Os 10 (ou mais) melhores filmes que assisti em 2013 – Parte 1

Sim, são os 10 melhores filmes que assisti em 2013, e não os 10 melhores lançados esse ano, apesar de que alguns deles foram lançados nesse ano. Explicar o porque dessa escolha fica como exercício para o leitor.

Contém: SPOILERS, Hitchcock e mais de 10 filmes.

Sério, muitos SPOILERS mesmo.

10. Rush – No Limite da Emoção (2013)

Vamos começar com esse retumbante fracasso de bilheteria (pelo menos nos EUA) e grande sucesso de crítica. Aparentemente, muita gente deixou de ir conferir esse divertido drama de ação por ser um “filme de Fórmula 1”, o que me deixou um tanto surpreso. Esse esporte não é bastante popular? Também não sou fã de Fórmula 1, mas algumas críticas que li me convenceram a conferi-lo. Valeu a pena. Fosse só pela tensão e adrenalina das cenas de corrida, ficaria na média. Mas são os personagens principais, suas personalidades e a rivalidade entre eles que fazem “Rush” se sobressair como thriller. O energético enfrentamento entre um piloto “selvagem” e temerário (James Hunt, interpretado por Chris Hemsworth), disposto a desafiar a morte a cada manobra, e um piloto calculista e metódico (Niki Lauda, interpretado por Daniel Brühl), que ajusta o carro até os últimos detalhes, é o elemento principal desse conflito. Fica ainda mais interessante ao se perceber que esses métodos radicalmente diferentes tem como raiz os mesmos objetivos ou, digamos, as mesmas obsessões. Não é apenas uma questão de como eles dirigem seus carros, mas de como eles dirigem suas vidas. A priori, fica clara a incompatibilidade entre os métodos desses dois gênios: quando Hunt troca de equipe e o carro começa a deixá-lo na mão em várias provas, ele, ao contrário de Lauda, nada faz (por falta de know-how ou de pró-atividade mesmo) para se aproximar da equipe de mecânicos e ajudá-los a melhorar o carro, e esse é seu pior momento; em contrapartida, quando Lauda se deixa levar pela emoção e dirige de forma tão temerária quanto Hunt (em um dia chuvoso no circuito mais perigoso da temporada!), ele sofre um grave acidente, quase morre, ganha horrorosas cicatrizes e fica fora de várias provas, sendo este seu pior momento. Você é levado a pensar: “Nossa, mas seria fantástico se houvesse um piloto que conseguisse combinar as melhores características desses dois caras, a direção animal de um e a precisão e dedicação exemplares do outro!”. Aí eu me lembrei desse video, principalmente os momentos 4:50s e 8:30s.

Rush está nessa lista basicamente para representar os filmaços super divertidos que vi esse ano, dos quais vale mencionar Elysium e Gravidade, sendo que este último também contém interessantes metáforas sobre as difíceis situações que os personagens enfrentam no trabalho e aquelas que eles enfrentam na vida. Não menciono os filmaços de super-heróis, robôs gigantes ou aventuras espaciais pois assisto esses mais por nostalgia dos meus antigos vícios (quadrinhos, séries, etc.) do que pela cinematografia. Ou seja, essa lista vai ficar ainda mais séria (lê-se “chata” ou “relevante”, a depender do leitor) daqui pra frente.

9. Segredos de Sangue (2013)

De cara, percebe-se a íntima relação entre “Segredos de Sangue” e o clássico de Hitchcock A Sombra de Uma Dúvida, e por isso (e porque “A Sombra de Uma Dúvida” também está entre os melhores que assisti em 2013), fica aqui uma análise dos dois.

Em “A Sombra de uma Dúvida” (1943), somos apresentados à inocente, vívida e curiosa adolescente Charlie (Teresa Wright), que mora no interior dos EUA com sua família e se sente extremamente sufocada por sua vida monótona. Ela nutre uma grande afeição por seu tio Charlie (Jospeh Cotten) e até pensa em visitá-lo na cidade grande, onde espera conversas e interações mais intelectualmente estimulantes do que pode encontrar em sua cidade natal.

Coincidentemente, o tio Charlie resolve visitá-los e ela não precisa fazer a tal viagem. A essa altura, já havíamos sido apresentados ao tio Charlie e sua vida na cidade, e é aí que nasce o suspense. Não apenas o tio apresenta as características de um perigoso sociopata, mas uns caras tão sombrios quanto ele o estão seguindo. Nos primeiros 20 minutos de filme, antes mesmo de Charlie e o tio se encontrarem, a angustia está instaurada: você simplesmente não quer ver aquela garota curiosa e inocente interagindo com um sociopata manipulador cuja periculosidade ainda é desconhecida, ainda mais quando a garota o põe em um pedestal e confia cegamente nele.

Não fica claro de onde vem toda essa admiração, mas provavelmente provém de experiências que eles tiveram quando ela era ainda mais inocente, o que lhe dá a certeza de que ela tem muito em comum com o tio. Ao longo do filme, por mais que ela resista em ligar os fatos, a confiança depositada nele vai se desfazendo e ela começa a suspeitar de que talvez seu tio Charlie seja um perigosíssimo criminoso que está sendo procurado por todo país.

