Top 10 2013 – 1° lugar: A Conversação

1. A Conversação (1974)

Gosto de filmes lentos. Pausados. Que te dão tempo para contemplar aquele enquadramento, aquele olhar, aquela situação, aquele personagem. Isso também mostra que o diretor sabe o que está fazendo, que o filme não será conduzido à toque de caixa até chegar nas partes interessantes. Quando o filme é lento, cada parte deve ser interessante. Cada momento. Cada uma das cenas está lá para te apresentar algo novo, nem que seja um detalhe. Se realmente for um filme bem conduzido, você não tem nenhuma pressa em ver a resolução da história. E quando a resolução chega, você até lamenta. A maioria dos filmes nessa lista se encaixam nessa categoria e o primeiro lugar é o mais lento de todos.

Harry Caul é um especialista em vigilância. Em seu mais recente trabalho, ele monta uma pequena equipe para escutar a conversa de um jovem casal em uma movimentada praça no centro de São Francisco. O casal está constantemente em movimento, justamente para evitar serem escutados, mas Harry utiliza diversos métodos de escuta para capturar a conversa. Alguns membros da equipe acompanham o casal o quanto podem, enquanto um outro utiliza um microfone de longa distância para captar o que o burburinho constante da praça permitir. Posteriormente, com seu profissionalismo inabalável, Harry utiliza o equipamento em seu workshop para produzir o áudio final, juntando as partes nas quais a captura ficou mais nítida. A conversa do casal é apreensiva. Eles parecem temer algo, ou alguém, e marcam um encontro em um hotel. Pela conversa, infere-se que eles são amantes e estão discutindo a viabilidade de um plano para fugirem juntos. A moça é casada e eles parecem muito apreensivos. Isso é o suficiente para mexer com um trauma do passado de Harry: por causa de um trabalho anterior, um homem foi exposto às pessoas que tentava enganar, e ele e sua família foram assassinados. Harry teme que algo semelhante aconteça. Um último trecho da conversa permanecia incompreensível, mas depois de um longo e metódico trabalho, a frase é revelada: “Ele nos mataria se tivesse a chance”. Seus piores medos parecem estar se tornando realidade.

Vamos acompanhando então um paranóico Harry e conhecendo mais a fundo esse personagem. Harry é, como li em algum lugar, “dolorosamente solitário”. Ele mora sozinho em um apartamento, no qual passa o tempo tocando seu saxofone. Além disso, ele é tanto paranóico com a própria privacidade, o que é revelado por sua reação quando fica sabendo que sua senhoria tem uma cópia da chave do seu apartamento. Sua personalidade retraída e seu preciosismo por detalhes irritam até seu sócio e abala a relação entre eles. Ele não tem uma companheira e parece ser distante da família, se ainda possui alguma. Esse personagem me lembrou uns tipos interessantes interpretados por George Clooney nos ótimos Um Homem Misterioso, Amor sem escalas e, meu favorito, Conduta de Risco. Todos eles são solitários e dedicados ao trabalho, e parecem viver razoavelmente bem assim. Além disso, Harry lembra o protagonista do fantástico A Vida Dos Outros, no qual um também retraído agente da Stasi se vê cada vez mais envolvido com a vida do casal que ele tem que espionar. Me lembra também o fantástico O Espião Que Sabia Demais, um dos meus favoritos. Além dos solitários protagonistas, todos esses filmes, incluindo “A Conversação”, possuem uma outra característica em comum: a elegância na condução da história.

A elegância em “A Conversação” não está apenas na calma da narrativa ou nos amplos enquadramentos, mas também na minimalista trilha sonora. Ainda que minimalista, ela faz belamente a ambientação das cenas. Momentos que poderiam parecer sem sentido ou que poderiam ser de uma tristeza profunda, são transformados em momentos preciosos tanto para o personagem quanto para o espectador. Além disso, a ocasional inserção de divertidos exemplares de jazz não apenas contrasta com o tom do filme, mas também ironiza algumas situações, ou torna uma situação apenas triste em uma situação melancólica e elegante. Nesse clima, você até esquece da história.

Paranóico, Harry resolve não entregar a fita à empresa que o contratou, e o assistente do diretor começa a assediá-lo de forma invasiva e frequente. É por causa de uma bela mulher que Harry deixa a fita ser levada, indo acabar nas mãos do diretor. Um clima de pesadelo se instaura. Harry não quer a morte daquele jovem casal em sua consciência e tenta fazer algo para evitar o crime. Isso só o coloca perturbadoramente perto quando o crime é cometido. No dia seguinte, ao tentar confrontar o diretor, Harry descobre que nada é o que parece ser. Essa fantástica surpresa é genial e ocorre em um momento em que, teoricamente, nenhuma surpresa seria possível. É revelado que o contexto da conversação gravada era um tanto diferente do que imaginávamos. Um crime foi cometido, mas não aquele crime. Mas Harry sabe o que aconteceu e os criminosos o ameaçam, deixando claro que eles sabem tudo o que ele faz e que seu apartamento está sob vigilância. Com sua estimada privacidade violada, Harry fica completamente paranóico e obcecado. Imediatamente, ele começa a procurar as escutas que podem estar escondidas no apartamento. Na longa cena final, Harry simplesmente destrói o próprio lar. Móveis, assoalho, lustres, papel de parede. Nada fica intacto. Ou quase nada. Na última cena, Harry está sentado em uma cadeira tocando seu saxofone, um dos poucos objetos que ele não destruiu à procura de escutas. É belo.

Enfim, “A Conversação” é sobre privacidade, obsessão, paranóia, solidão. Um lento drama, clima noir, embalado por jazz. Não tem como não favoritar.