Crítica: Vingadores – Guerra Infinita

Avengers: Infinity War, EUA, 2018


Filme não decepciona e deixa o Universo Cinematográfico da Marvel à beira de seu grande clímax

★★★★★


Os responsáveis pelo MCU (Universo Cinematográfico Marvel, coordenado por Kevin Feige) mais uma vez conseguem o improvável e realizam um adaptação de HQs que vai além de todas as expectativas. Do ponto de vista estritamente cinematográfico, Vingadores: Guerra Infinita está longe da perfeição. Porém, como veículo de entretenimento, esse filme tem garantido um lugar especial no “hall da fama” da cultura pop. Mais que isso, ele recompensa os fãs que estão há aproximadamente 10 anos acompanhando pacientemente a construção de uma misteriosa trama costurada por um vilão desconhecido.

Essa trama de longo prazo é um dos motivos pelo qual Vingadores: Guerra Infinita não é um filme completo. A narrativa não perde tempo apresentando personagens e parte direto para a ação. Para entender plenamente o peso dramático de certos acontecimentos, como reencontros e primeiros contatos entre personagens, o espectador precisa conhecer os eventos da maioria dos 18 filmes anteriores. Além disso, esse terceiro filme dos Vingadores já havia sido concebido como a primeira parte de uma história de duas partes. Seu título original era “Vingadores: Guerra Infinita – Parte 1”, enquanto o quarto filme dos Vingadores seria “Vingadores: Guerra Infinita – Parte 2”. O novo título do quarto filme ainda será anunciado.

Com a participação de muitos dos personagens apresentados nos filmes anteriores, Guerra Infinita jamais pretendeu ser um filme “enxuto”, e parecia quase impossível equilibrar essas dezenas de personagens em tela. Porém, os diretores Anthony e Joe Russo conseguem a façanha de atingir esse equilíbrio durante 100% das 2h30m de projeção, o que pode ser considerado um grande feito de montagem e edição. A continuidade é quase impecável, mesmo com as mudanças de tom da narrativa de acordo com os personagens e/ou locais que estão em cena.

Uma vez que os personagens não tem tempo para colocar a conversa em dia ou se conhecerem melhor, a narrativa conta com o desenvolvimento que eles tiveram nos filmes anteriores, tentando explorar apenas a dinâmica de novos relacionamentos. A relação amorosa entre a Feiticeira Escarlate/Wanda Maximoff (Elisabeth Olsen) e Visão (Paul Bettany) já se encontra amadurecida o suficiente para ser um dos grande focos dramáticos da história. A volta da “banda rebelde” dos Vingadores, separada em Capitão América: Guerra Civil e liderada por Steve Rogers (Chris Evans) em sua encarnação como Nômade ao invés de Capitão América, proporciona alguns reencontros interessantes, mas que são ofuscadas pela ação quase desenfreada que os cerca.

No quesito humor, a grande sacada do roteiro é dar um foco maior às interações entre alguns dos personagens mais egocêntricos desse universo. O espectador não apenas é presenteado com o conflito de egos entre Peter Quill/Senhor das Estrelas (Chris Pratt) e Thor (Chris Hemsworth) e entre o Homem de Ferro/Tony Stark (Robert Downey Jr.) e o Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch), mas também entre os Guardiões da Galáxia e tanto Thor quanto Stark. Já todas as interações que envolvem o Homem-Aranha/Peter Parker (Tom Holland) são tão engraçadas quanto fieis a uma das principais características do herói nos quadrinhos: o bom-humor e as piadinhas mesmo durante as batalhas.

O único relacionamento realmente explorado pela trama é entre o vilão Thanos (Josh Brolin) e sua filha adotiva Gamora (Zoe Saldana), que também faz parte dos Guardiões da Galáxia. O vilão é o único personagem de Vingadores: Guerra Infinita que realmente precisa de desenvolvimento e a narrativa o faz com a ajuda de Gamora. Ele havia sido introduzido em The Avengers: Os Vingadores e até agora era mostrado apenas como um personagem tão misterioso quanto unidimensional. Mas aqui finalmente entendemos o que há por trás de sua incessante busca pelas Joias do Infinito.

Seu desejo de trazer equilíbrio ao Universo por meio da eliminação de metade de sua população não faz sentido pelos mais diversos motivos. Se os desequilíbrios existentes em seu Universo são parecidos com os que existem no nosso, o fato de que parte da população não tem acesso a recursos básicos está menos ligado a questão da escassez e mais ligados a problemas de distribuição. Ainda que os recursos sejam finitos, o uso de tecnologias que aumentam a capacidade de renovação e o consumo sustentável são suficientes para nos dar o tempo necessário para traçar estratégias demográficas de longo prazo.

Porém, o que torna Thanos tão “atraente” como vilão não são seus motivos, mas sua obstinação. As perdas traumáticas que ele sofreu no passado o tornam um prisioneiro de uma ideia fixa; uma obsessão que acaba se tornando a sua missão nessa existência. Isso o aproxima daquele que era o melhor vilão do MCU: o Killmonger de Michael B. Jordan em Pantera Negra. Agora, os dois antagonistas ocupam o topo juntos. Conhecido nos quadrinhos como “O Titã Louco”, Thanos também lembra o fanático Coronel (Woody Harrelson) de Planeta dos Macacos: A Guerra (crítica aqui), que também vê o genocídio como única forma de resolver um problema de sobrevivência.

