Crítica: Landman – 2ª Temporada
Landman – Season 2, EUA, 2024-2026
Prime Video · Trailer · Filmow · IMDB · RottenTomatoes
★★★★☆
Na teoria, a segunda temporada de Landman não deveria funcionar tão bem quanto funciona. Dessa vez, a narrativa está ainda mais sem foco e sem uma direção clara, estilo que o criador e roteirista Taylor Sheridan aperfeiçoou em Yellowstone. Porém, conforme vai acompanhando diversos personagens em diversas situações diferentes, a série também vai mantendo o espectador envolvido e entretido com diversos dramas. A maioria desses dramas não serve para “avançar a trama”, mas sim para colocar na tela as diferentes realidades e os diferentes tipos de pessoas presentes no mundo da exploração do petróleo no oeste do Texas.
A rigor, o foco dessa temporada é o futuro da M-Tex depois do falecimento de Monty (Jon Hamm), deixando seu homem de confiança Tommy (Billy Bob Thornton) e sua viúva Cami (Demi Moore) com a missão de desvendar a misteriosa estrutura financeira da companhia. O principal problema é que eles não conseguem localizar os US$400 milhões de dólares pagos por uma seguradora à M-Tex, referente a um acidente com uma plataforma petrolífera em alto mar. O pagamento foi feito com a condição de que a exploração fosse retomada, o que não aconteceu. Todos esses detalhes são completas novidades para praticamente todos os personagens, inclusive os advogados Nathan (Colm Feore) e Rebecca (Kayla Wallace).
Em outra frente narrativa, Cooper (Jacob Lofland) começa seu próprio empreendimento de extração de petróleo enquanto precisa fazer ajustes em seu relacionamento com Ariana (Paulina Chávez). Paralelamente, enquanto continua se divertindo com o trabalho social em um lar para idosos, Angela (Ali Larter) precisa lidar com a entrada de Ainsley (Michelle Randolph) na universidade, o que a deixa com sua própria versão da síndrome do ninho vazio.
Curiosamente, todas essas linhas narrativas entram em contato com a volta do narcotraficante Danny Morrell (Andy Garcia), que também é conhecido como Gallino. Agora como personagem fixo, a presença de Gallino reforça uma tendência temática dos trabalhos de Sheridan: a atuação de cartéis de drogas no território dos EUA. Além de ter sido um dos temas de Sicario: Terra de Ninguém, os cartéis também estiveram no centro das tramas da segunda temporada de Operação Lioness e da quarta temporada de O Dono de Kingstown.
A novidade aqui é que Gallino é mostrado, acima de tudo, como um homem de negócios. A primeira temporada de Narcos mostrou que Pablo Escobar (Wagner Moura) tinha sérios problemas para armazenar as exorbitantes quantidades de dinheiro que ganhava com o tráfico de entorpecentes, chegando a ter que enterrar tonéis de dinheiro em lugares estratégicos. Agora, figuras como Gallino e como o crime organizado brasileiro estão mais interessadas em reinvestir esse dinheiro em negócios legítimos.
Não se trata apenas da prática de lavagem de dinheiro, mas sim de uma insidiosa diversificação dos negócios. Isso significa que, dentro de algum tempo, poderemos ter empresas grandes e respeitadas que, inicialmente, foram financiadas com o dinheiro sujo do tráfico de drogas, dificultando a diferenciação entre uma organização criminosa e uma empresa legítima. No caso de Landman, Gallino pode acabar se tornando um respeitado “barão do petróleo” e até aparecer na capa da Forbes, apesar da violência e dos efeitos sociais de seu negócio original.
Para todos os efeitos, algo assim já pode estar acontecendo no mundo real.
Landman também reserva bastante espaço para mostrar a realidade dos trabalhadores da indústria do petróleo, acompanhando personagens como Dale (James Jordan) e a equipe liderada por Boss (Mustafa Speaks) em suas “aventuras” diárias. A série realça os perigos que eles enfrentam em um dia qualquer de trabalho, que pode resultar tanto em mortes quanto em ferimentos capazes de alterar o resto de suas vidas.
Apesar de ser amplamente considerada uma peça de propaganda a favor da exploração de combustíveis fósseis, Landman acaba revelando o quão problemática essa indústria realmente é. Dados os custos, os riscos ambientais e os perigos inerentes à extração de petróleo e de gás natural, a indústria só faz sentido devido aos lucros exorbitantes quando a exploração dá certo, exigindo que o preço do barril de petróleo sempre permaneça acima de um determinado patamar.
Essa é uma atividade econômica que consome não apenas grandes quantidades de dinheiro, mas que também custa a vida de muitos trabalhadores e causa o desequilíbrio de muitos ecossistemas. Além disso, para garantir que os combustíveis fósseis não fiquem baratos demais diante da crescente demanda por carros elétricos, a indústria petroquímica vem incentivando a produção de cada vez mais plásticos, ignorando os efeito negativos desse material sobre o meio ambiente e sobre a saúde humana.
A representação feita em Landman está sendo considerada negativa pela própria indústria. Chegou-se ao ponto no qual a associação comercial Instituto Americano do Petróleo pagou pela produção de comerciais para contradizer os acontecimentos da trama, tentando ressaltar que os muitos acidentes mostrados não correspondem ao dia a dia de suas operações. As propagandas são exibidas durante os intervalos da série e tentam realçar o foco em segurança, em valores familiares e até na diversidade dos trabalhadores.
Polêmicas à parte, Landman segue sendo um “novelão” de qualidade, contando tanto com dramas familiares e romances quanto com momentos de suspense e ação. O foco da série não está em contar uma determinada história, mas sim em representar os muitos envolvidos nessa realidade em particular. A trama não é apenas sobre trabalho e negócios, mas também sobre a vida e a passagem do tempo nos arredores dos grandes campos de exploração de petróleo do estado do Texas.









