Modo Noturno:

The Boys: Proteger, Servir e Manipular

* Possui SPOILERS da segunda temporada da série The Boys

Em sua segunda temporada, The Boys volta mais madura e empolgante, acertando ao expandir o desenvolvimento dos personagens e não apenas a ação. O humor segue ainda mais sombrio e afiado, satirizando não apenas a ideia de super-heróis, mas também muitos outros aspectos das nossas sociedades, inclusive políticos. Os temas são abordados de forma tão séria e perspicaz que o humor negro e a violência gore são apenas atrações secundárias nessa segunda leva de episódios.

Dessa vez, a série faz um mergulho ainda mais profundo e aterrador na psicologia de Homelander (Antony Starr), o invencível e psicopata super-herói que é o principal antagonista. Os roteiros expõem as fragilidades emocionais e os traumas de infância que fazem dele o personagem mais perigoso e imprevisível, mostrando como a violência e as mentiras às quais ele recorre não passam de mecanismos de defesa para sua imagem pública e para sua noção de superioridade sobre o resto da humanidade.

Ao invés de ser um vilão simplesmente maligno, ele é uma pessoa insegura e incapaz de experimentar toda a gama de sentimentos humanos, lidando de forma desajeitada com as autênticas interações emocionais que tem nessa temporada. E quando as coisas não saem como gostaria, ele se mostra incapaz de lidar com a frustração, já que ninguém jamais pôde impor limites às suas vontades. Ele jamais teve a oportunidade de amadurecer emocionalmente e segue sua vida guiado por um nível infantil de narcisismo.

É por isso que Homelander está disposto a qualquer coisa para se sentir relevante e amado, o que funciona muito bem para a corporação Vought. O que para ele é uma necessidade emocional, para a Vought é um grande sucesso de posicionamento de marketing. A forma como ele explora o sentimento de patriotismo da população em benefício próprio também serve muito bem aos planos de Stormfront (Aya Cash), que se revela uma supremacista branca que usa todos os “truques” modernos (apito de cachorro, memes, fake news, etc.) para esconder as origens nazistas de suas ideias.

A segunda temporada de The Boys também vai mais fundo na psicologia de Billy Butcher (Karl Urban), líder do grupo de vigilantes caçadores de super-heróis que dá título a série. Cego pelo ódio e pela obsessão, Butcher apresenta um tipo diferente de narcisismo: para ele, qualquer ação é justificável em nome da vingança e da recuperação da vida que lhe foi roubada. Seu combate contra os super-heróis mascara um conjunto muito maior do que se podia imaginar de frustrações e inseguranças, canalizando seu ódio para as pessoas contra as quais ele acredita que toda violência é justificável.

A própria série realça as semelhanças entre Butcher e Homelander, personagens violentos que se veem como donos inquestionáveis da razão. Mas os roteiros também chamam a atenção para a semelhança entre eles e muitos policiais (ou outros agentes de segurança) que canalizam as próprias frustrações e agressividade para o trabalho, resultando em casos de abuso de autoridade e de mortes indevidas. Isso fica óbvio no discurso de desculpas que Homelander dá no final da temporada, que segue os moldes dos discursos de desculpas dados por departamentos policiais dos EUA, tratando os abusos como casos isolados de responsabilidade de algumas poucas “maçãs podres” no sistema (enquanto isso, o FBI investiga a infiltração de supremacistas brancos em departamentos de polícia desde, pelo menos, 2006).

Tanto na série quanto na vida real, esse tipo de discurso serve para que a organização não precise se responsabilizar pelos abusos cometidos e nem reconhecer os problemas estruturais que os possibilitaram. Esse tipo de paralelo faz de The Boys mais uma atualização digna das ideias e abordagens de Watchmen, como a feita na série da HBO de 2019. Enquanto a HQ dos anos 1980 lidava com o medo da Guerra Fria e de uma hecatombe nuclear, The Boys lida com a degradação do discurso público (especialmente por meio das fake news) e as implicações (sociais, políticas, ambientais, etc.) de uma cultura de consumismo desenfreado e adoração de celebridades. Nos dois casos, figuras “heroicas” surgem para salvar o dia e acabam se tornando parte do problema.

A segunda temporada também vai mais fundo em outras tramas e outros personagens. Além do amadurecimento do relacionamento entre Hughie (Jack Quaid) e Starlight (Erin Moriarty), que aprendem a lidar de forma mais sincera e saudável com as próprias emoções, o espectador também é agraciado com mais detalhes da personalidade e do passado de personagens como Frenchie (Tomer Kapon) e Kimiko (Karen Fukuhara). Isso os transforma em figuras mais realistas e encorpadas, protagonistas de suas próprias histórias. Com tanta coisa acontecendo com os outros membros da equipe (e com a negligência de Butcher), Mother’s Milk (Laz Alonso) acaba sendo o verdadeiro líder e mentor dos demais ao longo dos episódios.

Quem também precisa de liderança e mentoria são os super-heróis The Deep (Chace Crawford) e A-Train (Jessie T. Usher). Sem rumo e cheios de incertezas, eles são presas fáceis para a Igreja do Coletivo, uma organização fictícia que claramente representa a igreja da Cientologia. Enquanto o envolvimento de A-Train tem grande importância para a trama principal, o de The Deep nos leva mais fundo na psicologia do personagem, indo até os problemas de autoestima que o levaram a se tornar um assediador sexual. Esse é mais um ótimo exemplo da ousadia temática da série.

Ao invés de tentar chocar ainda mais o espectador com sua violência gore, a segunda temporada de The Boys impressiona muito mais pelos temas apresentados, sejam eles sociais, políticos ou psicológicos. O episódio final deixa um gancho para uma abordagem ainda mais política daquele universo. Se quando servem a interesses corporativos os super-heróis já fazem o estrago que vimos nas duas primeiras temporadas, imagine o que vai acontecer quando estiverem sendo explorados para propósitos eleitorais.