Os Espiões Que Não Amavam as Mulheres

A polêmica em torno do militar que aparentemente estava infiltrado em um grupo de manifestantes no último domingo (04/09/2016) levanta muito mais questões do que as análises iniciais trazem à tona. É possível traçar paralelos entre esse caso e casos que ainda são controversos nos EUA e no Reino Unido, onde os lados moral e legal dessas ações estão sob constante escrutínio da imprensa. Além desses aspectos, podemos questionar a expertise brasileira para realizar esse tipo de operação, já que a real identidade de “Baltazar Nunes”, o Balta, foi revelada na Internet apenas dias após a ação na qual atuou.

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Pra começar, o fato de que o agente brasileiro usou uma rede social de encontros para se infiltrar no grupo nos leva diretamente ao caso dos policiais britânicos disfarçados que se casaram e tiveram filhos com as pessoas que eles deveriam monitorar e investigar. Esses policiais passaram anos infiltrados em grupos de ativistas climáticos do Greenpeace e construíram toda uma vida ao lado das pessoas que estavam investigando, apenas para abandoná-las sem explicação ao fim da operação. Algumas das famílias perderam sua estabilidade financeira e os filhos cresceram sem pai. Mesmo o casamento não era válido, pois, além de estarem usando nomes falsos, alguns dos agentes já eram casados em sua “vida real”. Esse escândalo vem se arrastando ao longo dos anos e a polícia britânica já deve ter pago alguns milhões de libras em indenização para as mulheres que se casaram ou tiveram longos relacionamentos com os agentes do Estado.

O caráter ideológico da operação brasileira também é preocupante, pois até agora não há evidências de que os jovens iam realizar atos violentos ou atentar contra a segurança nacional. Durante a Guerra Fria, o MI6 infiltrava agentes para monitorar atividades comunistas nas principais universidades do Reino Unido, o que parece paranoico mas que não foi paranoico o suficiente. No início dos anos 1950, foi desbaratado no alto escalão dos serviços de inteligência britânicos um grupo de cinco espiões a serviço da KGB, todos egressos da Universidade de Cambridge, onde se conheceram ou foram recrutados. O principal deles era Kim Philby, que já era cotado para ser o novo chefe do MI6. Dentre outras informações, Philby vazou a identidade de muitos dos espiões alocados nas universidades, incluindo a de David Cornwell, nome real do escritor conhecido pelo pseudônimo John Le Carré. O caso dos cinco de Cambridge foi a inspiração utilizada pelo autor para escrever um de seus maiores sucessos, O Espião Que Sabia Demais (Tinker Tailor Soldier Spy, 1974). Em sua recém lançada biografia, o autor mostra que o lado moral do tipo de atividade que realizava enquanto agente secreto não é tão simples como se pensa:

Após muitos anos, depois do colapso da União Soviética, Cornwell se encontrou com o historiador Timothy Garton Ash, que estava escrevendo um livro sobre como era ser espionado pela polícia secreta da Alemanha Oriental. Os dos tiveram uma longa conversa sobre a moralidade da espionagem, que Cornwell afirma ser “uma questão que me assombra nesses 45 anos”. Ele admitiu que, nos termos de Garton Ash, ele realmente havia traído colegas e amigos, mas insistiu que tais ações eram justificadas na proteção de seu país e na defesa de uma sociedade livre.

Mais recentemente e do outro lado do Atlântico, o FBI vem cada vez mais sendo criticado por operações de infiltramento de caráter duvidoso. Os agentes veem se infiltrando na comunidade islâmica e incentivando as pessoas a se tornarem terroristas. Em vários casos, o FBI não apenas convenceu jovens relutantes a cometerem ataques como também proveu todo o apoio material (coletes, carros, bombas falsas, etc.) para que o ataque fosse preparado, apenas para prenderem o terrorista na “hora H”. Isso deixa a questão: será que aquele jovem teria sido radicalizado se o FBI não tivesse colocado um agente para fazer justamente isso? Ou mesmo: ainda que o jovem fosse radicalizado, será que ele teria condições materiais para realizar qualquer ataque? Em dos casos, o jovem radicalizado era tido pelos conhecidos como “incompetente” e “meio devagar da cabeça”. Em outro, o FBI recrutou um ex-detento e o infiltrou em uma mesquita, apenas para, depois da tentativa de radicalização de dois adolescentes, ele ser banido da comunidade e denunciado para o próprio FBI.

Até onde sei, ainda não se tem notícia de empresas privadas de inteligência infiltrando agentes em grupos de ativistas ou em concorrentes, mas certamente essa é uma carta que está na mesa. Nada garante que esse tipo de empresa, como a Stratfor e a Kroll, já não use esses métodos. Esse cenário é explorado no filme O Sistema (The East, EUA, 2013), no qual uma agente de uma empresa de inteligência se infiltra em um violento grupo anarquista para colher informações e, possivelmente, evitar novos ataques. Entretanto, quando tem a oportunidade de evitar um ataque, a protagonista não recebe autorização para fazê-lo, pois a empresa alvo não é cliente de seu empregador. Novas questões éticas hão de surgir com esse tipo de atuação.

Voltando ao caso brasileiro, além da questão da falta de expertise, as questões legais ainda estão enevoadas. Não se sabe se a operação respeita os limites legais da atuação do Exército em território nacional ou mesmo se tem algum valor jurídico. Por exemplo, a Operação Satiagraha foi completamente anulada porque a Polícia Federal usou recursos da Abin e de empresas privadas para realizar as investigações. Por enquanto, o saldo da operação do último domingo é de alguns cidadãos tendo seus direitos violados e o de um agente do Estado exposto na Internet, o que certamente o deixa vulnerável.