A suspeita é tanta que o tio Charlie resolve “se livrar” da sobrinha. Mas ela sobrevive, e sua inocência dá lugar à um feroz instinto de sobrevivência, alimentado também pela necessidade de proteger sua família. Família essa que não tem a menor ideia de que, a partir de determinado momento, o tio e a sobrinha estão tentando matar um ao outro em uma série de “acidentes” domésticos. Vamos concordar que isso é um tanto genial. O próprio Hitchcock elegeu “A Sombra de Um Dúvida” como seu filme favorito dentre sua extensa lista de trabalhos, justamente por trazer o assassinato “de volta ao lar, que é onde ele legitimamente pertence”.

Já em “Segredos de Sangue”, a tímida e introspectiva jovem India (Mia Wasikowska), ainda em luto pela repentina morte de seu pai, se vê surpreendida pelo aparecimento de seu tio Charlie (Matthew Goode), membro da família cuja existência era praticamente desconhecida. Onde ele estava? Por que seu pai escondeu sua existência? Por que seu pai não entregou todas aquelas cartas que o tio Charlie havia lhe enviado e que só agora ela encontrou, trancadas em uma gaveta?

Ela resiste o quanto pode à insistência do tio em se aproximar, mas a aura de mistério ao seu redor e alguns eventos sombrios que revelam o quanto eles têm em comum a levam a aceitar o tio como mentor. À essa altura, a mãe (Nicole Kidman) já foi completamente seduzida pelo ex-cunhado e a situação começa a sair do controle, mas India já havia sido preparada para isso.

Segredos de Sangue” não é necessariamente uma releitura de “A Sombra de uma Dúvida”, mas mais uma homenagem ao filme de Hitchcock, pegando vários elementos dele e construindo uma ambientação ainda mais perigosa e certamente mais sensual, imprimindo assim a assinatura própria do diretor Chan-wook Park, mais conhecido por Oldboy e Sede de Sangue. É justamente sua direção firme e confiante que faz de “Segredos de Sangue” uma bela homenagem, que se garante com suas próprias qualidades.

8. O Guia Pervertido do Cinema (2006)

A sinopse disponível nesse link já faz um bom resumo do que se trata essa obra e não vou repeti-la aqui. Apenas adiciono o seguinte: é um ótimo filme e fantasticamente divertido de se assistir, mas não é tão leve quanto parece e nem deve ser simplesmente aceito por quem o assiste. O raciocínio conduzido por Zizek é muito convincente, mas não se deve deixar-se convencer. Mais importante do que aceitar ou refutar tudo o que ele diz, é refletir sobre essas interpretações e sobrepô-las às suas próprias, chegando às suas próprias conclusões (ou seus próprios questionamentos, que são bem mais interessantes). Um dos principais atrativos desse filme é a galeria de clipes de vários filmes que você já viu ou que você provavelmente vai querer ver. Uma verdadeira homenagem ao cinema, acompanhada de psicanálise e filosofia.

No ano passado, foi lançada sua continuação: O Guia Pervertido da Ideologia. Utilizando o mesmo formato, Zizek faz uma análise do quanto há de ideologia não apenas no cinema mas também em nosso dia-a-dia. Essa análise é feita a partir de filmes que vão desde exemplares de propaganda nazista e comunista até novos sucessos de bilheteria, como “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, passando por clássicos como “Laranja Mecânica” e “Titanic”. Enquanto alguns desses tentam impor uma ideologia, é mostrado também como alguns deles expõem a ideologia intrínseca à qualquer obra (não apenas de cinema, mas também livros, músicas, etc.) ou a ideologia intrínseca à nossa sociedade. Também é analisada a relação entre ideologia e religião.

Recomendo os dois para quando você estiver mais afim de refletir sobre filmes do que de assisti-los.

7. A Hora Mais Escura (2012)

Propaganda ou denúncia? Nesse caso, a propaganda ou a denúncia estão nos olhos de quem vê. A diretora Kathryn Bigelow e o roteirista Mark Boal fazem aqui o máximo possível para entregar uma dramatização imparcial da caçada e assassinato de Osama Bin Laden. Independente das polêmicas (como a CIA ter fornecido informações sigilosas para os realizadores do filme, o que está sendo investigado pelo congresso americano) e da veracidade do relato (não sei se você sabe, mas não é todo dia que a CIA ou o governo americano falam a verdade…), o filme é uma pequena obra-prima.

