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Crítica: Parasita

Gisaengchung, Coreia do Sul, 2019


Thriller de comédia aborda os mecanismos psicológicos que utilizamos para lidar com a desigualdade social

★★★★★


Depois de obras-primas como A Criada (crítica aqui) e Em Chamas, o cinema sul-coreano mostra mais uma vez que está em plena forma com esse Parasita. Coincidentemente (ou não), os três filmes lidam, em diferentes níveis, com a temática da desigualdade social que aflige não apenas a Coreia do Sul mas também a maior parte do mundo. Dentre os três, Parasita é o que vai mais fundo no tema, abordando os mecanismos psicológicos utilizados por pobres e ricos para lidar com o problema.

O filme começa mostrando a situação da família Kim, formada pelo pai Ki-taek (Kang-ho Song), a mãe Chung-sook (Hye-jin Jang), o filho Ki-woo (Woo-sik Choi) e a filha Ki-jung (So-dam Park). Os quatro estão desempregados e passam por dificuldades financeiras, e suas atitudes mostram que ética e moral são artigos de luxo quando a sobrevivência está em jogo. Nesse aspecto, eles lembram a família no centro do premiado drama japonês Assunto de Família.

Os Kim não veem maiores problemas em falsificar documentos para facilitar uma entrevista de emprego de Ki-woo, que consegue a vaga e dá início a uma sequência de eventos que torna todos os membros da família Kim funcionários da abastada família Park. A tranquila vida do casal de alta classe formado por Dong-ik (Sun-kyun Lee) e Yeon-kyo (Yeo-jeong Jo) é abalada apenas pelas pequenas crises escolares e comportamentais causadas pelos filhos Da-hye (Ji-so Jung) e Da-song (Hyun-jun Jung).

O clima de comédia de Parasita só dá lugar para algo diferente quando o lado mais sombrio da relação entre as duas famílias vai sendo revelado. Inicialmente, os Kim se sentem sortudos e realizados por terem conseguido executar perfeitamente o elaborado plano, mas, conforme outros eventos vão se desenrolando, eles percebem que há algo profundamente errado com aquela situação.

Ki-taek vai lentamente percebendo que, apesar de não serem pessoas necessariamente ruins, os Park enxergam os membros de sua família e de sua classe social da mesma forma que a maioria das pessoas enxergam os ratos e insetos: criaturas inferiores que vivem em esgotos e cantos escuros; que disputam ferozmente o lixo e outros resíduos descartados pela civilização; e cuja existência só é lembrada quando eles aparecem para incomodar em momentos inoportunos.

Isolados em sua bolha de riqueza e alta cultura, a forma que os Park possuem para lidar com a questão da desigualdade social é não lidar com a questão da desigualdade social. Ou seja, não reconhecer isso como uma questão e fingir que as massas empobrecidas não existem.

E Ki-taek só percebe isso quando ele mesmo adota esse mecanismo de enfrentamento. Já acostumado com sua nova vida e disposto a fazer qualquer coisa para proteger seu novo status, o plano que ele traça para lidar com aqueles que ficaram para trás é não lidar com aqueles que ficaram para trás. O que ele propõe para os filhos é seguir com as próprias vidas enquanto fingem que as pessoas que ficaram no “andar de baixo” simplesmente não existem. Isso dura até o momento no qual uma chuva torrencial traz à tona o que havia sido descartado.

Parasita possui diversos paralelos com o terror Nós (crítica aqui), outro filme recente que lida com a questão da desigualdade social e que usa metáforas semelhantes às do filme sul-coreano. Nele, uma típica família suburbana é violentamente confrontada por uma versão “menos privilegiada” de si própria, que vivia isolada em túneis subterrâneos espalhados pelos EUA.

O próprio diretor de Parasita, Joon-ho Bong, já havia lidado com o tema em seu Expresso do Amanhã (crítica aqui), filme de 2013 que está ganhando uma série em 2020. Já o recente documentário Indústria Americana (crítica aqui) mostra as complicadas situações de operários norte-americanos e chineses em uma economia tão desigual quanto globalizada. Mesmo o filme solo do Coringa (crítica aqui) apresenta uma subtrama que aborda a diferença entre os poucos que possuem muito e os muitos que possuem muito pouco.

O motivo de tanta preocupação é que esse problema tem piorado significativamente e não apresenta perspectivas de melhoria. Enquanto a população humana cresce vertiginosamente, o número de pessoas controlando a maior parte da riqueza tem diminuído. No mais recente relatório da Oxfam, é constatado que 26 pessoas no topo da pirâmide possuem a mesma riqueza que as 3,8 bilhões de pessoas que compõem a metade mais pobre da população mundial. Independente de visões ideológicas, essa é uma questão que não pode ser ignorada.

Com uma narrativa envolvente e uma abordagem que funciona em diversas camadas, Parasita é capaz de fazer o espectador refletir sobre os próprios privilégios e direcionar sua atenção para graves assuntos ignorados durante o dia-a-dia. Essa é mais uma grande realização cinematográfica do diretor Joon-ho Bong, que se supera nesse que provavelmente é o melhor filme de sua carreira.