Mas mais do que um vilão implacável, ele também é um vilão vulnerável. Sua difícil relação com Gamora e os momentos nos quais ele enfrenta a certeza da derrota humanizam um personagem que poderia ser apenas uma caricata força “do mal”. O espectador pode não concordar com ele, mas sua resiliência é admirável (outro ponto que o aproxima de Killmonger). Não é à toa que sua busca intergaláctica seja o principal arco narrativo dessa produção.

Toda essa profundidade e os riscos envolvidos dão um peso extra às fantásticas cenas de ação de Vingadores: Guerra Infinita, que podem ser consideradas as melhores e mais épicas dessa mega-franquia. A Feiticeira Escarlate e o Doutor Estranho são dois dos destaques, usando seus poderes de formas mais intensas e visualmente impressionantes do que em quaisquer dos outros filmes nos quais apareceram. Já o Homem de Ferro surpreende com as possibilidades oferecidas pela nanotecnologia de seu novo traje, o que dá a Stark a possibilidade de remodelá-lo com velocidade e de acordo com sua necessidade.

Mas nessa frente, talvez os grandes destaques sejam Thor e Thanos. Sobre os asgardiano, basta dizer que nas duas sessões que assisti, o público aplaudiu o herói nos dois momentos em que ele entrou 100% no modo Deus do Trovão, como o fez na batalha final de Thor: Ragnarok (crítica aqui). Já Thanos deixa claro na cena de abertura que nenhum Vingador será páreo para ele, derrotando dois deles de forma traumatizante nos minutos iniciais.

Mesmo a batalha campal em Wakanda, que poderia ter sido uma simples reedição da que que ocorre no final de Pantera Negra, apresenta diversas novidades em termos de ação, com destaque para James Rhodes/Máquina de Guerra (Don Cheadle), Natasha Romanoff/Viúva Negra (Scarlett Johansson), Okoye (Danai Gurira) e Sam Wilson/Falcão (Anthony Mackie). Tanto esses quanto os outros personagens parecem estar de suas habilidades para esse grande evento.

Mais épico e sombrio do que qualquer um dos filmes anteriores do MCU, Vingadores: Guerra Infinita pode decepcionar apenas quem esperava um filme completo. Apesar do final ser bem amarrado, ele também pode ser considerado um cliffhanger, já que não oferece uma resolução satisfatória. Independente disso, Guerra Infinita é um completo espetáculo de ação e efeitos especiais que faz valer a pena os anos de espera de milhões de fãs ao redor do mundo.

Comentários com Spoilers

Já era esperado que alguns dos Vingadores não sobreviveriam a Guerra Infinita. Os contratos dos atores que interpretam os Vingadores originais já estão no fim e tanto eles (com exceção de Chris Hemsworth) quanto o estúdio já deram sinais de que não querem continuar com os personagens. E é por isso que a lista de heróis mortos em Guerra Infinita é tão surpreendente: foram justamente aqueles que continuariam o trabalho da equipe original. Personagens como o Homem-Aranha, o Pantera Negra e o Doutor Estranho possuem apenas um filme cada no MCU, e algumas de suas continuações já foram anunciadas. Há também a conclusão da trilogia dos Guardiões da Galáxia (prevista para 2020), dos quais sobreviveram apenas Rocket Racoon (Bradley Cooper) e Nebulosa (Karen Gillan).

Na prática, o único problema que isso causa é o da previsibilidade: já podemos imaginar que muitos dos heróis mortos irão, de alguma forma, voltar à vida em Vingadores 4. A ressurreição de personagens é um mote típico de histórias em quadrinhos e nada mais natural do que trazê-lo para o cinema. Inclusive, há pelo menos um precedente: a volta do Superman (Henry Cavill) em Liga da Justiça (crítica aqui).

Mas isso também cria uma situação muito interessante: os Vingadores originais finalmente vão se reunir (o que não ocorre em Guerra Infinita) e irão salvar o dia, provavelmente se sacrificando no processo. Em outras palavras, Vingadores 4 vai funcionar como uma grande despedida da equipe que acompanhamos ao longo dos últimos 10 anos e será a passagem oficial do manto para os Novos Vingadores. Resta saber se eles serão mortos um a um por Thanos, como aconteceu com Loki (Tom Hiddleston) e Gamora em Guerra Infinita.

Essa continuação tem tudo para ser ainda mais épica do que Guerra Infinita: a volta do Hulk (Mark Ruffalo), que deixa Banner na mão e não quer mais aparecer depois de levar um surra histórica de Thanos; a volta de Clint Barton/Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), que não apareceu em Guerra Infinita pois, assim como o Homem-Formiga/Scott Lang (Paul Rudd), fez um acordo de prisão domiciliar para não ser mais caçado pelo governo e poder ficar com sua família; o reencontro entre Tony Stark e Steve Rogers, que deve voltar ao uniforme de Capitão América; a chegada da Capitã Marvel (Brie Larson), que, com seus poderes cósmicos, também deve ter um papel central na trama. A estreia de Vingadores 4 está prevista para Maio de 2019.

Até lá, dois outros filmes do MCU serão lançados: a aventura Homem-Formiga e a Vespa chega em Julho de 2018, enquanto Capitã Marvel está previsto para Março de 2019. Esse último, que se passa na década de 1990, vai introduzir a Capitã no MCU e mostrar como Nick Fury (Samuel L. Jackson) a conheceu. É ela que Fury aciona na cena pós-créditos de Vingadores: Guerra Infinita, com um pager que deve chamá-la de algum ponto do tempo ou espaço.