Parte da genialidade aqui está em fazer um relato quase jornalístico da caçada, em alguns momentos até abrindo mão da liberdade poética da adaptação para se ater necessariamente às informações às quais os realizadores tiveram acesso. Fica a impressão de que muito pouco foi adicionado para deixar a narrativa mais palatável para o público. Pode ser apenas uma impressão, é claro. Outro destaque fica para a forma quase documental pela qual é mostrada a ação que supostamente matou Bin Laden. Os 40 minutos finais do filme são dedicados à ela, e os personagens que você conhecia, incluindo a protagonista, sequer aparecem durante esse tempo. A ação mostra como realmente (eu acho) age uma equipe das forças especiais americanas, sem a romantização dos honrados-soldados-hérois-ninjas presente em filmes de ação e vídeo games. Quando esses soldados entram no complexo, os homens presentes na casa são abatidos assim que são vistos, enquanto mulheres e crianças em pânico são agredidas e arrastadas para um cômodo “seguro”. É esse tipo de relato que se escuta de zonas de guerras reais. E é por isso que digo que a propaganda ou denúncia está nos olhos de quem vê: há quem diga que esse tipo de ação é truculenta e inaceitável, mas também há quem diga que os soldados devem fazer tudo o que for necessário para garantir a segurança dos cidadãos americanos. Nesse caso, não era bem uma questão de defender os cidadãos americanos, mas sim de vinga-los.

A outra parte da genialidade aqui está na personagem principal. Assim como em Guerra ao Terror, os realizadores conseguem diminuir consideravelmente o papel da ideologia na motivação de seus protagonistas. O especialista em explosivos em “Guerra ao Terror” volta ao campo de batalha não porque ele quer salvar o seu país ou contribuir para a “libertação” do país invadido, mas sim porque ele gosta do que faz. Ele o faz pela adrenalina, pelo perigo, para se sentir vivo, apesar de dizer que o faz por um sentimento de dever em relação à pátria. Em “A Hora Mais Escura”, a protagonista o faz porque simplesmente é isso o que ela faz, e é isso o que ela sabe fazer. Lá pelas tantas, é revelado que ela saiu do colégio e foi direto para a CIA, e trabalha lá há quase 10 anos com a mesma missão: localizar Bin Laden. É aqui que você entende sua obsessão, e porque ela é capaz de enfrentar toda a morosidade e burocracia de uma cansada CIA para atingir seu objetivo. Depois que ela faz o reconhecimento do corpo de Bin Laden, pois ela é a especialista sobre o terrorista, é possível contemplar em seus olhos o vazio existencial no qual ela é lançada. A missão de vida dela foi cumprida, e agora?

Esses dois filmes humanizam os agentes da potência imperialista. Muitos podem discordar da importância de humaniza-los, e podem dizer que o importante é humanizar suas vítimas, os civis inocentes mortos pelos soldados, muitas vezes com base em informações que os analistas não se preocuparam em confirmar. Mas a questão é: se para humanizar um dos lados de um conflito você precisa desumanizar outro, o tal conflito continuará desumano.

E falando em humanização, um outro ótimo exemplar que assisti esse ano é Capitão Phillips, mas deixo a análise por conta desse link.

6. Terapia de Risco (2013)

Não sei se esse filme deveria estar em posição tão avançada nesse ranking, mas com certeza ele merece a menção. Enquanto “Segredos de Sangue” é uma homenagem à uma determinada obra de Hitchcock, o diretor Steven Soderbergh conduz “Terapia de Risco” como se fosse o próprio Hitchcock. E não falha. Acho que o coloco em uma posição tão alta porque o diretor copia uma das características mais ousadas do mestre do suspense: ele faz uma reviravolta no gênero do filme.

Muitos filmes fazem muito sucesso e são amplamente aclamados por terem um final surpreendente: “O Sexto Sentido”, “Os Suspeitos”, “Clube da Luta”, etc. Nesses, a trama caminha em seu ritmo normal e no final é feita uma revelação que muda a forma como você vê tudo o que havia sido mostrado, resultando em uma conclusão surpreendente. E pronto, fim da história. Porém, são bem mais raros aqueles filmes que se vendem como uma coisa e no desenrolar da história se tornam outra. Imagine um filme que comece como um romance e termine como um sombrio suspense. Hitchcock faz isso em “Um Corpo que Cai”, e distorce o gênero da comédia em “Festim Diabólico”.

“Terapia de Risco” começa como um sombrio e arrastado drama psicológico. A protagonista vê nos anti-depressivos sua única chance de salvação. Ela quer se manter estável o suficiente para servir como alicerce para seu marido, que acaba de sair da prisão e tem que reconstruir suas vidas. Ela inclusive se dispõe a testar uma nova droga, cujos efeitos colaterais ainda não são bem conhecidos. Nesse ponto, você acha que a história resultará em uma triste tragédia, mas algo surpreendente acontece e o filme toma outra direção. Ora, então temos aqui um denso drama de tribunal, com relevantes questões éticas sobre a responsabilidade dos médicos ao receitar novas drogas aos seus pacientes. Mas felizmente, de um jeito ou de outro, toda a situação é resolvida. Calma. Alguém vê uma ponta solta e se pergunta: E se…? Esse alguém fica obcecado com essa possibilidade, e é aí que começa a diversão. Re-assisto sempre que possível.

Olha, é bem provável que no futuro próximo eu publique a segunda parte dessa lista. Provável.

Atualização:

Quase ia esquecendo de adicionar um link para a Parte 2.