Top 10 2013 – 2° lugar: O Som ao Redor

2. O Som ao Redor (2012)

Nada realmente acontece em “O Som ao Redor”. O filme não possui a clássica estrutura de apresentação, complicação e resolução. Ele apenas acompanha a rotina de uma rua de classe média em Recife. A verdadeira trama não está na tela e nem no que é dito pelos personagens. A trama em si está nas raízes daquele cotidiano, nas origens daquela organização social. Eventualmente, percebe-se as raízes rurais daquelas relações. Destacam-se a ditadura de um patriarca tido como o “responsável” pela rua e a opressão do “senso comum” apresentado em uma reunião de condomínio. No primeiro caso, o poder do “coronel da fazenda” (o patriarca citado) é exercido por meio da intimidação e da exploração do trabalho, e é viabilizado pela grande quantidade de propriedades que ele possui na área e pelo respeito que os outros moradores tem por ele. É a gratidão que temos pela “bondade” da mão que nos castiga. Mais tarde, um grupo de seguranças comunitários consegue sua permissão para atuar na rua, colhendo uma pequena taxa de cada morador, e seu poder de intimidação fica ainda maior. Paralelamente, uma dona de casa tenta escapar da prisão que é aquele cotidiano e os sons que o acompanham.

Um dos maiores méritos de “O Som ao Redor” é expor toda essa estrutura sem ter que explicar nada e sem mostrar nenhum acontecimento digno de nota. Somos levados à essas reflexões apenas por olhar de fora uma rotina que a maioria de nós conhece bem. Olhando de fora, fica evidente a pequena hipocrisia e os pequenos ditadores do nosso dia-a-dia. Percebe-se como as pessoas se agarram a pequenas regras de conduta. Percebe-se a insegurança desses pequenos ditadores, que precisam do conforto das regras para se sentirem seguros em uma vida que, no final, eles nem sabem porque estão vivendo. Para eles, essas regras são a garantia de uma sociedade sob controle e quem não as seguir deve ser punido. Revela-se a ausência de empatia que uma pessoa normal pode ter em relação à outra apenas porque seu comportamento não segue a norma. Falta visão, falta pensar fora da proverbial caixa. Porém, se você concorda comigo nos pontos anteriores, precisamos também ter o cuidado de não demonizar esses pequenos ditadores, de não tirar-lhes a humanidade, pois aí estaremos fazendo o mesmo que eles. Afinal, se eles não tiverem essas regras que garantem sua tranquilidade, qual a alternativa? Ouso dizer que a alternativa é inteligência e maturidade, mas essa é uma outra discussão.

A verdade é que “O Som ao Redor” não está nessa posição apenas por mérito próprio. Ele foi lançado em 2012, mesmo ano de lançamento de dois outros ótimos filmes pernambucanos, que também estão dentre os melhores que vi em 2013 (e não sou o primeiro a fazer essa associação). Em Febre do Rato, um anarquista poeta dos excluídos usa sua poesia para afrontar a insensibilidade e a opressão da cidade que os cerca. O notável aqui é o conjunto de personagens e os tipos de relações existentes entre eles, especialmente os relacionamentos amorosos e sexuais. Naquele microcosmo não encontramos as regras de conduta sexual aceitável, que garantem a segurança dos inseguros, como a classe média de “O Som ao Redor”. Desde que sejam adultos em consenso, não há limitações de idade, quantidade de parceiros ou orientação/identidade sexual. Em Era Uma Vez Eu, Verônica, a personagem título é uma médica recém-formada e cheia de dúvidas sobre o que esperar da vida ou que vida ela deveria tentar viver. O script padrão que deveríamos todos seguir é o de estudar, arrumar um emprego, casar, ter filhos, cuidar da família, ser feliz e morrer. Então é isso? É só fazer o que todo mundo está fazendo e que muitos já fizeram? Isso não lhe satisfaz. Verônica gosta das festas, de sua liberdade, de transar quando quiser, nem sempre com o cara que ela oficialmente “está pegando”. Enquanto a sociedade exige que ela reprima a própria sexualidade (especialmente por ser mulher), ela sonha com orgias à beira-mar. Vale a pena mencionar aqui a ótima utilização de algumas belas canções da cantora Karina Buhr, cujas letras estão no mesmo tom do filme.

Esse segundo lugar é pelo conjunto da obra desses três filmes. Para mim, são daquelas obras que causam uma certa melancolia quando os letreiros começam a subir. Cada um deles mostra de sua própria forma como a humanidade desperdiça o próprio potencial ao se agarrar a regras cuja razão de ser sequer é lembrada; ou como um moralismo irracional instala nas pessoas inseguranças tão irracionais quanto; ou como as pessoas se negam a questionar a forma como vivem e, se questionadas por outrem, se satisfazem em responder que “é assim que as coisas são”. Em “O Som ao Redor” é triste ver a relação entre dominados e dominadores, perfeitamente exemplificada no patrão de classe média que se vê como benfeitor de seu mal pago empregado, ou na mesquinharia de querer demitir o antigo porteiro por justa causa, para não ter que pagar todos os encargos trabalhistas. Já em “Febre do Rato” é triste pensar que o senso comum tentaria simplesmente desclassificar o comportamento daqueles personagens, chamando-os de “degenerados” ou “depravados” antes mesmo de se perguntar o porque de ser tão errado as pessoas se relacionarem daquelas formas. O mesmo vale para “Era Uma Vez Eu, Verônica”, depois do qual é possível imaginar como uma “pessoa de bem” resumiria todas as dúvidas, desejos e comportamento da protagonista às palavras “puta” ou “vagabunda”. O recalque é a regra, e quem não se reprime é considerado um párea.

Não é o caso de se tornar obrigatório esse comportamento sexual, mas sim de aceitá-lo como parte da manifestação da sexualidade humana. Quem não se sente confortável com tais práticas tem todo o direito de não praticá-las, mas não tem o direito de julgar moralmente aqueles que as praticam. Mesmo porque boa parte desse moralismo é bastante hipócrita e não resiste à primeira ou à algumas poucas tentações. Um filme que assisti esse ano e que faz um ótimo trabalho ao tentar despir seus personagem dessa hipocrisia moral é o divertido e profundo E Sua Mãe Também. Nele, dois adolescentes, guiados por seus hormônios e muita imaturidade, embarcam em uma viajem com uma mulher mais velha na esperança de, eventualmente, transarem com ela, mas acabam aprendendo mais do que esperavam sobre sexo, sobre a vida, e sobre eles mesmos.