Modo Noturno:

A Violência de uma Civilização

Com que direito haveis desencadeado uma guerra atroz contra essas gentes que viviam pacificamente em seu próprio país? Por que os deixais em semelhante estado de extenuação? Os matais a exigir que vos tragam diariamente seu ouro. Acaso não são eles homens? Acaso não possuem razão, e alma? Não é vossa obrigação amá-los como a vós próprios? Podeis estar certos que, nessas condições, não tereis maiores possibilidades de salvação do que um mouro ou um turco…
– Frei António de Montesinos em 1511

Quando estreou em festivais e circuitos comerciais entre 2018 e 2019, o drama australiano The Nightingale causou polêmica devido à forma direta e sem rodeios com a qual mostrava a violência do período colonial da Austrália. Avisos de possíveis gatilhos emocionais eram dados antes das sessões, e, no Festival de Sundance, terapeutas foram disponibilizados para atender espectadores que sentissem a necessidade de apoio psicológico.

A violência mostrada não é tão chocante graficamente, mas é psicologicamente perturbadora, especialmente as cenas de violência sexual. O filme mostra a realidade de mulheres, crianças e indígenas à mercê de homens armados e treinados nos confins inexplorados de uma nova terra. Uma vez que não havia quem verificasse suas condutas nessas novas fronteiras, também não havia limites para seus crimes.

Nesse sentido, a colonização da Austrália não foi muito diferente da colonização das Américas, iniciada séculos antes.

Alguns dos textos da coletânea Textos Contraculturais, Crônicas Anacrônicas & Outras Viagens, de Eduardo Bueno, falam dessa colonização e dos registros feitos pelo Frei Bartolomé de las Casas. O religioso foi um dos primeiros e um dos mais célebres defensores dos direitos indígenas no continente. Em sua Apologética História, ele fez uma detalhada descrição do infame Massacre de Caonao, na ilha de Cuba em 1513:

No dia em que ali chegaram, os espanhóis pararam de manhã para o desjejum no leito seco de um riacho que ainda conservava algumas poças d’água, que estava repleto de pedras de amolar: o que lhes deu a ideia de afiar as espadas.

Chegando à aldeia, alguns tiveram a ideia de verificar se as espadas estavam tão cortantes quanto pareciam. Um soldado, subitamente, desembainhou a espada (que parecia tomada pelo diabo), e imediatamente os outros fizeram o mesmo, e começaram a estripar, rasgar e massacrar aquelas ovelhas e aqueles cordeiros, homens e mulheres, crianças e velhos, que estavam sentados, tranquilamente, olhando espantados para os cavalos e para os espanhóis. Num instante, não restam sobreviventes de todos os que ali se encontravam e o sangue corria por toda a parte, como se tivessem matado um rebanho de vacas.

Ainda sobre a colonização da ilha de Cuba, ele faz o seguinte relato:

Foi depois que os índios daquela ilha foram submetidos à mesma calamitosa escravidão que os de Hispaniola, depois de terem visto a si próprios morrendo, perecendo sem recurso, que alguns começaram a fugir para as colinas, e outros se enforcaram por desespero, maridos e esposas, e enforcavam consigo seus próprios filhos. Mais de duzentos índios cometeram suicídio dessa forma devido à perversidade do tirânico espanhol que conheço por nome. Um grande número de pessoas morreu dessa forma.

O missionário também presenciou o uso dos chamados “cães de guerra” pelos espanhóis, que treinavam os animais para caçar e matar escravos indígenas, incluindo detalhes perturbadores:

Las Casas observou que as atrocidades dos espanhóis cresceram em magnitude quando eles foram primeiro para Cuba e depois para o continente, principalmente a prática de levar para as campanhas escravos indígenas acorrentados para servir de comida para os cachorros. Quando a hora da alimentação chegava, os cuidadores matavam um ou mais índios e trocavam ou vendiam entre si partes dos corpos para conservar seus estoques. Diogo Colombo usava seus cães para caçar índios como se fossem animais quando ele era governador de Hispaniola na segunda e terceira década do Século XVI, e outros espanhóis em outras colônias faziam o mesmo.

Para defender os direitos indígenas, Las Casas e outros missionários usavam como argumento a possibilidade da conversão desses povos ao cristianismo. O mesmo argumento seria utilizado no século seguinte por padres da ordem jesuíta para fundar as primeiras missões no Brasil.

As missões (ou reduções) eram grandes povoados construídos pelos próprios índios sob a tutela dos jesuítas, que visavam concretizar sua grande missão de evangelização no Novo Mundo. Elas foram estabelecidas em todo o Brasil, incluindo a Bahia, o Norte e Nordeste, o oeste do Paraná e o oeste do Rio Grande do Sul. Nesse último, a segunda leva de missões deu origem às mais famosas delas, conhecidas coletivamente como os Sete Povos das Missões, que hoje são patrimônio cultural do Mercosul.

O canal Buenas Ideias possui uma informativa série de vídeos sobre as missões estabelecidas no sul do país, a começar por aquelas no oeste do Paraná:

A série completa, em ordem cronológica, é:

A vida pacífica e civilizada dos indígenas dos Sete Povos ia de encontro aos interesses econômicos dos bandeirantes paulistas e dos latifundiários portugueses locais, que estavam mais interessados em capturar e escravizar os índios, ou em explorar os recursos naturais de suas terras. Com o Tratado de Madrid, o território passou para controle dos portugueses, que solicitaram sua desocupação. Diante da negativa dos indígenas em desocupar suas terras ancestrais, e que agora possuíam verdadeiras cidades, eclodiu a Guerra Guaranítica.

O conflito foi vencido pelos europeus e resultou na morte de milhares de índios. Esses acontecimentos são parcialmente dramatizados no filme A Missão, que se passa em São Miguel das Missões e é estrelado por Robert DeNiro, Jeremy Irons e Liam Neeson.

Mas antes da chegada dos europeus não havia apenas selvageria e canibalismo, e nem apenas um equilíbrio idílico, como algumas pessoas tentam romantizar. As populações indígenas das Américas possuíam suas próprias culturas e organizações sociais. Também guerreavam entre si e estavam em diferentes níveis de desenvolvimento tecnológico. E foi a partir delas que os europeus conheceram o milho e o chocolate.

Os povos amazônicos não apenas ajudaram a moldar a maior floresta do planeta, mas também a “urbanizaram” parcialmente. Esse artigo sobre As Cidades Perdidas da Amazônia diz:

Entre os anos de 1000 e 1400, verdadeiras superaldeias interligadas por boas estradas dominavam certas regiões. Em outras, grupos de até 15 mil erguiam aterros com até 10 metros de altura para construir suas casas sobre eles e dar um chapéu nas inundações. “Existiam sociedades complexas no rio Amazonas quase inteiro, no médio e baixo Orinoco, na Bolívia e em outras áreas”, diz o arqueólogo americano Michael Heckenberger, que há anos estuda um conjunto de agrupamentos desse tipo no Alto Xingu. “Em 1500, a Amazônia provavelmente era uma área de enorme variabilidade cultural, com grupos regionalmente interligados.”

Porém, os povos ou descendentes de povos indígenas são tratados hoje como se fossem invasores ou parasitas em terras que seus ancestrais já ocupavam há milênios. Armas biológicas já foram usados contra eles tanto no Século XIX quanto no Século XX. As taxas de suicídio entre essa população seguem altíssimas. E novos exploradores avançam sobre suas terras.

São questões que já foram muito bem mostradas em filmes como Terra Vermelha e Xingu.