo Alemão, de Adam Makos e Larry Alexander. Ao explicar sua atitude, Stigler disse que naquele momento se lembrou das palavras de seu superior, Gustav Rödel, sobre a prática de atacar paraquedistas:

Toda vez que subir, você estará em desvantagem numérica. Um risco desses faz um homem querer jogar sujo para sobreviver. Mas permita que o que estou prestes a lhe dizer sirva de aviso. Honra é tudo aqui. O que você vai fazer, Stigler, se algum dia encontrar um inimigo pairando em um paraquedas? (…) Se algum dia eu ver ou ouvir que você atirou em um homem de paraquedas, eu mesmo o derrubarei. Você segue as regras da guerra por você, não pelo seu inimigo. Você luta seguindo as regras para manter a sua própria humanidade.”

Naquele dia de dezembro, Stigler se colocou acima da mediocridade em vigência, teve seu nome eternizado na História e mostrou que ainda pode haver esperança para uma humanidade que parece condenada a se destruir. Nós apenas precisamos lutar por ela.