Modo Noturno:

O Peso da Responsabilidade

Não é que nós, os inconsequentes, não liguemos para as consequências. Não. Elas nos importam igualmente. Só que não as vemos até que seja tarde demais. Só as vemos quando estão debaixo do nosso nariz.
La Casa de Papel, Parte 2, Episódio 3

É bem provável que você já conheceu alguma pessoa que é incapaz de admitir que está errada. Não importa quantos fatos ou argumentos você apresente, o ponto de vista dela é inabalável. Às vezes, a situação fica tão surreal que chega a ser cômica. Em outras, a pessoa insiste que ela está certa mesmo se o erro cometido foi insignificante, sem consequências negativas para qualquer um dos envolvidos. Chega a ser incompreensível.

Mas por que elas são assim? Há quem veja nessa característica um sinal de segurança e obstinação, mas esse artigo diz que é exatamente o contrário:

Algumas pessoas possuem um ego tão frágil, uma autoestima tão quebradiça, uma “constituição psicológica” tão fraca, que admitir que cometeram um erro ou que estavam erradas é ameaçador demais para seus egos tolerarem. Aceitar que elas estão erradas e absorver essa realidade seria tão psicologicamente devastador que seus mecanismos de defesa fazem algo incrível para evitar isso: eles distorcem a realidade para torná-la menos ameaçadora. Seus mecanismos de defesa protegem seus frágeis egos mudando os fatos em suas mentes, para que elas não mais se considerem erradas ou culpáveis.

Esse tipo de insegurança também pode levar a condições como personalidades controladoras ou histriônicas. Mas o maior problema ocasionado por essa “rigidez psicológica” é a limitação do aprendizado. Ao ser incapaz de reconhecer os próprios erros, a pessoa também é incapaz de aprender com eles e alterar suas ideias e comportamentos. Sua capacidade de evolução fica prejudicada e sua mentalidade fica estagnada, para sempre agarrada a ideias fixas.

Esse é um dos fatores por trás da crise de liderança que afeta o Brasil e o mundo. Parte da sociedade busca heróis que irão resolver todos seus problemas e acaba enxergando esse heroísmo em figuras incapazes e inseguras que, no fim das contas, estão interessadas apenas em defender os próprios interesses ou em apaziguar as próprias inseguranças. Nesse interessante artigo, o autor diz:

Heróis não são líderes. Heróis retiram o poder das pessoas num jogo de dependência.

Líder promove o poder nas pessoas. Não porque é bonzinho ou um líder liberal ou democrático. Mas porque somente com o máximo poder de cada um, chega-se ao máximo de resultado possível e sustentável.

E, ao mesmo tempo que retiram o poder das pessoas, esses “heróis” tendem a evitar suas responsabilidades. Se algo é negligenciado e/ou dá errado, a culpa é sempre da concorrência, ou dos opositores, ou do azar, ou de misteriosos “inimigos”. O que eles não aceitam é que a concorrência ou a oposição apenas expõem suas próprias fraquezas e limitações, que eles se negam a reconhecer.

Ao não reconhecê-las, eles podem fingir que seus planos e estratégias são bons o suficiente (ou, até mesmo, perfeitos) e não precisam de melhorias, pois o fracasso é sempre culpa dos outros. Há aí uma grande falta de maturidade e inteligência emocional. Essas pessoas querem a glória e o reconhecimento de uma posição de liderança sem ter que arcar com o peso da responsabilidade inerente a ela; pois o peso da responsabilidade é o peso das consequências de suas ações, que eles pretendem evitar à todo custo.

No filosófico livro Um, Nenhum e Cem Mil, do italiano Luigi Pirandello, o autor fala sobre a prisão das consequências:

Quando se faz uma ação, ela não muda mais. Quando alguém faz algo, mesmo sem que depois se sinta e se veja na ação feita, aquilo que fez permanece como uma prisão para ele. Se vocês se casaram, ou mais materialmente, se roubaram e foram descobertos, se mataram, as consequências de suas ações os envolvem como espirais ou tentáculos; e lhes pesa, como um ar denso, irrespirável, a responsabilidade por essas ações e suas consequências, indesejadas ou não previstas, que vocês assumiram.

Um líder de verdade não apenas reconhece os próprios erros, mas age para evitá-los, sempre calculando as consequências de seus atos. Mais do que isso, ele não joga a culpa em subalternos ou em fatores externos. Se algo dá errado sob sua gestão, ele se responsabiliza e puxa para si a obrigação de tomar as atitudes necessárias para corrigir a situação. Ao invés de culpar ou tentar mudar os fatores externos, ele lidera sua própria equipe e tenta controlar os fatores internos para maximizar suas chances de sucesso.