Crítica: Nós

Us, EUA, 2019


Em Nós, o terror nasce a partir dos problemas sócio-econômicos dos EUA

★★★★☆


Portanto, assim diz o Senhor: Eis que trarei mal sobre eles, de que não poderão escapar; e clamarão a mim, mas eu não os ouvirei.
Jeremias 11:11

Nos últimos anos, a crescente desigualdade social ao redor do globo tem preocupado não apenas ativistas sociais e grupos de esquerda. Alguns dos homens mais ricos do mundo veem com apreensão o problema da concentração de renda, que pode não apenas comprometer o crescimento econômico, mas também empurrar grandes partes da população mundial para o extremismo tanto à esquerda quanto à direita. Isso resultaria na ascensão de governos iliberais ou em insurreições violentas das massas excluídas contra o sistema econômico.

É dessa última possibilidade que o roteirista, produtor e diretor Jordan Peele tirou a inspiração para o terror Nós, seu primeiro trabalho na direção depois do sucesso Corra! (crítica aqui). Nele, a família de Adelaide (Lupita Nyong’o) e Gabe Wilson (Winston Duke) é atacada sem aviso prévio por uma família que é um “espelho” da sua, inclusive interpretada pelos mesmos atores.

As chocantes diferenças entre as duas versões dessa mesma família representam as diferenças entre pessoas que nasceram em ambientes privilegiados e aquelas que nasceram na extrema pobreza (no filme, chamados de “Acorrentados”). Devido a condições que estão além do nosso controle, podemos ter uma vida de luxos e conforto ou uma permeada por sofrimentos e dificuldades. Isso é realidade tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, sobre o qual esse artigo diz:

No Brasil, o futuro de uma criança está em grande parte determinado pelas condições socioeconômicas da sua família no momento do nascimento. Como a mobilidade econômica e social é muito baixa, quem dá sorte de nascer numa família mais rica terá muito mais facilidade para alcançar seus objetivos na vida do que quem nasceu em uma família pobre. Como nascer em uma família rica ou pobre não é resultado de mérito e sim de sorte, a loteria da vida é o principal determinante do sucesso da vida no Brasil.

E não é preciso muito para ser considerado um privilegiado nessas sociedades. De acordo com dados de 2017, “quem recebe mais do que R$ 5.214 por mês já está entre os 10% mais ricos do Brasil”. No caso de Nós, por mais que a família Wilson tenha uma vida confortável o suficiente para manter uma casa de férias e comprar um barco usado, eles ainda não estão no mesmo nível que seus amigos Kitty (Elisabeth Moss) e Josh Tyler (Tim Heidecker), que dispõem de algumas das mais avançadas comodidades da vida moderna.

Independente do nível do privilégio, o ressentimento dos excluídos é distribuído igualmente. Peele tenta mostrar o quão implacável e violento seria o acerto de contas promovido por pessoas que conheceram apenas dor e tormento ao longo de suas existências. A exagerada natureza primitiva dos Acorrentados encontra respaldo nas realidades de muitos lugares onde se mata e morre por muito pouco. Eles não estão em busca de igualdade ou justiça, mas sim da vingança violenta à qual acreditam ter pleno direito.

Mas se os Acorrentados possuem muitos motivos para se rebelarem, a família Wilson possui muitos motivos para se defender. Adelaide, Gabe e os dois filhos (interpretados por Shahadi Wright Joseph e Evan Alex) rapidamente “entram no clima” e respondem violentamente às agressões que sofreram. Se para os agressores o ataque é uma questão de revanche, para os Wilson é uma básica questão de sobrevivência. Isso cria uma dinâmica na qual cada uma das duas famílias é a grande vilã da outra, resultando em um jogo cruel e sangrento.

É aí que Peele insere os genuínos elementos de terror em Nós. Além do ocasional uso de sustos, a violência é bem mais explícita do que o comentário social. Já o uso de humor negro é muito bem-vindo nessa tensa e violenta narrativa, apesar de (ou justamente por) beirar o inapropriado em alguns momentos (como na cena da “contagem de mortes” ou no assassinato brutal ao som de Good Vibrations, dos Beach Boys).

Enquanto filmes como Expresso do Amanhã (crítica aqui) e No Topo do Poder abordam o tema da luta de classes de forma clara e explícita, Nós dá espaço para interpretações mais abertas de sua trama. O filme pode ser visto como um mero exercício de terror com elementos de ficção científica, assim como sua fonte de terror pode estar em um nível bem mais psicológico.

Talvez, o que deixa Adelaide e os outros aterrorizados não é apenas o fato de que seus duplos estejam tentando matá-los, mas também a percepção de que aquelas pessoas primitivas e cheias de cicatrizes poderiam ser eles próprios. Sendo geneticamente idênticos, nenhum deles é inerentemente bom ou ruim, herói ou vilão. O que os diferencia são as circunstâncias de suas vidas, que foram determinadas pelo acaso, ou pelo resultado da “loteria da vida”. Isso os fazem questionar a noção de que são especiais e merecedores daquilo que possuem, além dos alicerces de suas próprias identidades.

Isso me lembra o provérbio creditado à fictícia Ordem de Monges Mi-Go da série Legion: “Para criar medo, mostre um espelho.”